Ser colunista semanal não é nada fácil. Além do pouco tempo para redigi-la, tinha ainda a questão sobre o tema: sobre o que escrever esta semana? Ideias não pintam assim a torto e a direito não.
Muitas vezes me vali das aulas que ministro no curso de Letras da UFPB - tanto da pós-graduação como da graduação. Poemas e canções estudados em sala de aula vieram em linha direta para muitas destas colunas.
Eu imaginava que seria bom para os leitores saber do que eu tratava em sala de aula. E, a mim, facilitava o trabalho ter de redigir aquilo que eu falara apenas oralmente na sala de aula. E para os alunos ficava um documento fixado.
Fora os temas de aula, um variado painel de assuntos desfilou por aqui: crítica de filmes, peças de teatro, exposição de artes plásticas, criação literária (um longo conto que se estendeu por 7 semanas), homofobia, transtorno bipolar, realização de eventos literários e/ou culturais, música popular, a morte de meu filho, o corpo pós-humano, novela, best-seller, shows musicais, técnica e tecnologia, cibercultura, poesia digital, soneto, haicai, o romance contemporâneo, etc.
Era bom todo domingo à noite enviar ao editor a coluna que seria publicada impressa na terça-feira no caderno Cultura deste jornal e "on line" no mesmo dia.
A maior parte destes 2 anos e meio estive sob a batuta do editor, e muito querido amigo, Linaldo Guedes, que sempre se colocou ao meu lado e me ajudou nos impasses de algumas semanas. A ele devo o convite para ser colunista e, mais que tudo, o empenho em ser um colunista "legível", deixando de lado os ranços, as especificidades terminológicas, as expressões cifradas da academia na busca por uma linguagem mais leve e solta, "cool and free". Desencanada.
Jãmarrí é meu editor há alguns meses. Mesmo não o conhecendo pessoalmente, vi o quanto ele valoriza meu trabalho e se mostrou um dedicado e atencioso editor. Foi dele o aval para que esta coluna de despedida fosse escrita. E é dele o convite para que eu volte às colunas do jornal quando bem quiser. Sou-lhe muito grato pela gentileza e generosidade deste convite.
E assim, meus caros e queridos leitores, me despeço de vocês, cheio de boas lembranças pela receptividade obtida e certo de que um dia estaremos juntos. Por hora, continuo minha coluna mensal no "Correio das Artes", revista literária deste mesmo jornal. Abraço grato a todos. Amador
Nestes tempos pós-modernos, literatura é brincadeira com palavras. Aquilo que o autor diz fica irremediavelmente abatido pelo poder da linguagem. Por isso mesmo a trama literária é na quase totalidade ordinária, mesquinha. Muitas vezes conhecida de antemão, no primeiro parágrafo do texto. Ou na contracapa do livro. Leitor de literatura não se amarra no que vai acontecer nas páginas seguintes. Ele deita e rola com o que está acontecendo no parágrafo, na frase, na palavra recém-lidos.
Ao escrever "Antônia", seu terceiro livro, Alexandre Salem Szklo bebeu ávido na cartilha da pós-modernidade.
Em "Antônia" tudo obedece à lei da exaustão. Nada de significativo é dito. A linguagem, por sua vez, estilhaça-se em referências e citações quase inumeráveis. Os personagens moram na zona sul do Rio de hoje. Parecem comadres e compadres às voltas com fuxicos, mexericos e mesmices do amor burguês. Algo como o enredo de uma novela de TV.
O século XIX é o farol estilístico e temático que norteia os romances de Alexandre: "O escapista", "Mentiras", "Um incêndio no mar", "O dizer das cousas" e "Brevidades primaveris". Palavras, expressões completas, e a própria sintaxe obedecem aos volteios estilísticos e temáticos dos nossos romances do século retrasado. Às vezes os ares são sofridamente românticos. Às vezes o tom alinha-se nos engajamentos realistas. Mas, pós-moderno, tudo logo se rarefaz.
No esvaziamento proposital da narrativa encontramos um dos méritos de "Antônia". Ao contrário dos românticos que levam a sério as mazelas amorosas, ou dos realistas que se empenham com unhas e dentes na defesa de seus ideais (por favor, não vamos alinhar Machado de Assis nessas tumbas de boas intenções), o romance de Alexandre encharca-se da mesmice cotidiana e de um certo cansaço de viver.
Por isso mesmo um personagem de nome pra lá de datado, Fabrício, escreve dentro do romance "Antônia" um outro romance. Características deste livro: sem título, tem como tema o nada e gira ao redor de preocupações desprezíveis. Talvez venha a ser uma alusão ao nazismo, justifica-se o autor. Nazismo?, indaga uma personagem. "Aquela besteirinha, aquela divergência íntima que, se não contida, ganha as dimensões de um monstro...", argumenta sem consistência Fabrício. (Continuo na semana que vem).
Em "Antônia", ao estruturar um livro dentro do outro, ambos rarefeitos, percebemos que Alexandre Szklo joga com cartas marcadas: interessa-lhe o trabalho com a linguagem em primeiro plano. Aliás, o autor de "Antônia" usa e abusa das citações e referências literárias. Além de Machado de Assis e Eça de Queirós, presentes quase que em cada página, rudimentos de Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar e até de Joaquim Manuel de Macedo são perceptíveis. Mas o grande nome reverenciado e fartamente citado é o de Homero. Homero está tão presente que Alexandre por pouco não se torna um rapsodo per(in)formático.
Embora tratando de questões pós-modernas como as de "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, ou "Espancando a Empregada", do norte-americano Robert Coover, "Antônia" ainda tem muito o que aprender. A novela de Coover, por exemplo, trabalha com a repetição temática até a dissolução do assunto. Cada capítulo repete o anterior com variações mínimas. Todavia, o requinte no trabalho com a linguagem (destaque-se: magistralmente traduzida/recriada por Jair Ferreira dos Santos) projeta o livro como uma delícia minimalista que expõe, por exemplo, as misérias do tão decantado e dito necessário trabalho. No romance de Umberto Eco os labirintos da biblioteca iconizam os labirintos borgeanos da narrativa. E não é à-toa que as letras sejam a fina flor desse livro, que trata da Idade Média com um pé na contemporaneidade.
Em "Antônia" os recursos literários pós-modernos ainda estão juvenilmente verdes. Falta ao texto o salto qualitativo de toda grande obra. Nada em especial. Talvez um arranjo inesperado da linguagem que faça o livro superar-se. Vencer as amarras teóricas do seu projeto literário. Que, mesmo interessante, não pode sobrepor-se à obra.
Um aspecto bem resolvido do livro é a questão da configuração das personagens e seus mundinhos. O protagonista, por exemplo, nem nome tem. Zero à esquerda. Anti-herói total. Pior: sem humor. Antônia, seu grande amor, a quem reencontra casada, seis anos depois, tem nome e perfil definidos. A ponto de nomear o romance. Certo? Ledo engano. Sua história desmente qualquer caracterização mais delineada. A bem da verdade, a aparente firmeza de Antônia esconde seu simulacro. Nisso ela e o protagonista se igualam. Por exemplo: divorciada, ela e o protagonista amam-se por uma noite. E depois? O que acontece? Ela viaja? Ou se transforma numa nereida? E ele, fica na praia a ver navios e nereidas? O que busca? Por que se distanciam? Quem há de dizer?
Com os elementos comentados aqui, na semana passada, começamos a desvendar um dos possíveis parâmetros de leitura do livro "A Mesma Noite".
A mesmice que se repete. A mesmice que se torna infinita. O escuro versus o claro (drummondiano). Todavia permanece o mesmo enigma: claro ou escuro? Por que as dobras em cascata? Por que a estrutura especular, labiríntica e circular?
A imagem do espelho que se reflete, inverte e duplica parece escolhida a dedo pelo poeta. A primeira estrofe do primeiro poema é retomada (enquanto forma e assunto) na última estrofe do último poema.
As cabeçadas, os erros, as tolices e o descuro do primeiro poema reaparecem no último sob a forma do "manco no verso,/manco na vida". Isso, desconsiderando o fato de que o primeiro poema reaparece manuscrito na última capa do livro. Uma delicadeza que recupera o gesto do fazer poético no produto manufaturado/industrial.
A vida na técnica. Técnica poética ou não. Mímesis aristotélica ou infopoesia pós-moderna. Para tudo o poeta volta os seus olhos, a sua mão, o seu manco andar na vida e na poesia.
Drummond também é referência direta de Heitor Ferraz quando este nomeia alguns poemas com títulos de poemas usados por daquele: "Amar-amaro", "Dentaduras Duplas" e "Outros Resíduos", por exemplo.
A eterna luta drummondiana com as palavras - desistir e voltar ao combate - aparece em "Onde o Núcleo", segundo poema de "A Mesma Noite", que, a partir do título, introduz mais um dos paradigmas do livro: "talvez uma cidade/engolida pelo mapa".
O real que interessa ao poeta (e aparece na epígrafe do livro) é o real absorvido pelo signo da sua representação. O mapa como a representação "distorcida", digamos assim, da cidade. Donde se depreende que, para o poeta, viver a vida é uma falsa questão. Viver o beco sem saía da representação é que se impõe como desafio. E claro, o mapa borgeano também está contemplado aqui.
Como negar as referências de um mapa que busca a perfeição e acaba sendo do tamanho do território mapeado? O representado confunde-se com a representação. Tudo em busca da verdade. Verdade do quê? A interrogação borgeana pede respostas labirínticas. E tal como a poesia de Heitor Ferraz, a interrogação é mais provocadora que uma resposta.
Heitor Ferraz faz parte do rol dos mais expressivos poetas brasileiros contemporâneos. Sua poesia mantém um laço firme e forte com o cotidiano. Seu mais recente livro "Um a menos" (2009) é fiel a este compromisso iniciado com "Resumo do dia" (1996), "A mesma noite" (1997), "Goethe nos olhos do lagarto" (2001), "Hoje como ontem ao meio-dia (2002) e "Coisas imediatas (1996-2004)", coletânea que abarca a produção do poeta em 8 anos.
Heitor Ferraz é jornalista, professor de jornalismo e colaborador da Folha de S. Paulo, da revista Bravo!, e programa "Entrelinhas" da TV Cultura.
Comento aqui um dos meus prediletos livros dentre os que escreveu: "A mesma noite".
Se há uma dominante na história da poesia é a sua mutabilidade. Dos gêneros literários talvez seja o mais maleável, o mais aberto às engenharias da palavra. Nem sempre a metamorfose de formas e ideias deu certo. Nem por isso a poesia abriu mão de suas invenções e irreverências nos campos da lírica, da sátira, da épica, etc.
Esse vibrátil movimento que a poesia promove, de desinstalar-se e desinstalar o leitor, talvez seja o grande responsável pela sedução que ela exerce sobre raros e exigentes leitores.
Sabedor disso tudo, Heitor Ferraz toma Drummond como marco zero de sua poesia. "A mesma noite" é drummondiano, no melhor sentido que o adjetivo possa ter. Exigência e rigor poéticos se aliam e se alinham sob a perspectiva do poeta de "A rosa do povo". Heitor Ferraz elege a vida como curinga de um intrincado jogo de signos. Arte e vida. Vida e arte. Não interessa quem (ou o quê) imita quem (ou o quê).
Obra e representação. Representação e obra. O poeta se lança no campo das polissemias. O leitor é levado a um constante engajamento de tema e forma buscando a chave para a solução do turvo enigma coisa-representação.
Se Drummond se valia, entre outros recursos de linguagem, do palavra-puxa-palavra, como bem observou Othon Moacyr Garcia, Heitor Ferraz engatilha o clima poético numa corrente de poema-puxa-poema. Conclusão: o livro se abre e se fecha com a mesma imagem que se reduplica inversamente, como se postada diante de um espelho. O recurso especular da imagem em labirinto confere ao livro uma grande beleza. O que era apenas e tão-somente um aparente esquema de poema-puxa-poema, metamorfoseia-se naquilo que se desdobra, dobra por dobra, imagem por imagem. Tudo face ao espelho. (Continuo na semana que vem).
O conhecimento que nos advém das letras desobedece às verdades estabelecidas como fundamento da sociedade. Por isto mesmo a anarquia da cibercultura interessa tanto aos homens das letras: agora o livro que um dia Mallarmé sonhou, depois Borges sonhou - e antes deles, Heródoto - , este livro acaba de virar realidade. Mas realidade virtual. Este livro é o ciberespaço da infolinguagem.
O texto eletrônico, por não se fixar em suporte material, como a folha de papel, possibilita o acesso à distância em tempo real. Ou seja, o texto, sem a materialidade do papel, pode ser lido por múltiplos (ou milhares) de leitores ao mesmo tempo. Mesmo com tais leitores em espaços geográficos diversos. A biblioteca universal chegou. O grande livro, soma de todos os livros e bibliotecas, tão almejado, está on line. Está no ciberespaço. E o ciberespaço (espaço com inovações da eletrônica, da cibernética, da computação, da informação, da comunicação) chegou rápido e rapidamente está mudando a ordem econômica, a ordem social, a ordem cultural, etc.. Enfim, está mudando a linguagem. Sociedade da informação, era do virtual, vida digital, homem simbiótico, hipertexto, infopoesia, e-livro são realidades instauradas em nosso tempo.
As escritas hipertextuais estão gerando uma economia na escrita, mudando a língua, a linguagem, a literatura. O ciberespaço ultrapassa a nossa capacidade de imaginação e, é claro, nos dá sentimentos de gozo e medo, ao mesmo tempo. Afinal, o novo assusta. "À mente apavora o que ainda não é mesmo velho", canta Caetano. Oswald disse: "Língua natural e neológica".
Por estas e outras, o novo, o velho, o novelo, o novelo está nos envolvendo em cada linha, em cada palavra, em cada música, em cada pensamento, com esta língua de literaturas, saberes e sabor.
Borges um dia declarou: "Dediquei grande parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura".
Letras: curso de jogos, brincadeiras, armações, engenhos e engenhosidades: a língua proíbe e a literatura libera. Apenas proibição ou apenas liberação geral não dão em nada - ou levam à barbárie. O lance é continuar deixando literatura e língua trocarem seus beijos sem ter conta e sem ter fim.
Letras: língua e literatura à mancheia. Exuberância. Pletora sem fim.
Vamos direto ao ponto: poesia é concisão, sacação, inteligência e sensibilidade a favor da linguagem nova. O resto, de fato, não é nada. É brincadeirinha de palavras montadas segundo "manuais de versificação" ou outras técnicas que, por si, nada são. Em nada ajudam.
Poetinhas de meia pataca enchem o solo estrelado deste país. Há, sabidamente, mais poetas que leitores de poesia. Esta relação é estatisticamente comprovada. Qualquer um que saiba as regras do soneto, do haicai, do madrigal, ou mesmo dos versos livres acha que é poeta porque fez um decassílabo, um terceto, ou mesmo escreveu ao léu, o que lhe veio à cabeça - considerando que tais "poetas" têm cabeça, coração e membros.
Oswald nunca quis um Brasil apenas, mas vários Brasis: variados, distintos, plurais. Por isto mesmo incentivou a postura carnavalizadora do "só me interessa o que não é meu". Isto é, o que é do outro devo devorar pois este ato desperta-me para um novo meu, que será diverso do que era enquanto do outro. Assim ele criou a Antropofagia, que agrada a gregos, baianos, josés e paulos. E que deu origem ao Cinema Novo, à Poesia Concreta, ao Tropicalismo, ao Mangue Beat eticétera & tal. E que continua gerando as artes antenadas do nosso país.
O nome mais novo deste universo artístico e carnavalístico é Arnaldo Antunes. Este artista multimídia, sempre partindo da palavra, tem produzido uma obra rara e rica. Que não tem merecido o reconhecimento a que faz jus. Mas se hoje poucos leem ou ouvem sua poesia, não resta dúvida que amanhã ela receberá o posto que lhe compete.
Seu lugar está marcado, tanto na história do rock brasileiro como no da poesia contemporânea. Já tive oportunidade de dizer aqui que sem Arnaldo os Titãs viraram um cortejo de velório. Faz chorar.
Enquanto isto a carreira solo de Arnaldo vai de vento em popa. Do vanguardeiro "Nome", 1993, um projeto tríplice, unindo livro + vídeo + disco, até seu mais recente trabalho "Ao vivo no estúdio", tudo em sua obra tem um toque provocativo, indagador, desinstabilizador. Gosta? Ótimo. Não gosta? Vá buscar sua praia. Este parece ser o "slogan" de Arnaldo, tal a independência do que faz. O resultado que lhe interessa, e isto ele parece deixar bem claro para o público, são as sempre vivas e revigoradas linguagens intersemióticas.
Fernando Pessoa pagou alto o preço de inscrever-se num concurso de poesia com um livro sobre a história de Portugal: amargou um segundo lugar. Segundo os jurados, por professar antinacionalismo. Mais uma vez o júri errou. Do livro vencedor hoje ninguém tem a menor notícia. Já do livro vice, o mundo todo sabe de cor vários poemas. Afinal, "Mensagem" é obra-prima da Poesia. No Brasil, o livro foi musicado por André Luiz Oliveira, em selo Eldorado, 1986 e reeditado em 1997. Com belas melodias, delicadas harmonias e acordes luso-brasileiros, o disco reúne grandes nomes de frente da nossa MPB num belo trabalho (diria mais: quase impecável) de poesia convertida em canção popular.
Ficou em segundo plano a obra pessoana que, rotulada de antinacionalista, teve desmerecida suas qualidades estéticas. Mais uma vez a espada do nacionalismo tacanho vaza o olho da estética.
Há algum tempo a Rede Globo fez um "ranking" das melhores músicas do século. Montou dois júris: um de profissionais e outro popular. O júri de profissionais achou por bem eleger "Aquarela do Brasil", de Ari Barroso, como a melhor da nossa MPB. Já o júri popular escolheu "Garota de Ipanema" de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Sem dúvida, o júri oficial quis ser mais realista que o rei. Na linha "vou onde o povo está", nivelou por baixo. Escolheu um samba exaltação recheado por preciosismos verbais no estilo "brega com jeito de chique, é disto que o povo gosta". Este júri quis fazer uma média e agradar o povo. Voltou no tempo e elegeu um "samba pra inglês ver" cuja letra, de um parnasianismo esclerosado, é daquelas que ainda sonambulam pelas torturantes antologias escolares.
Senão, vejamos: "Ah esse coqueiro que dá coco" (curioso seria se desse caju...). "Mulato inzoneiro" (inzoneiro pra rimar com brasileiro é de doer nos ouvidos). "A merencória luz da lua" (merencório: você já ouviu esta palavra onde mais?); etc.
E a melodia? É grandiosa e faz tudo para enaltecer a grandiloquência da letra em compassos que os intérpretes insistem (exceção feita a João Gilberto) em realçar com estrondosos dós-de-peito. De fato, é de doer. Duplamente: dor número 1: este samba de Ari; dor número 2: a escolha do júri. (Continuo na semana seguinte).
O público, ou seja, o povão, a massa anônima quase sempre desqualificada pelos intelectuais "da hora", não hesitou em escolher a música mais bonita. De fato, votou nos acordes requintados, na melodia dissonante, na letra cinematográfica e coloquialmente poética de Garota de Ipanema. Deu um soco na cara macaqueadora do júri "simpático mas incompetente", como disse Caetano Veloso no "III Festival Internacional da Canção", no Rio, em 1968.
Repete-se aqui aquela pisada na bola do júri português. Definitivamente está na hora de não dar mais a palavra aos jurados. O motivo é simples: eles insistem em ver o país com olhar conservador. Pegajoso. Dominador.
Neste país de caminhos plurais e antropofágicos, os profissionais (de música ou seja do que for) pronunciem-se à mancheia. É um direito que têm. Mas pelo-amor-dos-deuses-todos: que o povo também possa falar pelos cotovelos e ser ouvido. Com o direito de cantar (e calar) o que quer.
Nisto o certame da Globo acertou na mosca: deu voz para diferentes segmentos. Se a moda pega, com certeza muito jurado vai pensar duas vezes antes de declarar seu voto. Ah, se vai. Outro vexame como este, por exemplo, difícil acontecer.
Vamos ao poeta. Há 50 anos, Oswald de Andrade pegou a "Carta de Caminha" e recortou dela o que lhe interessava esteticamente. Transformou a visão estrangeira do português em poesia brasileira de fina estampa.
Fina e irônica. Reverteu a gravidade do texto em escracho. Despiu o tom solene da linguagem ao transformar a prosa em versos e intitulá-los irreverentemente. Um exemplo: no trecho em que Caminha descreve nossas índias e as reações dos portugueses face a elas, Oswald recorta o fragmento e o dispõe em forma de versos: "Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis / Com cabelos mui pretos pelas espáduas / E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas / Que de nós as muito bem olharmos / Não tínhamos nenhuma vergonha". Afora a sincronicidade do adjetivo "sarado", (hoje, gíria espalhada pelo país afora). Fora isto, resta o título que Oswald sapecou ao fragmento e que, de resto, explica tudo: "As meninas da gare". "Gare": estação de estrada de ferro. "Meninas": as que fazem ponto ali. Da carta de Caminha à cartada de Oswald. Ainda bem que temos escritores bem humorados.
A tecnologia e a interpretação que resgata o brega
18 de agosto de 2009
O balanço maroto, que a voz cantada surrupia da fala, desbancou de vez os dós-de-peito dos cantores-estouradores-de-tímpanos. Aquele canto operístico que só espanta ouvintes da música popular. Aí a invenção do microfone é importante, porque não apenas revoluciona as possibilidades de gravação, como acaba adefinindo uma nova postura diante da própria voz.
Se o rock libera a voz da categoria afinação, ao introduzir o ruído e a distorção como componentes interpretativos, o uso do microfone já tinha liberado os cantores de "voz pequena", colocando-os nos primeiros lugares das paradas de sucesso. Foi assim com Noel Rosa, Orlando Silva, Mário Reis, João Gilberto, Nara Leão, Roberto Carlos, Chico Buarque, e tantos mais.
Se temos hoje vozes privilegiadas como as de Gal Costa, Caetano Veloso, Zé Renato, Ná Ozetti, não resta dúvida de que estes cantores sabem muito bem que a voz é um suporte para a canção - e não o contrário. Os exibicionismos vocalísticos, que vinham sendo paulatinamente enterrados, receberam o golpe de misericórdia com o estilo "cool" da Bossa Nova e a consciência musical da geração Lira Paulistana.
Hoje um Zeca Pagodinho sussurra malandramente - e é tão bem assimilado que poucos se dão conta de sua sofisticada interpretação. Não importa: o que vale é que nossa música popular não é só letra e música - mas também arranjo e interpretação. O compositor, é bom que se diga, tem no intérprete (e no arranjador) co-autores da canção. E isto conta muito!
Este papo careta de dizer que uma música brega, e escanteada, vira moda quando um Caetano Veloso a regrava é papo pra lá de Marrakesh. Caetano toma o brega e confere-lhe uma interpretação tão singular que a canção passa a ser outra coisa. Uma coisa que é o mesmo (a canção original), mas é diferente (entra aí a co-autoria do intérprete).
A questão não é se é Caetano ou não. A questão é o "status" estético a que a canção é submetida.
Maria Bethânia fez o mesmo em tantas canções, como em "É o Amor", de Zezé di Camargo e Luciano. Zeca Baleiro acaba de fazer o mesmo com "Bola Dividida", de Luiz Ayrão. E assim a canção se renova. Sem fronteiras.
Cantar como se falasse: isto já é tradição em nossa música popular. Uma tradição elegante e sedutora que explora as entonações da fala tirando dali a musicalidade que cai bem na música popular. Uma inovação que cresce dia-a-dia.
O gingado do malandro de morro, a embolada do nordestino sertanejo, a manemolência dos sulistas fronteiriços, o som retroflexo dos caipiras de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, etc., pipocam aqui e ali em nossas músicas, sem constrangimentos. Seja no funk, no rap, no partido alto, no samba de breque, no rock de garagem, no coco de roda, no hard rock, no mangue beat, no punk rock, no bolero, no brega sertanejo, no abolerado blues, no axé music, no forró, no pagode, na embolada, etc. e tal. Em tudo a fala está presente. Em forma de música.
Em outras palavras: interpretar música popular no Brasil é cada vez mais um ato de sofisticação. Periga até de o ouvinte não estar se dando conta disto. Mas a verdade é que o canto popular está atingindo altos índices de qualidade interpretativa. Pena Branca e Xavantinho estavam levando a ferro e fogo a lição que aprenderam com a tradição musical brasileira (terças e oitavas num acordo estranho e bem sucedido), somada às conquistas dos grupos paulistas que fizeram uma música nos anos 80. Geração que ficou conhecida como Lira Paulistana: referência tanto ao teatro, em Pinheiros, onde estes grupos se apresentavam, como ao livro de Mário de Andrade, que, por sua vez, motivara o nome do teatro. São deste tempo, por exemplo, o trabalho com o canto-falado do Grupo Rumo (com a experiência de compositor e intérprete de Luiz Tatit e de Ná Ozetti), o genial Itamar Assumpção, o vocalista-radialista Arrigo "Dodecafônico" Barnabé, os irreverentes grupos Língua de Trapo e Premeditando o Breque, entre tantos outros.
Um ouvido mais atento percebe que desde Donga (com a gravação do nosso primeiro samba, Pelo telefone, em 1917) até o mais recente disco de seu Jorge ("América", 2008) a interpretação canto-falada & malandra é uma das marcas mais fortes de nossa música popular.
Aliás, o canto misturado com a fala é marca de qualidade interpretativa de nossa música popular - uma das músicas populares mais criativas do mundo. Tom Jobim já disse isto.
Mais uma vez Arnaldo Antunes se apresenta em João Pessoa. E cada vez é um acontecimento diferente, já que uma das características do compositor e cantor é inovar sempre.
Não se entenda por inovação as invencionices que os manuais ensinam, que as cartilhas apregoam, que os boca-a-boca comentam. Arnaldo é inventivo dentro da curtição de fazer um novo sem forjar nada. Hermetismos nunca o atraíram enquanto músico. Mas inovações, sim.
Neste mais recente show ele subiu ao palco e o palco era ele. Ainda que aqui e ali alguém da banda desse um diferencial a mais, tudo era Arnaldo. Sentado no chão, tomando cerveja e olhando pra banda enquanto esta desenvolvia uma parte instrumental, ele era só sorrisos e cumplicidade com seus músicos.
Uma coisa que me impressionou neste show foi constatar a alegria de Arnaldo no palco. Ou então invadindo a plateia, numa performance que já é conhecida dos pessoenses. Há anos ele deixa o palco e embrenha na plateia, de microfone na mão, cantando enquanto o público busca tocá-lo. Ele e o público gostam desta proximidade que a canção alimenta.
Arnaldo deu um show em que ele estava visivelmente feliz. Cantava, dançava, respondia com olhares os apelos do público. Sempre feliz da vida. Contente. Feliz. Rindo. Eu nunca tinha me dado conta de um intérprete estar tão feliz durante seu show. A alegria de Arnaldo era contínua. Verdadeira. Contagiante.
Ele cantou músicas do CD e DVD "Ao vivo no estúdio" e conhecidos sucessos. Para cada canção uma performance diferente. Como diferente e apropriada era sua roupa. Com gestos de cortes abruptos, lembrava, de longe, os bons tempos de Laurie Anderson da década de 80. Mas devidamente canibalizados. Um Arnaldo meticuloso nos movimentos transformados em signos de leitura e interpretação das canções. A dança performático-cubista de Arnaldo é uma marca que já se incorporou às suas apresentações.
Arnaldo contagiou todo o público que o esperava desde às 21 horas e só foi subir ao palco à meia-noite. Isto, por conta da desastrosa banda Travolta que "abriu" o show de Arnaldo.
O show de Caetano Veloso na Praça do Povo do Espaço Cultural José Lins do Rego veio matar uma saudade de 11 anos sem apresentação dele em João Pessoa. Ele próprio falou desta saudade à imprensa. Não sabia como explicar tal hiato. Na verdade, há 11 anos ele se apresentou no Forrock com uma acústica de péssima qualidade e com o público falando o tempo todo. Ele parou o show, deu um esporro geral, foi vaiado e sumiu de João Pessoa.
Sei lá como ele resolveu este caso de descaso com a apresentação dele. O fato é que voltou com todo o gás. Mais performático que nunca. Para cada canção tinha "um jeito de corpo" só dele. Que abria a canção para novas leituras. Em "A base de Guantánamo" expôs o corpo, duro-mecanizado numa clara referência aos presos políticos sob guarda dos norte-americanos em Cuba.
Já em "Eu sou neguinha" o corpo é só denguice, faceirice e requebro. Duas pontas de um mesmo fio: o mesmo Caetano instigante, provocador, manhoso. Engajamento e entretenimento. Numa boa.
A presente turnê é pra lançar o disco "zii e zie", palavras que em italiano significam "tios e tias". E não me perguntem o que este título tem a ver com o disco porque não faço a mínima ideia. Já ouvi o disco "N" vezes e "niente". Confesso meu desconhecimento e peço que me auxiliem nesta decodificação.
O show, pra ficar no clichê, foi impecável. Embora não goste desta palavra, não encontro outra: foi mais que gostoso, mais que bonito, mais que envolvente, mais que irretocável, mais que admirável, mais que antenado, mais que tudo de bom, mais que hipnótico, mais que curtição. Enfim: foi mais que mais. Muito é muito pouco.
No cenário uma asa delta e um telão por trás dela. A iluminação cuidava de nos levar a mundos de nuvens, mares, pés no chão, Cuba. Enfim: ao universo das canções.
A banda formada por uma guitarra, um baixo e uma bateria tocou com atitude e se impôs nos transambas ou transrocks, como vem grafado na capa do disco. É o mesmo trio que o acompanhou em "Cê". Competência e desempenho em alto grau.
Das 13 canções do novo disco, Caetano cantou 10. Entre as canções conhecidas, a surpresa de ouvir "Objeto não identificado" ou "Irene" ou "Maria Bethânia", do início da carreira de Caetano. Agora revisitadas pela banda Cê. O público pôde cantar, dançar, fazer coro com Caetano. Como numa grande festa de caetanólogos. E caetanólatras. Foi bonita a festa. Uma noite feliz com Caetano em João Pessoa.
O Tropicalismo deixou um legado substancial na cultura brasileira. Das coleções lançadas pelo estilista Alexandre Herhcovitch à música do Mangue Beat, hoje viva, entre outros, pela banda Mundo Livre S/A. Quase tudo que há de novo na cena brasileira paga tributo ao Tropicalismo. Glauco Mattoso compôs um soneto cheio de neologismos, reverberações sonoras, citações, pastiches, como um objeto semi-identificado que, derivando do Tropicalismo, influenciou Caetano em "Língua".
É notável este diálogo entre códigos diferentes como música e poesia num mundo cada vez mais globalizado culturalmente. Onde a cultura do centro intercambia-se com a cultura da periferia e vice-versa, num movimento constante de desterritorialização de tempos e espaços. É a Semiótica da Cultura entre códigos.
No soneto de Glauco, feito à moda inglesa shakespeareana, há apenas duas estrofes: a primeira com 12 versos e a segunda com 2. Misturando tupi com inglês e português, maxixe com rock, Lamartine Babo com Bob Dylan, Augusto de Campos com Caetano Veloso, etc., a estrutura deste soneto levou Caetano a produzir o que podemos chamar de "primeiro rap brasileiro".
Somente a carnavalização tropicalista-bakhtiniana de Caetano e de Glauco poderiam gerar "Nine out of tem" (1974), daquele e "Spic(sic)tupinik" (1972) deste. A famosa "Língua" (1984), derivada do poema de Glauco foi responsável também pela "reentrée" de Elza Soares no cenário da MPB - de onde, aliás, nunca devia ter saído, dada a magnetizante intérprete que ela é.
"Língua" todos conhecemos e cantamos e rapeamos. Já "Spic(sic)tupinik" é assim: "Rebel without a cause, vômito do mito / da nova nova nova nova geração, / cuspo no prato e janto junto com palmito / o baioque (o forrock, o rockixe),o rockão, / Receito a seita de quem samba e roquenrola: / Babo, Bob, pop, pipoca, cornflake; / take a cocktail de coco com coca-cola, / de whisky e estricnina make a milkshake. / Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço - hic - e desligo - clic - a cuca. // Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik".
Este "tsunami" de sons e sentidos, rebatendo-se e reverberando num caldeirão de inovação a cada verso, a cada palavra, a cada fonema só podia mesmo vir do Glauco Mattoso e atingir, em cheio Caetano, também íntimo dos ataques sonoro-semânticos em suas canções.
O haicai, tal como o soneto, possui uma forma fixa tanto do número de versos como de sílabas. Há exceções – muitas delas honrosas e outras fracassos monumentais. Mas isto não vem ao caso agora.
O haicai, quando chega ao Brasil, assume a cor local. E ganha contornos inimagináveis, até então, por haicaístas genuinamente japoneses. Mas não deixa de ser haicai. Apenas é o outro do mesmo, como diria o poeta português Sá Carneiro.
Entre nós brasileiros temos um grande haicaísta: Saulo Mendonça. Cada livro que ele lança é para mim uma provocação criativa e crítica. Sua poesia me deixa inquieto.
Provocação criativa, porque me sinto chamado a escrever poesia. A elaborar melhor meus poemas. A ser mais simples dentro desta grande complexidade que é a própria poesia.
Provocação crítica, porque me sinto chamado a deslindar, desenredar, a esmiuçar sua poesia. Este meu lado crítico pulsa forte, desafiando-me a dizer o belo que habita cada haicai de Saulo.
Com o recém lançado "Luz de Musgo" (João Pessoa, Editora Sal da Terra, bilíngue), o poeta parece mais poético do que sempre foi. Como se isto fosse possível, tal a nobreza simples de seus tercetos. A verdade é que este livro contém o que o poeta já sabia e fazia. E mais: uma "maturicidade" do que já era maduro. Em outras palavras: o que era "o melhor" agora é "o melhor do melhor". Pura poesia. Poesia pura. E nenhum adjetivo a mais. Isto basta. Vamos aos haicais.
"À tardinha, no Sanhauá / o velhinho fitava o rio / com o seu olhar poente". O ocaso da vida (tardinha) é colhido com o passar do tempo (rio). Rio Sanhauá, ou seja, tempo que tem nome e lugar: João Pessoa, Paraíba. A soma de "tardinha" com "velhinho" e "olhar poente" fazem a síntese da transitoriedade da vida. A única vírgula, no início do primeiro verso, leva a uma leitura encadeada do poema. Como o passar do rio. Como o passar do tempo. Encadeados, os versos unem-se num "flash" fotográfico de uma só cena. Esta concisão, este saber colher minúcias do dia-a-dia, e dar-lhes a dimensão do universal, é arte de renomados artistas. E não temos artistas assim a qualquer hora, a qualquer dia, em qualquer tempo. Por isto mesmo devemos cultivar estas obras com nosso coração e nossa mente cativos de tanta beleza, de tamanha reflexão poético-filosófica.
"Nossas línguas / lua cheia / a boiar no céu da boca". Quem pode fazer um haicai falando do beijo de forma absolutamente genial? "Línguas", "lua", "boca": o amor tira os pés do chão e vai ao espaço sideral (lua). E volta ao chão com o "céu da boca". Nossa dimensão de humano e de poético (se preferirem, de divino) em uníssono estala(m) em beijos na noite/dia eternos do céu da boca. Também, amantes da língua que falamos, da fala, do linguajar. Esta língua é mesmo um beijo cheio de semioticidades que se espalham boca a boca. João Pessoa afora. Paraíba afora. Brasil afora. Mundo afora. Só ao poeta é dado este fazer de um para muitos.