Diante de um poema a ser analisado sempre nos vem a indagação: por onde começar? O que deve ser abordado? O que é mais importante?
Este poema, de fato, modifica nossa percepção diante da palavra? Há algum desvio no modo pelo qual este poema se faz? Para que servem as normas de versificação (ou metrificação)?
Há poemas de forma fixa e os de forma livre. Os que rimam e os que não rimam. Os que observam a mesma métrica mas não rimam. Aqueles que observam a mesma métrica e rimam.
Para que servem as estrofes? Por que há uma estrofe de dois versos (= dístico) e uma se seis versos (= sextilha)? Por que as rimas ora alternam-se, ora cruzam-se, ora emparelham-se, ora surgem todas misturadas?
Por que o verso de 10 sílabas (decassílabo) pode ser heroíco ou sáfico? Isto faz dele um verso marcadamente musical?
E o verso de 12 sílabas, por que recebe o nome de alexandrino? E por que dividido em duas partes iguais e tônicas, cada uma delas se chama hemistíquio?
O que são as redondilhas, tão presentes nas cantorias dos cantadores e nos desafios? E os poemas digitais feitos com recursos do computador?
Além disto, a poesia vale-se de vários recursos, entre eles, o "enjambement" (ou cavalgamento, em tradução sofrível). As anáforas, quando um termo ou vários termos repetem-se no mesmo lugar simétrico em cada verso. As aliterações, que são as repetições das mesmas consoantes. As assonâncias, que repete as mesmas vogais. Os anagramas, os ícones, os isomorfismos, as isotopias e uma terminologia que parece não ter fim.
Tudo isto encontramos em qualquer manual de versificação. O diabo é o que fazer com esta parafernália terminológica diante de um poema que não quer render-se a ela? Ou que a usa tão bem que forma e fundo unem-se em uníssono, fazendo o poema revelar-se ainda mais singular, mais belo, mais inovador.
Diante de um poema, e de um manual de regras de metrificação, o melhor, pra início, é recorrer àquelas formas fixas de fazer poemas, como o haicai e o soneto. Comecemos pelo soneto, que sempre totaliza 14 versos, embora em formatos diferentes.
Fernando Pessoa é um poeta surpreendente. Mesmo que conheçamos a heteronímia dele, com detalhes de cada heterônimo, e a obra assinada por ele mesmo, ainda assim atiça nossas percepções. Sempre inesperadamente.
Gosto muito da poesia assinada como Álvaro de Campos, um poeta da grande cidade, vivendo intensamente a velocidade e a melancolia das metrópoles. Este poeta é aquele que busca sem cessar. Que se move entre ansiedades contínuas. Que vive a euforia das grandes cidades. E também a depressão a que estes centros urbanos nos atiram. É um poeta da desterritorialização e reterritorialização do homem.
Pois o moderno, modernista, contemporâneo Álvaro de Campos, em meio a poemas longos como "Tabacaria" sai-se com um soneto que é pura ironia sobre esta forma fixa de fazer poesia. Já no título há algo que cheira ao paródico: "Ah, um soneto...". A interjeição e as reticências nos empurram para, no mínimo, uma inquietação. Que diabos este título quer dizer? "Ah" é um suspiro ou uma impaciência?
Lemos o poema. Todos os versos são decassílabos, com acento nas sextas e décimas sílabas. Quanto isto acontece, chamamos estes versos de heróicos. Com esta marcação de tônicas, o ritmo do poema se impõe. O poema passa a ser marcadamente musical. Até aí, novidade alguma para um sonetista.
Acontece que, entre os versos heróicos, outros, de outras formas, também se interpõem. Aparecem novas acentuações musicais. Agora as tônicas podem ser a quarta, a oitava e a décima. Para este tipo de acentuação tônica dá-se o nome de verso sáfico.
Então o soneto está marcado por duas frequências musicais. Isto quer dizer alguma coisa ou é mero exercício técnico de contagem silábica? Pois não é que o poema fala de um eu-lírico que se aposentou do mar e agora vive em casa a sonhar com o vaivém das ondas marítimas? A oscilação das tônicas ganha expressão significativa, levando o leitor a vivenciar os movimentos do mar. Mas não é só: o eu-lírico está sentado numa cadeira de balanço que é a figura dos movimentos até então sugeridos. E, para falar que está preso a uma cadeira, ele cria dois versos entrecortados, destacados por parênteses que se abrem num verso e só se fecham no seguinte. É a figura dos movimentos da cadeira, do mar e, por que não dizer, dos movimentos da memória do antigo marinheiro? Ele contempla o mar de fora. E o que carrega dentro de si.
Não bastando os recursos apontados, há o uso expressivo de versos que continuam no verso seguinte, esticando até lá o significado, a sintaxe e o ritmo. O verso não termina no final da linha. Este recurso faz-nos lembrar o oscilar das ondas do mar. Vejamos a segunda estrofe: "No movimento (eu mesmo me desloco / nesta cadeira, só de o imaginar) / o mar abandonado fica em foco / nos músculos cansados de parar".
Observamos que o vaivém da leitura ilustra o movimento oscilatório das águas e, por extensão, da memória. O marinheiro balança-se na cadeira, anda pela casa e uma obsessão o persegue: "Há saudades nas pernas e nos braços. / Há saudades no cérebro por fora. / Há grandes raivas feitas de cansaços." Esta estrofe aprisiona o eu-lírico com versos rigorosamente pontuados. Cessa o movimento. Reitera-se uma ideia: "Há saudades... Há saudades..... Há....". Como num refrão, a repetição destes termos, ocupando sempre o início de cada verso do terceto, impõe um limite ao marinheiro: as lembranças são físicas: o braço, a perna, o cérebro por fora (este "por fora" remete ao cérebro automatizado na reiteração dos movimentos do mar). Há grandes raivas.
Agora, à fluência do mar há o estanque da nova realidade. O marinheiro está dentro de sua casa. Nada além disto. Está diante de sua força e fraqueza.
A grande ironia do poema entrega-se quando lemos a primeira e a última estrofes: "Meu coração é um almirante louco / que abandonou a profissão do mar / e que vai relembrando pouco a pouco / em casa, a passear, a passear....". É do coração que ele fala, metaforizado como almirante louco. E a última estrofe: "Mas – esta é boa! – era do coração / que eu falava... e onde diabo estou eu agora / com almirante em vez de sensação?".
Dirigindo o olhar do leitor ingênuo, o eu-lírico cria um sofisma que explica o poema como o sofrimento de um almirante aposentado e lamentoso. Qual o quê! Este eu-lírico é perspicazmente paródico. Com fina e corrosiva ironia coloca o soneto em cheque-mate, espelhando uma ácida crítica: aos clássicos, aos românticos, aos simbolistas, não importa.
A ironia movimenta o território deste poema, destituindo-o para depois restituí-lo. Toma a forma fixa do soneto e brinca tematicamente com ela, recheando de dúvidas e inquietações. Para, ao final, duvidar do discurso que proferira. Surpresa pessoana.
Amador Ribeiro Neto PROFESSOR DA UFPB, ESCRITOR E ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS NESTA COLUNA
Muita gente conhece alguém que sofre de Transtorno Bipolar. Aquele amigo que muda de humor de um dia para o outro, indo da alegria à depressão, da veia cômica à irritabilidade, pode ser um bipolar.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) o Transtorno Bipolar (TB) é uma das cinco maiores causas de incapacitação no mundo hoje. Isto, sem falar da taxa de mortalidade, que é muito alta. O portador do TB, não tratado, é vítima fácil do suicídio. Os adolescentes e aqueles que fazem uso do álcool e de outras drogas são as pessoas mais fragilizadas e expostas à morte.
Embora fatores psíquicos e sociais interfiram no quadro do TB, hoje sabe-se que a genética é deflagradora da doença. Filhos de pais com a doença estão mais expostos a desenvolvê-la que filhos de pais não bipolares.
Umas das dificuldades no tratamento do TB é que a pessoa, em geral, é diagnosticada após anos de tratamento tangencial. Ou seja: são diagnosticados dependência do álcool, transtorno alimentar, distúrbios de caráter, síndrome do pânico e depressão unipolar. Mas ao TB, muitos anos depois é que se chega a ele.
E aí, dependendo da pessoa, pode ser tarde demais.
Diagnosticado, o maior problema está na aceitação do tratamento, tanto pelo paciente, como pela família. Aliás, o paciente é o mais resistente ao diagnóstico. Chega a extremos de adquirir a medicação, pegá-la nos horários estabelecidos, contar a dosagem indicada e... atirá-la ao lixo. Isto, bem entendido, quando o paciente foi ao psiquiatra e aceitou o diagnóstico médico.
A grande maioria dos portadores do TB sequer sai do consultório médico e adquire a medicação. No exercício de autoilusão tais pacientes apegam-se aos momentos em que estão "bem". Isto é, em que experimentam a euforia, o outro polo da doença. Como o TB opera na balança do sobe e desce do humor, é fácil para o paciente iludir-se de que as fases de depressão, melancolia, exaustão física e psíquica são apenas características comuns a todas as pessoas.
O que o portador do TB não admite é que ele vivencia alterações cíclicas de humor. E sempre alterações exacerbadas. Não é uma tristeza motivada pela morte de um familiar, que aos poucos desaparece com a vivência do luto. É o desespero sem causa.
Diante de uma dificuldade comum, o doente bipolar é tomado por um desespero incontrolável. Mas muitas vezes a sensação de inutilidade é absoluta – e sem causa alguma.
É a vontade determinada de abandonar o trabalho, a família e até a vida. Por quê? Por nada. Exatamente isto: não há motivo algum para o desânimo, para o desespero, para a melancolia.
Isto dura meses, anos. Tem nome: depressão. Ou então ele se alegra desmesuradamente, canta, dança, conta mil histórias, detém a atenção de todos no trabalho, na mesa de bar, na roda de amigos. A alegria intensa o faz dar showzinhos particulares seja onde for. Nesta fase não pesa o valor do dinheiro: gasta a mais não poder. Adquire coisas que nunca chega a usar. Estoura o cheque especial, o cartão de crédito, a poupança de anos. Isto tem nome: mania (ou, popularmente, euforia).
Na fase eufórica ele também pode mostrar-se com alto grau de irritabilidade. Tudo parece confluir contra ele. Todos lhe parecem idiotas, incapazes de entender o mais óbvio, imbecis de carteirinha . Não conseguindo interagir com as pessoas (= bando de boçais), isola-se. E dá lugar à depressão.
Assim, o mesmo sujeito que na sexta-feira à noite animara a roda de amigos no aniversário de um deles, no sábado está mergulhado no quarto escuro, sem receber ninguém, sem comer, sem beber, sem banhar-se. Vencido por uma enxurrada de pensamentos irrefreáveis e incessantes. A cabeça pesa. O corpo pesa. O ar que respira pesa também. A vida se torna insuportável.
Daí, para a carreira profissional ir ribanceira abaixo, ou a relação amorosa ir à deriva, é questão de horas ou minutos. A produtividade profissional e a durabilidade do relacionamento afetivo ficam comprometidas. Durante a crise, o portador do TB não tem controle sobre o que pensa nem sobre o que fala. Fica ao deus-dará dos sintomas.
Sem o tratamento adequado, a doença que é crônica, leva o paciente à incapacidade de gerir a própria vida. Não se fixa em trabalho. Não mantém laços afetivos sólidos e nem duradouros. Não estabelece vínculos quaisquer que sejam.
Vira um pária em decorrência do próprio comportamento. Isolado, o mundo parece-lhe mais cruel e insuportável. Por isto quer morrer. Mesmo simbolicamente.
Diferentemente de um indivíduo sadio, que se enfurece diante de uma injustiça, ou que sofre diante da morte, o paciente bipolar exacerba estes sentimentos e se torna excessivamente agressivo ou profundamente deprimido.
Esta instabilidade de humor, levada aos extremos, é a maior característica do doente bipolar, quando ele não se trata. Tratamento que deve envolver um psiquiatra e um psicanalista para que os efeitos genéticos e os psico-sociais sejam igualmente combatidos.
Mesmo em tratamento, o doente bipolar não está cem por cento livre das crises.
O TB, como dissemos, é crônico, mas controlável. Este controle diminui as frequências e as intensidades dos sintomas. Mas os sintomas, mesmo enfraquecidos, continuam a existir. Por isto mesmo a medicação que faz efeito numa fase da doença, pode não fazer em outra fase similar. Ainda desconhecemos como funciona nosso cérebro. Por isto mesmo os remédios e as psicoterapias são apoios importantes no controle – e nunca na erradicação da doença.
As crises sem medicação podem durar meses ou anos. Medicadas, duram dias ou semanas.
Todavia, é bom que os familiares, amigos e colegas de trabalho estejam informados sobre a bipolaridade de uma pessoa com a qual convivem, a fim de não lhes cobrar o que eles não podem dar. E a fim de entenderem que o sono e o apetite desmedidos (pra mais ou pra menos), a lentidão ou a velocidade de movimentos físicos, a atenção diminuída, a falta de concentração intelectual, os brancos de memória, os pessimismos ou otimismos exacerbados, a ansiedade são, entre vários outros fatores, sintomas de uma doença que requer, em primeiro lugar, do próprio paciente, e depois de familiares, amigos e colegas de trabalho, compreensão e observância do tratamento adequado.
Se na depressão o paciente sofre com o isolamento do qual não consegue sair, na euforia ele minimiza a doença, não nota as alterações em seu humor, tem a sensação de que está muito bem. E racionaliza dizendo-se que os outros é que têm problemas. Ele está bem. Nesta hora o outro tem o dever moral e fraterno de apontar para a iminência de descaminhos que daí advirão. (Finalizo aqui a série de três colunas sobre TB).
Calma, gente! Como naquele "funk" carioca em que a cantora esclarece a certa altura que ela se refere ao fogão Dako e a nada mais. Pois é: aqui também esta história de a igreja aceitar que seus padres sejam homossexuais não é bem assim. Vale esclarecer que esta é a posição da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Anualmente os bispos brasileiros se reúnem e discutem temas de importância social. Este ano a novidade veio grande: "Os padres podem ser gays". Isto não quer dizer que os padres agora vão trocar as procissões pela paradas gays mundo afora.
Nada disto. O padre pode ser gay, homossexual, homoerótico, o escambau. Poder pode. Ou seja: pode e não pode. Explico: pode porque ele vai manter o celibato. E não pode porque ele não vai poder "ficar" com outro padre, outro homem. Enfim, o padre pode ser homossexual, platonicamente. Nada de prática. Sonhos, visões, delírios são permitidos. Até um olharzinho meio Capitu cai bem. Afinal, não tira pedaço da carne de ninguém. E parece que a questão de ser gay sem praticar é uma questão tipo sexta-feira santa: nada de carne. E aqui, nem de peixe. Já que há, neste mundo de meu Deus, muito peixão solto por aí. Peixão surfista, peixão urso, peixão barbie, peixão biba. Virgem Maria, eu mesmo nem tinha me dado conta de como este cardume é enorme.
Mas voltando à questão da aceitação do padre que pode ser homo, mas não pode fazer com outro homo. Há um componente importante nesta declaração da CNBB. E que não pode passar em branco. É que ela, ao aceitar o padre homossexual como padre, está dizendo que não há nada de "anormal", de "doença", de "pernicioso", de "pecado", de "vergonha", de "inferior" no fato de o padre ser homossexual.
A CNBB – e esperamos que a igreja – acaba de decretar que o homoerótico, ou homossexual, ou gay, ou seja lá o nome que derem, é um ser (homem ou mulher) como outro qualquer. Nada de culpa, nada de vergonha, nada de pudicícia em ser-se assim. Todos estão vivendo apenas os seus desejos mais recônditos – que até aqui eram jogados pra baixo do santo tapete eclesiástico.
E, se padre pode ser gay, a freira pode ser lésbica. É a lógica elementar, tão bem apregoada por santos e padres famosos como São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Padre Vieira. Então, felicidade aos padres e freiras homossexuais. E a todos os homens e mulheres de boa vontade.
A novela "Caminho das Índias" tem posto em discussão, entre outros temas, a esquizofrenia. Esta doença mental, como sabemos, caracteriza-se pela fragmentação do eu, pela perda do contato com a realidade e pelos delírios. Tarso, personagem esquizóide, tem revelado estes comportamentos, mas tem vivido uma dificuldade ainda maior: a resistência de seus pais ao tratamento. Por quê? Entre outras coisas, porque se trata de uma doença mental. Ainda hoje a doença mental é vista como um mal indesejável, insolúvel, desqualificador dos potenciais do doente. O doente mental é um incômodo indesejado 24 horas por dia.
Num dos capítulos o pai se opôs à internação do filho, porque isto mancharia a ficha de Tarso, que tem sido treinado para dirigir a empresa da família. O filho não deseja trabalhar ali, mas como esta é a única condição para morar só e ter sua independência, sujeitou-se. Todavia, é visível seu desconforto no trabalho.
Neste instante, a esquizofrenia do personagem, que já dava sinais antes de ele sair de casa, explode e Tarso surta.
A namorada quer ajudá-lo. É impotente e ineficaz ao tentar resolver tudo com amor e um diálogo de mão única. A mãe o trata como ‘meu bebê’ e priva-o do tratamento psiquiátrico. O pai opta por trabalhar "full time" e tomar analgésicos.
Por que a doença mental é tão discriminada familiar e socialmente? Por que ela é mais terrível que um diabetes, por exemplo? Ambas são doenças incuráveis. Mas plenamente controláveis com medicação.
O esquizofrênico (ou o louco, como é chamado comumente) é visto como um ser perigoso. Ele está fora da razão. E a razão, sabemos, é o fiel da balança do cotidiano. Mentira. Nosso cotidiano é regido muito mais pela desrazão, pelos sentimentalismos, pelos chiliques do que pelo ponteiro do verdadeiro equilíbrio de nossas atitudes.
Convivemos, socialmente, o tempo todo com pessoas doentes. Doentes mentais e doentes psíquicos. Camuflados como "intempestivos", "estressados", "excêntricos", "volúveis", "down", "antipáticos", esquisitos", "arrogantes". E tantos outros adjetivos. Encaramos e aceitamos doentes mentais e psicológicos até o dia em que descobrimos que eles se tratam com psiquiatra e/ou psicanalista. Então, o que era "normal", transmuta-se em "perigo à vista". É a hipocrisia. Individual. Social. (Lamentável).