barrocidade


A mercê das Mercedes

Amador Ribeiro Neto

 

Com um texto estruturado sob diferentes enfoques  temáticos e espaço-temporais, que se interpenetram, Mercedes, escrita e dirigida por Paulo Vieira, é um espetáculo teatral de grande impacto. Englobando os anos de chumbo da história recente de nosso país, e fazendo confluir histórias pessoais das personagens, ele consegue abarcar os universos social e particular com admirável força.

Os diálogos, mantendo o frescor da fala coloquial, oxigenam as cenas, mesmo as mais pesadas pela carga de tortura que a ditadura militar nos impôs.   Em tempo: a cena da tortura de Mercedes, feita sem uma palavra, apenas com sons e jogos de luz, mais o corpo desnudado da personagem, são de grande precisão e impacto. Ainda que transcorra em brevíssimos minutos. A atriz Suzy Lopes, uma das Mercedes, usa a voz em gritos de desespero que despertam o temor e o medo na plateia. A luz vermelha tinge de sangue todo o cenário. E na cena seguinte, quando a faxineira entra com o balde e o pano de chão entendemos claramente que ela vem recolher os destroços causados pelo mundo cão da ditadura militar. O autor do texto convive em harmonia com o diretor, de forma que o público é quem ganha nesta soma de talentos.

Contrapondo à tensão política há o momento de relaxamento quando as personagens rememoram suas vidas na época da contracultura e da vida hippie. A era de Aquário é muito bem lembrada numa cena também rápida, mas no ritmo certo para que se possa reviver que, mesmo sob a batuta dos coturnos, havia uma outra vida pulsando. E ela vinha de Janis Joplin, de Jimi Hendrix, de Woodstock.

1968, o ano que não acabou. O ano que consolidou o pesadelo do revigoramento do cerceamento das liberdades individuais e sociais. A imposição do AI-5. Tempos de grande medo, insegurança, intranquilidade.  Ouvir uma canção do Vandré era ato subversivo, lembra a peça.

Assim, Mercedes revolucionária, apaixonada por um jovem político engajado, decepciona-se ao vê-lo aderir aos militares e atuar como informante. Grávida dele, renega a filha, que vem a se chamar também Mercedes. O tempo passa, o bebê cresce, vira uma jovem. Herdara uma casa. De quem? Por que lhe fora negada sua verdadeira origem? Mirtes, a professora, não era sua mãe? Seu pai não desaparecera nos quiproquós dos bastidores da ditadura?

Aos poucos, as cenas de tempo e espaço diversos vão se encaixando como um módulo em sequência primorosa. O espanto toma conta  dos espectadores. A peça tem o cuidado de não fazer nenhum juízo de valor. O público vê a história do país, e de uma família, cruzarem-se como nós de uma trama orquestrada em compassos hipnóticos.

A orfandade da menina Mercedes, a vida sem saída da revolucionária Mercedes, o carro Mercedes-Benz do deputado: a vida parece seguir à mercê das Mercedes.  A música desenha as cenas em complemento, nunca como mera ilustração. Há um diálogo entre música e texto dramático. Assim como há com o uso da luz, do vestuário e do cenário.

Mercedes é uma peça que fala de política sem ser panfletária, e que fala do amor sem ser piegas. Os ideais, os projetos, as perdas e as frustrações sucedem-se como se o percurso da história pessoal e social deste país fosse apenas um dado a mais no jogo de cartas marcadas da ditadura militar.

Dói  lembrar. Mas viva o teatro que faz pensar e sensibiliza mentes e corações. Viva Mercedes. Parabéns ao Grupo Galhofa de Teatro de João Pessoa.

 

 

Publicado pelo Correio das Artes, suplemento cultural do jornal A União, de João Pessoa, janeiro/2015. Ano LXV, nº 11, p. 45-46.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 21:01
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Poesia, ritmo e riso

Amador Ribeiro Neto

 

Ricardo Silvestrin (Porto Alegre, 1963), é poeta, contista, romancista e músico. Por cinco vezes foi contemplado com o Prêmio Açorianos de Literatura. Metal (Porto Alegre: Ed. Artes e Ofícios) é finalista do Prêmio Portugal Telecom.

Fica claro ao ler este livro que ele busca a musicalidade bem como a espontaneidade da fala. Não só: ele sabe valer-se de recursos da poesia oriental e da concreta. E o faz muito bem.

 No livro de estreia Viagem dos olhos (1985) já percebemos isto: “o jogo do pandeiro / nas mãos do sambista / quem é o instrumento / quem é o artista”. Lembra Valéry perguntando se existe a dança sem o dançarino.

Bashô um santo em mim (1988) começa numa síntese poética que brinca com o paradoxo: “poemas a esmo / introdução / a mim mesmo”. Quase eu (1992) segue no mesmo compasso: “praça grega / o poeta e a lira / a massa delira”. Palavra mágica (1994) vem recheado de haicais instigantes e iluminados: “luzes da cidade / e um céu de estrelas / só por vaidade”.

 Em 2004 com ex, Peri, mental apresenta poemas feitos a partir de frases de jornais e revistas, num procedimento que paga tributo a Manuel Bandeira. Sem fazer feio. Há também uma série de poemas de um só verso. Alguns, convenhamos, desimportantes. Todavia, há poemas visuais de grande relevância. Um bom e belo livro.

O menos vendido possui 336 páginas de poesia vazada pelo humor de chistes, insights e ironias cáusticas. Poemas longos, quadras e poemas de um verso. Poesia de fina safra. E humor à vera.

No recente Metal, a desilusão, o desassossego, o desconforto e o ceticismo fazem-se presentes. Mas, repito, a ironia e o humor continuam dando o tom dos poemas numa fala cantada. Ou como bem anota Carlos Felipe Moisés no prefácio: “O tônus dominante do livro é marcado pelo espanto diante da vida que flui”.

Dividido em duas partes, toma na primeira a metalinguagem verbal como matéria de um único poema, subdivido em partes que têm autonomia entre si. Não é por menos que esta parte se intitula “A encosta recortada do poema”. E inicia-se com: “Não me pergunte pra que serve a arte”. E conclui: “pra que serve, / pra que a vida serviria?”. As pontas da arte e da vida e seu sentido postos em cheque.

Num tempo em que nossos poetas estão escrevendo sobre nada, a sabedoria de questionar a vida e arte é bem-vinda. Mas há também poemas desiguais aqui: “o perigo do amor / é o outro sumir / ao contrário / do que se pensa / ficar invisível / é mais simples / do que aparenta”. A rima é forçada. O trocadilho “invisível / aparenta”, frouxo.

Na segunda parte, intitulada “Acervo pessoal”, 42 poemas breves tomam a pintura como metalinguagem do ato de pintar, desenhar, fazer instalação, descrever ou narrar cenas de quadros. Boa parte delas, bem feita. Outra, negligente. Mereceria uma revisão com a calma dos livros anteriores.

 

O livro é bom. Mas considerando a produção de Ricardo Silvestrin, fica atrás.

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 02:04
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Poesia de cantilenas

Amador Ribeiro Neto

 

Salgado Maranhão, maranhense, nasceu em 1953. Poeta, jornalista, letrista de canções e consultor cultural, em 1999 ganhou o Jabuti por Mural de ventos. Em 2011 recebeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com A cor da palavra. Com O mapa da tribo (Rio: 7 Letras) é finalista do Portugal Telecom 2014.

No prefácio, Domicio Proença Filho afirma que este livro “amplia os espaços poéticos da obra em expansão de Salgado Maranhão”. E continua: “sua tribo é a dos viventes do agreste” e “o poeta se revisita em profundidade”. Ele está corretíssimo.

Todavia, não sei se movido pela pressa, ou por outro motivo, afirma que o livro tem cinco partes, quando tem seis. Observa que “na estruturação alternam textos em verso e poemas em prosa poética”. Não é bem assim. Apenas a primeira parte está organizada desta forma. Mais: declara que há na última parte um “diálogo intertextual com o Guesa de Sousândrade”, quando na verdade apenas um poema desta sessão procede assim. Numa nova edição convém rever tais deslizes do prefácio.

Para Iracy Conceição de Sousa, no posfácio, “definitivamente seu livro é o desdobramento de uma busca pela essência da própria busca”. Ela não justifica tal assertiva, que me parece gratuita. Sim, fica claro que o eu lírico vai ao passado à procura de sua origem. Bem como intenta dar corpo a uma linguagem que cita a si própria. Funções bem definidas. Buscar a essência “da própria busca” é filosofia demais.

Salgado Maranhão escreveu um livro bem comportado. Não é difícil identificar sonetos decassílabos heroicos. Mesmo quando não formatados no esquema petrarquiano de duas quadras e dois tercetos. Há quadras em redondilha maior, ao modo dos cantadores de viola nordestinos. E haicais admiráveis.

No geral, ele não ousa nos temas nem na forma. Dá conta do recado. Possui versos bonitos como: “Tudo está gravado / num espelho sem face, / que vê para dentro / como o olho dos cegos”. Ou esta outra quadra: “E avanço / entre cerradas urbes, / cardando rimas / que me traduzem”.

Destaco três dos que me parecem ser os mais belos versos do livro: “Não há receios nem compulsão. / Há somente a foz do orgasmo / de um oceano insondável”. A beleza da “voz”, que ecoa foneticamente em “foz”, e do “som” que reverbera em “insondável”, dá a tessitura erótica da cena que se insinua. Rigor da linguagem.

Mais: “Nômade entre anônimos / recolho a poesia / in natura”. Bonito. Porém, na sequência, ele escorrega em metáforas surradas: “ante os glóbulos da noite / e o céu de rubis”. Uma pena.

Da mesma forma, o uso abundante das metáforas, o excesso de adjetivos, não raro ligados ao nonsense, tornam a leitura cansativa. E a feitura dos poemas previsível. É o que temos em: “São tropéis de relâmpagos / nas veias, cacos de um céu / furta-cor, inconsútil, ante / a convulsão das tripas ocas / e o tráfico de abismos”. Ou: “Não posso antever / além do halo de metáforas / ávidas e/ou / vulcão rugindo luas”. Ou: “Parido / desde a jaula do peito / o real devora o conceito”.

 

Há boa poesia. E há lengalenga em O mapa da tribo.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:59
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Poesia e exatidão

Amador Ribeiro Neto

 

Gastão Cruz é português. Nasceu em Faro, capital do Algarve, em1941. Poeta, crítico de literatura e tradutor, com Observação do verão seguido de Fogo (Rio de Janeiro: Móbile) é finalista ao Prêmio Portugal Telecom 2014, em poesia. Esta é sua segunda indicação ao prêmio. Em 2011 também fora com Escarpas.

Observação do verão traz poemas redigidos numa sintaxe que usa minimamente pontuação. E joga com a estruturalidade dos versos produzindo inusitadas leituras rítmicas e semânticas. Além disto, a interrupção da linearidade das imagens, associada a ideias inconclusas, dá o tom diferencial e singular de Gastão Cruz nesta primeira parte do volume.

No poema “Aniversário”, por exemplo, cada estrofe encerra um universo: “Este dia situa-se no vértice / errado do verão // Entre o poema e o sol hesito mas decido / reconstruir o dia / mesmo que edificá-lo não termine // Que dia ergo como se poesia / ele não fosse? E lembro o aniversário / que não divide o verão / somente agosto // Fosse um erro a verdade do verão, / a ilusão de que ninguém está morto”. A linguagem é a da bricolagem de percepções em devir contínuo.

A data do aniversário é um referente de referências dissimuladas. A vida é simulacro e representação. O poema se dá neste interstício entre o objeto e o que se pensa dele. Não o que ele é. Ou o que ele encerra.

Esta parte do volume consolida-se numa linguagem cuja exatidão se dá na feitura de uma expressão literalmente atada à materialidade das palavras.

Em Fogo a dicção poética se altera. Os 42 poemas, todos apenas numerados, elegem a coloquialidade como recurso de linguagem. Ser coloquial aqui é conhecer a língua do povo e usá-la com maestria poética. Ou seja: com o sabor do que é leve e inesperado. Em outras palavras: do trivial revisitado.

Ir ao cinema, sem dinheiro, e comer num bar reles, deixa de ser clichê  quando o poeta insere a representação como matéria de reflexão do eu-poético: “Íamos ao cinema com dinheiro / emprestado e comíamos depois num / snack-bar e isso / podia parecer o paraíso / se tal palavra para nó fizesse / algum sentido ou tivéssemos / sequer plena consciência do vivido”.

A suspensão dos sentidos, todavia, continua nesta segunda parte do volume. No poema 17 a poesia bica-se com a filosofia. Deste embate salva-se a palavra na sua concretude mais palpável: meio por excelência da poesia: “Há perguntas a que não sei responder / respondi, e fiquei a pensar se existiria / alguma a que soubesse dar resposta; / fizemos as perguntas: isto fora / o começo de um verso / perdido no olvido ou apenas, / como o voo do tempo, suspendido”.

 

Gastão Cruz, em Observação do verão seguido de Fogo faz o leitor repensar a poesia enquanto produtora de diversas dicções. Todas, no entanto, apontando para o ato de refletir sobre a representação poética e sobre a produção do poema. Um poeta que deve ser lido com atenção e deleite.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:55
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Poesia sim e não

Amador Ribeiro Neto

 

Edson Cruz é um grande ativista da literatura na Internet. E fora dela. É fundador e editor dos sites Cronópios e Musa Rara, além da revista Mnemozine. Está sempre on line envolvido com a arte da palavra. Responsável pela curadoria e mediação do ciclo de palestras “O que é poesia”, na Casa das Rosas. Poeta, publicou Sortilégio, Sambaqui e Ilhéu. Este último, lançado pela editora Patuá, com projeto gráfico, capa e ilustrações impecáveis de Leonardo Mathias, é finalista do Prêmio Portugal Telecom 2014.

A poesia de Ilhéu é a expressão do biografismo geográfico, intelectual e espiritual de Edson Cruz. A memória da vida familiar no interior baiano, bem como as referências literárias e as do pensamento oriental são o fundo de cena de sua poesia.

Ele abre o livro com um poema metalinguístico desde o título, “Epígrafe”: “Um ilhéu / fazendo a travessia. / Acima dele o céu. / Abaixo, a maresia. / Entre os fios de seu enleio / a vida fugidia”. Esta sextilha é emblemática do volume.

O tempo todo o eu lírico oscila entre a terra deixada pra trás e a nova vida na nova cidade. Cujos índices apontam para uma metrópole. Deste desconforto e desta adaptação nascem a angústia e a receptividade. O eu sabe-se entre dois grandes infinitos: o céu e o mar. A memória e a realidade presente.

Mais: sabe que tece a vida fugidia. Daí a necessidade de vivenciar plenamente o aqui e agora. Cito “Zoom”: “Carpe diem. / A vida é / curta. // Carpas riem. / O azul do dia / zune. // O céu refletido / nas águas. / Lume”. O poeta vai fundo. Lume é fogo. É luz e clarão. Mas é também perspicácia, sabedoria, doutrina.

Além disto ele torna camaleônico o vocábulo “lume”: ora substantivo, ora verbo. Tal como a vida se dá: fugidia, concreta, dissimulada, sagaz. A linguagem cumprindo sua maior função: a poética. Ao pé da letra. Ao pé do poema.

Há versos de grande plasticidade: “As crianças equilibram borboletas / e planetas”. E estes: “Somos rascunhos esquecidos / dos hiperbóreos”.

Os haicais da série “Bonsais” são igualmente bem realizados. Aqui a condensação das ideias e imagens, associada a uma admirável musicalidade minimalista, produz flores de lótus como: “Sabiá trinando. / Parece que a vida toda / carmim se aveluda”. A sequência de vocábulos com a tônica “i”, distribuída uma em cada verso, ecoa ao longo do poema o gorjear do sabiá.

Mas nem sempre é assim. Edson Cruz derrapa quando relaxa. Quando vale-se do coloquial. E não consegue ir além do prosaico. Como em: “Meu currículo não Lates / mas morde”. Ou: “cada criança que nasce // é uma aposta de que ainda podemos vir a ser / humanos”. Se versos assim não mantêm o grau de excelência que o poeta demonstra em outros poemas, por que constam do livro?

 

  Na mesma tecla: como entender a inclusão do poema “Rubrica”? Cito-o: “Se a Florbela / não Espanca, / a poesia / não encanta. // Todo poeta precisa ser / espancado”. Isto nos remete à lamentável produção dos poetas neomarginais. Mas Edson Cruz não é um deles. Ele conhece poesia. Sabe fazê-la. Pena que relaxe em Ilhéu

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:49
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Poesia e realidade

Amador Ribeiro Neto


 

Rodrigo Garcia Lopes é poeta, romancista, tradutor, jornalista, compositor e professor doutor em Letras. Estúdio realidade (Rio de Janeiro: 7 Letras), seu mais recente livro de poesia, é finalista do Prêmio Portugal Telecom. Dividido em 3 partes, o volume traz no apêndice aforismos teóricos sobre poesia. Isto deixa claro que o poeta prima pela consciência de linguagem.

O poeta escreve poemas muito bem realizados como “Enquanto você lê isto”. Aqui, os versos refletem-se em movimento de eterno retorno. Ao modo metalinguístico diz: “este secreto canto, duplicado num espelho”. O poema inicia e fecha-se com o mesmo verso. Circularmente.

Além disto, o poeta visita formas diferentes do poema como o epigrama, o oriki, o haicai, o poema em prosa e a poesia concreta. A riqueza de intertextualidades, de interações intersígnicas e intercódigos conferem ao livro um leque de múltiplas dicções.

O aforismo 23 pontua: “a poesia atua com mais frequência [que a prosa] em saltos, cortes, surpresas, desconstruções sintáticas, frustração de expectativas, associações, conexões, desconexões”. De fato a poesia é trabalho com a linguagem, num modo novo de dizer o velho. Poesia é desvio causado no olhar mecanizado, viciado, acostumado aos clichês. Quem repete o mesmo, sem trabalhar a mesmice numa linguagem provocativa e provocadora, não faz poesia. Fica no universo do prosaico. E de um prosaico bem reles.

Rodrigo Garcia Lopes revela que continua sendo o grande poeta dos livros Polivox e Mônada, por exemplo, em “Epigrama à moda de Marcial”: “Sabe o que faz Clemente // quando, numa noite fria, // sem ideias, sem amor, sem companhia, // luta contra o branco de sua mente? // Ele me copia”. A ironia advém do fato de que São Clemente, quando papa, introduziu a palavra amém nas cerimônias religiosas. O poeta parte deste dado biográfico para copiar o santo, invertendo a situação: no poema, o poeta detém a palavra e seu poder de preencher vazios. E devolve-a ao santo, num gesto de irônica misericórdia, já que este não sabe o que fazer com a própria mente vazia.

É uma pena que os bons momentos sejam apenas circunstanciais. Quem conhece o poeta que Rodrigo Garcia Lopes é, desaponta-se com Estúdio realidade. O livro, sem dúvida, tem um projeto deliberado de experimentar a linguagem poética em várias modalidades. Mas, no geral, acaba rendendo-se a uma malfadada espontaneidade.

Na quase totalidade os poemas são o avesso do que propõe o aforismo citado. O poeta tem consciência de linguagem, mas a linguagem produzida raramente é poética. Poema “Lar”: “Viver em tantas cidades / fez de lar uma palavra estranha. // Há casas em nossas entranhas / e, dentro, apenas estações”. Onde está, por exemplo, a “frustração de expectativas, de associações, conexões”? O poema torna-se previsível a partir do segundo verso. Uma pena.

 

A mesmice continua em: “O criminoso era poeta. Seu corpo, pálida página, jazia sobre a mesa, como quem procura um autor. Os suspeitos de sempre: metáforas, paronomásias, figuras de linguagem”. Faltam “cortes, surpresas”. Sobram: prosaísmos e clicherias. RGL está devendo-nos um livro de poesia.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:43
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Poesia e silêncio

Amador Ribeiro Neto

 

 

Chico Lopes nasceu em 1952. Em 2012 recebeu o Jabuti pelo elogiado romance O estranho no corredor.  , Caderno provinciano (São Paulo: Patuá, 2013), é seu primeiro livro de poesia. Até então só publicara prosa.

A poesia de Chico Lopes oscila entre o modernismo pessoano e o classicismo de Dante e Camões. Ele sabe ser moderno e eterno, como apregoava Drummond. Mas, ao contrário do poema do poeta mineiro, as duas qualidades não se opõem em Chico. Antes: convivem harmonicamente.

Isto é admirável. E também é o resultado de quem faz poesia tendo lido os grandes poetas, canônicos ou contemporâneos. Chico Lopes domina a poesia com habilidade, leveza e maestria. Tem consciência do que é a linguagem poética: mescla de conhecimento teórico, leitura de poesia e emoção.

As inflexões filosóficas de Pessoa ressoam em seu livro, bem como a dicção lírica de Dante e Camões. A poesia de Chico Lopes sabe inserir-se no tempo da reflexão. Ela é um pensar sobre a vida e a linguagem. Ao mesmo tempo que é a expressão franca dos sentimentos de um “eu”.

Ela é música, mesmo na busca do silêncio. Música que entranha-se na memória, no raciocínio, nos sentimentos, na natureza, na linguagem. É o que constatamos ao ler o poema emblemático que abre o livro: “O poço”: “Torpor da memória, / olhos de água estagnada. / Nada se move, nada. / Queria não ser o que sei, / dobrar a curva do jardim, / nunca mais saber de mim. / Mas inda algum sino se alarma, / cumpre escrever, mergulhar / no poço onde nada se salva. / Alguém me ouvirá o gemido? / Não, não farei ruído / exceto o de pedregulho / absorvido por água”.

A recusa ao barulho, ao ruído, ao ritmo e à melodia estão também presentes em “O areal”: “Que os outros não me ouçam, / que o próprio som me seja / involuntário, fácil, como o rio / de que emergi sem nunca ter pedido / a bem de um mundo escuro e gratuito”.

O rio-tempo heraclitiano é uma dominante da poesia deste paulista de Novo Horizonte. E as águas fluviais transbordam filosofia. Sem comprometer a poesia. Antes: revitalizando-a. Procedimento feliz como em Mário Faustino, por exemplo.

Em “Água”, a atmosfera de degeneração e desolamento animiza o tempo num riocorrente de emoções à flor da pele: “Uma lua baça e algumas pedras negras, / a ponte corroída, silêncio de afogados. / Tenho medo do rio. O rio é uma pessoa, / repleta de intenções, olhos parados”.

Caderno provinciano carrega no título uma grande zombaria. Arrisco dizer que beira o irônico. Nada há, no livro, do primarismo de um caderno. Sequer há do provincianismo. Existe,  isto sim, um embate entre memória, tempo, geografia, silêncio e  escrita. Numa admirável conversa com grandes poemas e poetas.

 

Sem dúvida, mais um grande lançamento da editora Patuá, que tem aberto espaço à nova poesia, entre outras publicações. O livro faz jus a ser finalista do Telecom 2014.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:40
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Poesia inclassificável

Amador Ribeiro Neto

 

 

A poesia do carioca Zuca Sardan (nascido em 1933) é feita pra fazer o leitor perder o tino. Esta é sua proposta. Seu livro Ximerix possui forma artesanal. Embora publicado por uma grande editora, a Cosac Naify. O tipo de ilustração e o projeto gráfico incomodam pela “precariedade”. Incomodam principalmente quem está acostumado com edições “bem cuidadas”. E poesias “bem escritas”. Este poeta bagunça o coreto correto das edições primorosas e da poesia bem feitinha. Palatável. Aquela que a “nova galera” anda publicando à mancheia. E enchendo os bolsos de prêmios.

O “sujo” das ilustrações, da diagramação, das bricolagens visuais e textuais percorre um arco que vai das HQ à publicidade, passando pelos folhetos de cordel. Mistura Mallarmé e Marx num verdadeiro samba do crioulo antropofágico doido. Da poesia concreta à poesia marginal, passando pelos caligramas de Apollinaire, sem se esquecer de Gregório de Matos e Cego Aderaldo, tudo ferve no caldeirão das irreverências de Zuca Sardan.

Ele faz poesia com inventividade e humor. Carnavaliza com os gêneros literários e as modalidades da poesia. Rompe com as fronteiras e as molduras textuais. Produz numa zona de intersecção entre poesia de vanguarda e poesia popular. Se em quatro dos cincos cadernos que compõem Ximerix as estrofes são sextilhas, no primeiro caderno, por exemplo, a língua (literal) do personagem Lotrak é iconizada graficamente num caligrama. O mesmo recurso aparecerá no poema “Linguão”.

Neste primeiro caderno, intitulado “Ratakatrak [eletro-remix]”, cacos e cacoetes sonoros aparecem em linhas que estão visualmente acima dos títulos dos poemas ou ao final deles. São onomatopeias e/ou jogos aleatórios de sons que remetem o leitor ao universo da música eletrônica e ao som mixado pelos DJ’s. Viagem via linguagens.

Anárquico, por vezes visita o chiste para, em seguida, espraiar-se em humor insolente e arreganhado. A poesia que agrada ao senso comum e os poetas que a fazem são ridicularizados em: “A Vaca Inglesa babando / no sininho... o Urso Branco / que te quero branco / duma alvura... polar... / FOOORAAAAAAA / POETA DE MERDAAA!!!”.

Os cadernos dois e três, intitulados respectivamente “Apothegmas Alabastrinos” e “Bustrofédon Burlão” são ambos nomeados como mallarmaicos. E é aí que mais uma vez a veia venenosa do poeta bota pra quebrar. O nome grande poeta francês é transformado em Melarmek e seu lance de dados é referência de linguagem poética. E, ao mesmo tempo, deboche dela própria: “De dados um lance / o bule jamais irá / por ser acaso / paf!... raa... mais que / ai!... chou... Az / ar”. Ou este: “Merry suspira de leque / plec-plic-plec... no sofá / jamais o dado o bule irá / Melarmek num lance que azar!... / plaf!... spatifou... Ride...Riiiiiiiiiii / deee... agora, Pagliazzzo...”.

 

Os cadernos seguintes, intitulados “Cassandra Bolchevique” e “Gazeta Proleta” seguem matando. “Dialética”: “O real é dialético logo Hegel / é um monarquista que Marx / virou de cabeça pra baixo / pra que os cabelos virassem / barbas pra que as barbas / virassem cabelos”. E por aí vai. Ximerix é finalista do Telecom. Isto é bom.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:36
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Poesia adolescente

Amador Ribeiro Neto

 

Bruna Beber nasceu em Duque de Caxias (RJ) e tem 30 anos. Seus poemas já foram publicados na Alemanha, Argentina, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.  Rua da padaria (Rio: Record), está entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na categoria poesia. É seu quarto livro.

Saudada por Chacal na primeira orelha do volume, ficamos assustados com a convicção, sem argumentos, do autor de Belvedere: “A Bruna me maravilha. E pronto”.

Uma convicção cega? Ou dogmática? Quem sabe, doutrinária? De qualquer forma o leitor sai da orelha vazio de informação. Cai no livro.

E lê: “mamãe posso comer / essa pipoca? // não pode minha filha / é macumba / macumba não pode comer // e o guaraná pode / ah mãe deixa”.

Outro, intitulado “a senhorinha vaca”. Diz: “fazes inveja / a tudo que rasteja // sobretudo // às minhoquinhas // tão atormentadas / pela fibra ótica // bebê, cágado, o passado / não é veloz // estivesse ainda / em moda o engenho // serias útil / eras minha”.

Esta poeta não entende nada de história? Era do engenho no século XXI? Ou ela quer fazer piada com a vaca, já que a chama de “senhorinha vaca”? Para alguns pode ser engraçado. A mim soa como um texto anacrônico, escrito por alguém desinformado. E sem talento. Chinfrim é a palavra que me ocorre para qualificar este texto. E o anterior.

E o seguinte, feito com o mesmo abuso barato da anáfora. Prática herdada de Angélica Freitas? Cito Bruna Beber: “quanto falta pra gente se ver hoje / quanto falta pra gente se ver logo / quanto falta pra gente se ver todo dia / quanto falta pra gente se ver pra sempre / quanto falta pra gente se ver dia sim dia não / quanto falta pra gente se ver às vezes / quanto falta pra gente se ver cada vez menos / quanto falta pra gente não querer se ver / quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais / quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu / quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer / quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu”.

De fato, uma reflexão filosófica em tom poético pra poeta marginal, ou neomarginal algum botar defeito. Antes: proclamar vivas, tal como faz Chacal.

Se poesia é a quebra na rotina, um desvio da norma, um imprevisto que alumbra, Bruna Beber está anos luz distante do poético. Mas se poesia é a inalterabilidade institucionalizada, sem um mínimo de zelo pela linguagem, sem um mínimo de informação estética e ética, sem um mínimo de nada... Então a poetisa está com tudo.

É certamente por isto que Chacal proclama que os quatro volumes de Bruna Beber fazem “volume na minha estante de autores consagrados”. Está claro: o criador tem de beber, digo, lamber sua cria. Faz parte do bom senso do ego autoinflado. Do ego exclusivista que só sabe ver a si próprio. Ou a tudo que seja espelho. A tudo que o reflita.

Pra que saber a que grau chegou a poesia pós Cabral? Basta ter-se uma vaga ideia do que foi o Modernismo. E saber usar uns recursos mancos dos manuais de versificação poética.

 

Uma anáfora aqui. Outra ali também. Mais outra. Alguns poemas feitos com versos dísticos. Pois bem: de dois em dois a poetisa enche o papo. 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:33
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Poesia de linhas

Amador Ribeiro Neto

 

Um livrobjeto para crianças. De alta qualidade textual, gráfica e ilustrativa. Um brinquedo que se manuseia como um passo de frevo: de um lado para outro lado do lado de lá do lado que é lá do lado de lá. Assim é Formigas, de Mário Alex Rosa com ilustrações de Lílian Teixeira (São Paulo: Ed. CosacNaify).

Um livro que sabe ser lúdico e guardar alta voltagem literária. Um livro que se desenha no caminho das formigas. Nas marcas do dedinho do menino que as acompanha selando seu caminho. E ele, distraído, sela o caminho delas. O que era uma linha transmuta-se em várias. O uno se torna múltiplo. Como se o caos se intrometesse no roteiro geneticamente determinado das formigas.

Que criança não gosta de se intrometer na “lógica” da vida? Seja vida adulta,  vida dos animais, vida da linguagem? Que criança não é um pouco Bandeira brincando de poeta em “tiradas” mágicas de palavras, gestos e sons inusitados?

Pois Mário Alex Rosa sabe captar este olhar da criança. Este comportamento da criança. Este modus operandi e vivendi da criança. Ele e a Lílian Teixeira. Claramente o livro não existiria sem esta composição verbo-visual. Os dois formam um todo indissolúvel. Como a dança e o bailarino, na observação exata de Valéry.

Tira-se o livro de seu envelope-caixinha e imediatamente ele se abre em mil caminhos que, no início, seguem como um poema em linha reta. Para, lá pelas tantas,  bifurcar-se. E, ao final, multiplicar-se em linhas retas e em elipses, entrecruzando, entrelaçando, interpenetrando-se frenética, elétrica e hipnoticamente.

Ao ponto de aquilo que era o lado de trás da folha abrir-se como folha de frente. E daí a história, a ilustração voltam em espelho. Como a vida é. Como a linguagem se faz. Como as formigas reagem.

Um livro delicado. Sutil. Amoroso. Lê-lo é mergulhar no sublime. É imergir no mais profundo alumbramento. Um presente para todas as idades. Dizer isto já virou clichê. Mas o clichê deve ser tomado aqui ao pé da letra. Como se fora enunciado pela primeira vez. O livro é realmente um grande achado dentro da literatura infantojuvenil e adulta. Merece atenção de todos que amam a literatura.

Mário Alex Rosa é mineiro e reside em Belo Horizonte, embora nascido em São João Del Rey. Doutor em Literatura Brasileira pela USP.  Tem outro livro infantojuvenil, ABC Futebol Clube e outros poemas (Campina Grande: Ed. Bagagem) e dois de poesia: Ouro Preto (São Paulo: Scriptum) e Via Férrea (São Paulo: CosacNaify).  

Lílian Teixeira nasceu e reside em Belo Horizonte. Cursou Processamento de Dados e Produção Editorial. Atualmente é aluna do curso de Letras. Autora de “O pai que lia pensamentos” (Belo Horizonte: Ed. Abbacate). Formigas é seu livro de estreia como ilustradora.

Com Formigas o leitor é chamado a ver/ler/brincar/criar/refletir/imaginar. Enfim, a ser cúmplice deste ludismo apaixonante que Mário Alex e Lílian preparam-nos. Vamos ler, ser e estar. Não importa se em “Atenas ou Barbacena”.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 01:30
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Poesia sem graça

Amador Ribeiro Neto

 

Gregório Duvivier é carioca em 1986. Já se consolidou como roteirista e ator de talento. É ator e criador do canal Porta dos Fundos, grande sucesso da Internet.  Sucesso merecido. De fato o grupo desta página vem renovando o humor brasileiro. Além disto, ele assina uma coluna semanal na Ilustrada da Folha de São Paulo.

Em 2008 publicou A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (Rio: Ed. 7 Letras) e no ano passado Ligue os pontos, poemas de amor e big bang (São Paulo: Companhia das Letras). Ambos de poesia.

É aí que a coisa começa a pegar. Pra usar a linguagem do humorista. Gregório Duvivier cismou que é poeta. E tem sido muito bem recebido por colegas poetas, como o Armando Freitas Filho. Mas não só: ele acaba de entrar para a lista dos finalistas na categoria poesia do Prêmio Telecom. Além disto,  ser publicado por uma  grande editora como a Companhia das Letras, também é sinal de reconhecimento.

Bem, vamos à sua poesia: “o mês de agosto parece o bairro / de são conrado: é difícil atravessá-lo / às vezes demora meses sobretudo / quando chove mas é inevitável / passar por ele – é inevitável”.

Eu fico me perguntando: que diabos estes poetas da geração 2010 viram no mês de agosto pra cismarem de fazer poesia sobre o surrado dito “agosto mês do desgosto”. A Angélica Freitas é outra que incorre na mesma leseira, no livro que aqui comentamos.

Não é somente pela absoluta obsessão pelo azar que o mês de agosto traz (sic!). É pela rudeza, pela ignorância, pela boçalidade de tomar o prosaico e não conseguir superar sua pasmaceira. Não vertê-lo em poético. Me lembro aqui de Bandeira dizendo da inviabilidade da vida na pensão burguesa. Quanta inventividade no modo de dizer o que todos sabemos, o que todos estamos cansados de ver. E até vivenciar.

Agora vem Gregório Duvivier querendo fazer piada em tom existencialista sobre agosto e são conrado quando chove? Oras, haja paciência...

Não só de piadinhas vive este aclamado poeta. Vejamos: “querer tudo é não querer / nada é perceber que nada / é pior que tudo e qualquer / coisa é melhor que nada / é melhor do que não querer / tudo é querer uma coisa só /  pois para ser feliz é preciso / querer uma coisa só e saber / deitar ao lado dela – quieto”. Bem, aqui, o poeta se dá ares de filósofo de botequim: “quem tudo quer, nada tem”. E termina com um auxílio ao leitor: ser feliz é querer uma só coisa e deitar quieto ao lado dela. Auxílio, no caso, é a lição de autoajuda. Evidentemente.

Entendemos que o poeta tem bom coração e boas intenções. Mas ele precisa ler muita poesia. Brasileira e universal. A de hoje e a de tempos passados. Para não ficar macaqueando o desleixo instaurado por este grupo de poetas neomarginais.

Mas ele insiste em ser engraçadinho e a filosofar como se estivesse na mesa  de bar. Bêbado. Eis mais um poema com plena falta de rigor da linguagem. E do tema. Este possui título: “deixa passar a noite”. Diz assim: “antes  do big bang o mundo / era uma bola de ping-pong / e ao redor dela nada nada / nada a não ser o silêncio / como nos pastos ou nas casas / em que já não mora mais ninguém”. Grande sabedoria. Eu me redimo.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:58
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Poesia da delicadeza

 Amador Ribeiro Neto

 

Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa, em 1956. Professora da Faculdade de Letras do Porto, trabalha com poéticas comparadas, estudos feministas e teoria queer. É finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2014 com Vozes (S. Paulo: Iluminuras). Já o fora em 2007 com A gênese do amor.

Vozes exige alta concentração do leitor. Seu universo poético, ainda que visite variados temas e circunstâncias histórico-estéticas, conflui para uma linguagem elaborada e densa. O difícil, tão caro a Paul Valéry, parece ser um de seus temas dominantes.

Difícil na estrutura sintática muito bem elaborada. Difícil na composição de imagens inefáveis e inacabadas. Difícil na apreensão do que diz, já que a elipse é uma de suas figuras preferidas.

No entanto, não nos iludamos: este difícil tem um alto poder de sedução. Lê-la é ter o prazer de desvendar o desconhecido. De revisitar o déjà vu. De estabelecer relações com a paródia. De reativar os laços da intra e intertextualidade.

O universo de sua poesia é a morada de uma polifonia que encanta. E por isto mesmo e pede reiteradas leituras multiprazerosas.

Nada em Ana Luísa Amaral beira o prosaico. O coloquial vem revestido de uma sintaxe e semântica que, embora devam ser correntes entre os lusitanos, soam cultos e elaborados para nós brasileiros. Melhor dizer: há finesse em sua escrita.

Outra tônica de sua poesia é a presença marcante de uma musicalidade que soa por vezes tonal, por vezes atonal. Este contrabalanço melódico imprime aos poemas uma dinâmica que reverbera na construção das imagens. O ritmo hipnótico dos versos vem acompanhado por sequências cinematográficas de imagens.

O movimento, o contramovimento.  As cenas. O fundo das cenas. Tudo converge para a construção de uma poesia que se dá e pede a cumplicidade do leitor. Não por menos, vários de seus poemas terminam por um travessão, o sinal que é a rubrica para o diálogo. Inconclusos, os versos têm continuidade em outros poemas.

Desta forma o livro tece-se como requintada renda renascença. Com linhas pós-modernas. Que incorporam a falha como um elemento inconsútil do texto. E aí reside uma das grandes marcas de Ana Luísa Amaral: compor com a rarefação de imagens, ideias e melodia.

Cito versos de “Quase soneto e de amor!”: “Caminhas como vírgula encostada a página, / não como folha ou haste exclamativa”.  “aquele que se inclina no teu porte lento / e eu desejava em plena exatidão”.  “e os pés tocassem raso o que era ali no céu. / Mas falamos de página, não falamos de corpo / porque senão falava dos teus olhos, // e punha mais dois versos, fá-los-ia rimar. / Diria <>”.

 

Compor o poema dentro da brecha, no espaço do vácuo. Muitas vezes, no limite do nonsense. Mas, sempre, com horror vacui. Porque sua poesia um pé na tradição e outro na contemporaneidade. Isto Ana Luísa Amaral faz com a maestria de poucos e raros.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:52
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Quadra, quadrão - Parte I

Amador Ribeiro Neto

 1.       A quadra

A quadra, formada por versos de sete sílabas que rimam, via de regra, o segundo com o quarto e o primeiro e com terceiro, é um dos modos fixos do poema. Praticada amplamente desde a Antiguidade Clássica, em especial através dos epigramas, tem expressiva presença no barroco.

Ainda que com destacada importância no Modernismo, tanto brasileiro quanto europeu, é através da poesia provençal que ela nos chega. E faz-se presente, hoje, principalmente, nos repentes, desafios e cordéis dos cantadores nordestinos.

Embora simples na forma e versando sobre temas triviais, não é uma poesia que todos consigam exercer a contento. Quem pensa que o simples é fácil, já se engana na premissa principal. E aí tropeça no que acredita ser uma quadra poética – quando, na verdade, estamos diante de uma quadra quadrada, uma quadra careta. Ou seja: feita segundo as normas dos manuais de versificação. Mas desprovida de poeticidade.

Pois bem, entre tantos, Manuel Bandeira valeu-se da quadra em vários poemas onomásticos. Fernando Pessoa escreveu suas célebres “Quadras ao gosto popular”.  Ambos saíram-se muito bem, quer pelo exercício de uma linguagem propositadamente despretensiosa, quer pela engenhosidade de captar o poético em versos coloquiais nada previsíveis.

Uma quadra de Fernando Pessoa: “Tenho um relógio parado / Por onde sempre me guio. / O relógio é emprestado / E tem as horas a fio”. O relógio que serve de guia é aqui um relógio parado. O tempo para o eu-lírico é o da inexistência? Todavia, se relermos a quadra constataremos que o precário, o incerto, o minguado instauram-se ainda mais na vida deste eu ao declarar-se nem ao menos proprietário do relógio. Eis que aí reside uma das chaves que abre a quadra ao inesperado e ao belo poético: mesmo parado, o relógio processa o tempo. O relógio – consciência do eu – acusa o tempo inefável e permanente.

Valendo-se da simplicidade formal da quadra, Pessoa propõe uma reflexão sobre a brevidade do tempo e da existência. Não em si. Mas na contracorrente da relação viver e experienciar a vida em profundidade.

Ao seu modo, despojado e brincalhão, Bandeira dedicou uma quadra a Santa Roza: “Quem é malungo, malunga. / Se não presta este Mafuá, / Ponha, meu Santa, um calunga / No anterrosto, e prestará”. Tudo leva a crer que se trata de uma dedicatória ao livro Cafuá do Malungo do próprio Bandeira, ao amigo Santa Roza.

Esta quadra é uma lúdica reunião de sons e termos partícipes do universo da cultura popular. Entrelaçados com o espelhar dos universos infantil e adulto: lazer e bom humor. O poema sentencia: quem não é companheiro e irmão (= malungo), ao menos o seja na “cachaça” (= malunga), ou que se faça passar por camarada. E há um recado para o Santa: neste parque de diversões (= mafuá), que é o lançamento do livro de poesia, vista uma máscara com desenhos infantis (= calunga). Assim, tudo acaba em brincadeira e alegria. Evoé, festa da poesia!

O leitor logo percebe que a quadra bandeiriana lança-se simples no instante-já para atingir o instante-depois. Entende que os versos em redondilha maior não visam à rima pura e simples, ou a um reles trocadilho que tenha como resposta o riso fácil e amarelo.

O leitor adentra no mundo de Bandeira e constata que o poeta joga com a vivacidade da cultura popular, investindo no desvelamento que se dá “por baixo dos panos”. Ou como diria Derrida: que se processa “no fundo de cena da escrita”.

Enfim, a visada de Pessoa e de Bandeira revela um enquadramento em 3D que capta o agora para imortalizá-lo no devir. Para os dois poetas, colher o cotidiano com olhos livres é o inverso de injetar-se da tolice, do simplório, do ingênuo, da patetice do senso comum. Ao contrário: é desvendar o conhecido como nunca o fora demonstrado.

 

Apois, eis a beleza da quadra: ser uma eterna metonímia e não uma rasa metáfora. 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:30
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Quadra, quadrão - Parte II

Amador Ribeiro  Neto

 

 2.      Quadras paulistanas

Fabrício Corsaletti é paulista (1978). Publica poesia, livros infantis e narrativas pela Companhia das Letras. É colunista da Folha de S. Paulo. Formou-se em Letras pela USP. Com o livro de poemas Esquimó arrebatou o Prêmio Bravo! 2011. Agora, com Quadras paulistanas é finalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Um belo currículo. Indiscutivelmente.

Ao lermos as quadras de Fabrício Corsaletti, garante-nos Alcino Leite Neto na quarta capa do livro: “Embriagado de realidade, o poeta-cronista flana por aí sem amarras, misturando ao léu objetividade e lirismo, imaginação e notícia, testemunho e confidência, sublime e nonsense”. E completa: “Uma São Paulo surpreendente emerge das quadras”. Alcino Leite Neto mente. Não se comprova uma palavra do que afirma. Isto decepciona o leitor atento, criterioso.

Ao abrir-se Quadras paulistanas deparamo-nos com: “na Liberdade entendi / (no auge da embriaguez) /não há nada mais bonito / do que um bebê japonês”. Nem com o aval da embriaguez o poeta tem o direito de produzir imagem tão torpe. O leitor sente-se traído ao constatar que há uma construção forjada de rimas e de um pretenso humor.

Mais adiante a pasmaceira continua em “ ‘VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO’ / diz o aviso, ‘SORRIA’ / eu bizarramente sinto / uma ponta de alegria”. O leitor tem mesmo de submeter-se a este olhar tolo do eu-lírico? Fabrício Corsaletti pensa que isto é observação poética sobre o trivial da vida? Leia Bandeira. Leia José Paulo Paes. Leia Leminski. Leia Pessoa. Mas, por favor, não nos venha com quadrinha de quinta categoria. Nós, leitores, não somos beócios. E sentimo-nos constrangidos com versos deste naipe.

Consideremos este que, na certa, o poeta imagina ser um chiste de primeira linha, quando não passa de uma bizarra quadrinha: “morrer talvez me agradasse / me sinto estranho e sozinho / mas, morto, como comer / a bisteca do Sujinho?”.

Nos dois versos iniciais, pode parecer que o “poeta” esteja promovendo uma interlocução com a poesia de Álvares de Azevedo e/ou com a de Mário de Andrade. O primeiro, pela via do lado sentimental e mórbido. O segundo, através da crônica que tematiza a cidade. Infelizmente não é nada disto. Pensamos e nos frustramos. O verso “chave de ouro” é um tiro no pé: nem dá sequência à sugerida ideia de transitoriedade da vida e/ou da vivência na trépida cidade, nem faz justa referência a um dos pontos mais tradicionais e frequentados de São Paulo hoje, o Sujinho. Creio que nunca este bar e restaurante fora tão ultrajado. O leitor de quadras, certamente também não.

Mas tem mais. Eis a pérola que se pretende político-poética: “prefeitos, vereadores / não fazem necessidades / pois como explicar a falta / de banheiros na cidade?”. Leitor, convenhamos: nem um panfleto de enésima categoria seria capaz de tamanha afronta. Lamentável. Não dá pra rir da equação. E nem pra chorar. O poeta conseguiu esta proeza. Somos invadidos pela imbecilidade de suas anotações. Em tempo: uso aqui o termo “imbecilidade” na acepção de “atraso mental acentuado, situado entre a debilidade mental e a idiotia”, segundo o dicionário do Aurélio.

No enfadonho rol das quadras paulistanas, há algo que beira à fixação psicanalítica do poeta: “em São Paulo tem de tudo / museu, teatro, metrô / mas nenhum banheiro público / pra gente fazer cocô”. Pergunto ao leitor: o que o dito poeta faz no poema é o que ele não consegue fazer na rua? Confere? Então, Fabrício Corsaletti, por favor, escolha melhor seu alvo. Poesia não é lata de lixo para suas necessidades biopsíquicas. E nós, leitores, não somos depositários de q     uadras pretensamente poéticas, quando de fato são inominável afronta à poesia.

 

Bem, para encerrar, esta fina tautologia tão ao gosto da dita poesia marginal: “cearense é cearense / carioca é carioca / gaúcho sempre é gaúcho / paulistano vem de fora”. Trocadilho estúpido com o paulistano. Constatação desprezível com o cearense, o carioca, o gaúcho. Dá para levar a sério este livro de Fabrício Corsaletti?




Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:28
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Quadra, quadrão -Parte III

Amador Ribeiro Neto

 3.      Quadrão

Cego Aderaldo (1878-1967) é poeta popular cearense. Dono de grande perspicácia poética, integra a poesia da oralidade, muito prestigiada no nordeste brasileiro. Ficou nacionalmente conhecido por um desafio travado com Zé Pretinho, na primeira década do século passado. É de sua autoria  o seguinte “quadrão” –  que é uma quadra duplicada no número de versos: “Eu canto o quadro quadrado, / Quadrado bem quadrejado, / Meu quadro é quadriculado / Por causa da quadração, / Porque minhas quadras são / De maneira bem quadrada. / Por isso meu verso enquadra / Quadrado, quadro, quadrão”.

Os jogos sonoros e semânticos, que remetem ao próprio fazer poético, constroem a imagem do poema fazendo-se no improviso e na consciência da linguagem da poesia. O inesperado entranha-se em cada ideia apresentada, bem como na reverberação sonora e semântica de um vocábulo dentro de outro. Ao ato metalinguístico de fazer o poema, ele é  concomitantemente pensado como ato crítico. Ou seja: criação e crítica mescladas como massa de um mesmo biscoito fino. Homenagem à inteligência e à sensibilidade do leitor.

E eis aí a dita poesia popular, tão depreciada na academia e tão pouco valorizada fora dela.

Graças à sua prática de leitor e pesquisador sem limites, aberto ao vasto leque das variantes poéticas – estejam e estendam-se elas por onde for  –  devo a Augusto de Campos, em Verso reverso controverso, o quadrão de Cego Aderaldo, acima transcrito.

 

Cego Aderaldo é um dos muitos exemplos de que a poesia se faz com linguagem, e não com manipulação do mercado editorial, jornalístico e literário deste país. Se fosse regra a qualidade literária in strictu sensus, certamente Quadras paulistanas jamais seria uma obra publicada. E menos ainda finalista de prestigiado prêmio nacional de literatura. Fabrício Corsaletti tem muito a aprender sobre quadras antes de publicá-las. Avant la lettre, Cego Aderaldo dá-lhe o merecido “carão”. 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:22
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