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26 de agosto de 2008

O filme "Estômago"

O filme "Estômago", de Marcos Jorge, em cartaz no MAG Shopping, é mais um bom lançamento da nova safra do cinema nacional. O enredo é simples: um nordestino chega a S. Paulo com uma mala e sem perspectiva alguma de trabalho ou moradia. Num bar de periferia come duas coxinhas. Como não tem dinheiro para pagá-las, lava a louça e o chão de uma cozinha imunda. O tempo passa, ele aprende a fazer pastel. Mas são as coxinhas que ele faz que aumentam a freguesia do bar.

Um dono de cantina das imediações põe os olhos no cozinheiro do boteco e acaba levando-o para trabalhar em seu restaurante. A partir daí o filme divide-se em duas partes que alternam entre si: a vida do cozinheiro no restaurante de classe média e no presídio. Também na cadeia ele se safa cozinhando para os companheiros de cela. Claro que com a conivência corrupta de policiais.

Os segredos da cozinha e de um bom vinho fazem a grande cena do filme o tempo todo. O telespectador sai, no mínimo, com vontade de ir a um bom restaurante degustar um bom prato.

João Miguel, que tem se firmado como um dos melhores atores da nova geração, é um intérprete que sabe tirar de cada seqüência o que ela lhe oferece de melhor. Assim, ganha as cenas em que contracena. Mas não é só quando divide cenas que se destaca. O filme abre com ele, melhor, com close em seu rosto, num monólogo ao mesmo tempo poético e permeado de chistes.

O amor é a nota triste do filme. O nordestino ora é chamado de paraíba. Ora de baiano. Ora de cearense. Nada disto o incomoda. Ele sabe que é um intruso na metrópole e que tem de saber se virar pra não ser engolido pela grande máquina. E aí está o xis do problema. Ele se apaixona por uma prostituta (Fabíula Nascimento). E assim tem início a parte felliniana do filme. Comilanças à farta e desperdiçadamente. Cenas de amor abruptas. Sentimentos grotescos.

O grotesco e o sublime margeiam o filme o tempo todo. As partes baixas, como diz Bakhtin, alimentam as partes altas. Tudo gira ao redor do mundo desconhecido de cada personagem. Personagens enquanto sujeitos donos de si não existem. Todos têm na fragmentação do Eu um mundo que se desenrola fora do domínio deles próprios. Quem era dono de um canto na cela da cadeia já não o é mais. Quem ensinava tudo sobre carnes, frutas, verduras, legumes, vinhos, pensa que sabe o que quer e como quer, mas é vítima de sua própria inconsciência.

O inconsciente é o vetor que conduz "Estômago". Mas isto não é dado de graça. O telespectador sai do filme incomodado com algo que não é dito, não é visto, não é ouvido. Por isto mesmo vale a pena pensar sobre as nuanças de melancolia que nos enlaça ao término do filme.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 15:35
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19 de agosto de 2008

As línguas de Glauco Mattoso

Glauco Mattoso já é referência no soneto contemporâneo. Há anos ele vem publicando-os sempre com a irreverência crítico-criativa do inquieto e produtivo poeta que é. Sua obra é corrosiva e dilacerante. Nada escapa aos olhos deste poeta que ficou cego. E até sua cegueira é motivo de auto-escárnio. Mas há os poemas líricos também. Ainda que pisados e repisados por seu amor humor sarcástico. Por seu sado-homo-masoquismo assumido e propagado à mancheia.

Seu mais recente livro, "As mil e uma línguas" (S. Paulo: Annablume; Coleção Dix Editorial), é o terceiro volume da série "Mattosiana". Este livro compreende 4 partes: na primeira aborda a língua em si, metalingüísticamente. Na segunda, os poetas que o poeta admira através de um obituário muito especial. Na terceira, divagação solta pelo cotidiano de um cego. Na quarta, a língua do paladar encerra o volume gastronomicamente.

Ler Glauco sem refletir e sem rir não tem graça. Sua poesia tem um pé na filosofia e outro no chiste. Não se pense que ele entrega de bandeja o poema. Aliás, entrega-o, sim. Mas somente quando já tiver cortado vigorosamente a cabeça do poema. O banquete a que ele nos convida não é para todos os paladares – mas para os paladares abertos a novos sabores – do cheiro e gosto do pé ao gosto e cheiro das fezes.

Estas mil línguas dialogam com Gregório, Bocage, Sade, Masoch, Augusto dos Anjos entre bagunças culinárias, o par perfeito e a língua coloquial, entre outros.

Eu poderia passar esta coluna e outras discorrendo sobre o Glauco sonetista. Opto por transcrever dois sonetos, que remetem a vários outros. "Soneto da morte de Augusto dos Anjos": "Do mórbido e do sórdido diz tanto / e tanto diz da morte o nosso Augusto, / que dúvidas comigo até levanto / e com seus versos quase não me assusto... // De amor e paganismo, com espanto / sarcástico, nos fala, e dum vetusto / e lúgubre universo, onde acalanto / tem tom de marcha fúnebre... Foi justo? // Entendo-lhe as razões, e não discuto / tragédias familiares... Também puto / fiquei, com Deus e o mundo, e tive a prova... // Mas vejo nele, ainda, uma pontinha / de fé numa amizade que mesquinha / não seja: a dos cadáveres na cova...".

Outro: "Soneto repisado": "No inglês se chama ‘bullying’, mas aqui / é o ato de ‘zoar’, verbo que inclui / além da ‘zombaria’, algo que influi / também fisicamente no guri. // A turma não apenas xinga e ri; / diverte-se naquilo de fui / a vítima ideal: colegas ‘mui / amigos’ me pisavam, e eu Lamb... // Lambi sola descalça e até calçada, / conforme já contei. Levado eu era / ao mato, após cair numa armadilha. // Lambi, mas me vinguei! Não virei fera, / mas tudo devolvi, pois ponho em cada / soneto um pé que nunca supera!". (Atenção para o "pé" dentro de "supera"!).



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 15:34
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12 de agosto de 2008

O corpo pós-humano

Nestes tempos pós-modernos, a cibercultura muda hábitos e comportamentos da vida cotidiana. Um exemplo corriqueiro é o uso que fazemos do celular. Hoje ele é uma peça indispensável à vida de cada indivíduo. É levado com as pessoas tal como são levadas as carteiras de dinheiro. Está tão infiltrado em nosso dia-a-dia que alguns chegam a se sentir excluídos se o celular não toca por uma tarde, por exemplo.

Nosso corpo também se insere neste contexto. Das transformações operadas pelas academias de ginástica, ao implante de silicone, lipoaspiração, próteses, marca-passos, transplantes, células-tronco, inserção de chips, este corpo já não é aquele do século 19, por exemplo. De tal forma foi alterado em suas funções e aparência que já se fala em corpo cibernético ou pós-humano.

Até aí, tudo bem. Todos concordam que a medicina vale-se cada dia mais das tecnologias de ponta. Sorte para nosso corpo físico e social. Ninguém polemiza sobre as próteses – é um avanço em prol do homem. Ponto final.

No entanto, quando travestis ganham do SUS o direito de fazerem operações de mudança de sexo, vozes conservadoras vêm à imprensa dizer que isto vai contra a vontade divina, contra os planos do criador para o ser humano. E outras bobagens.

Não sejamos hipócritas: deixemos de usar o nome de Deus para acobertar, por exemplo, preconceitos sexuais seculares. Na Paraíba a presidente da Astrapa – Associação de Travestis da Paraíba – Fernanda Benvenutti tem esclarecido que este direito junto ao SUS é uma vitória dos núcleos GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), que desde 2006 discutem junto às autoridades governamentais.

Agora que a lei foi aprovada, duas vozes de representatividade religiosa vêm a público censurar esta conquista e protestar contra o SUS alegando que há outras urgências frente à implantação desta prática. De quem são estas vozes? Das igrejas católicas e evangélicas, é claro. Ambas não se consideram homofóbicas, já que admitem a homossexualidade – desde que não posta em prática. Isto é como dizer que não se é contra a cozinha regional paraibana, contanto que não se cozinhe nem se coma desta cozinha. Oras, deixem de sofismas e assumam que são contra os avanços tecnológicos e morais dos novos tempos. Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba e o pastor Tomaz Munguba, da Igreja Evangélica Batista de João Pessoa, opõem-se à transgenitalização recorrendo a uma teologia canhestra que se conforma de acordo com interesses escusos.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 15:32
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05 de agosto de 2008

Estação Ciência, Cultura e Artes

João Pessoa ganhou seu marco turístico mais representativo e mais belo: a Estação Ciência, Cultura e Artes. O projeto de Niemeyer não somente valoriza como emoldura e destaca a cidade vista do alto do Cabo Branco. Dali, o oceano, a Mata Atlântica e os prédios da cidade ganham um ângulo de visão particularmente belos. Impossível não chegar ao terraço e de lá não deslumbrar-se com a beleza desta cidade.

Com auditórios equipados com tecnologia de ponta, um anfiteatro a céu aberto, o som brotando dos canteiros gramados (uma solução simples e funcional), a torre para exposições e a vasta e larga passarela que torna a subida ao terraço um passeio por si só.

A ponta do Cabo Branco ficou mais poética e mais bela que nos poemas, canções e telas em que fora retratada até agora. Tecnologia é arte. Hoje mais do que em qualquer época de nossa história. Arte e tecnologia são pares para Niemeyer.

No térreo da torre há uma exposição com os esboços de Flávio Tavares para a gigantesca tela que nos recebe assim chegamos ao prédio dos auditórios. Os esboços são bonitos, isoladamente. Aqui e ali Flávio faz anotações curiosas. É um registro histórico importante.

Quando adentramos o prédio dos auditórios somos recepcionados pela tela, imensa tela, toda iluminada. A sensação que temos é de susto. Como é que aqueles pequenos e bonitos esboços, individualmente, resultaram numa monstruosidade como aquela?

Vendo a tela e estando na arquitetura de Niemeyer vivemos a ubiqüidade de estarmos ao mesmo tempo na Idade Média e na Pós-modernidade. Este, projetou um conjunto de edifícios criativo, funcional, belo. Três marcas da arquitetura de Niemeyer. Aquele (re)produz uma tela plena de símbolos e de um figurativismo anacrônico. A cidade é vista como um todo ao mesmo tempo. Claro que reconhecemos ali personagens de nossa história e do nosso cotidiano. Passagens da fundação da cidade, etc. Tudo apontando para uma simbologia heróica, vencedora, triunfante. Para Flávio Tavares o mundo ainda caminha dentro da redoma medieval. Ainda tem unidade. Ainda tem centro. Ainda respira ufanismo.

A tela de Flávio Tavares é um disparate inaceitável. Somente os visitantes de alma e corações ingênuos deslumbram-se com ela e a tomam como condensação sacralizada da nossa história paraibana.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:32
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Pedro e a namorada

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29 de julho de 2008

A morte do filho

No dia em que recebi a notícia da morte de meu filho caçula eu estava internado numa clínica psiquiátrica em crise de transtorno bipolar. Minha filha Mariana que me deu a notícia insistia veementemente que eu passasse o telefone a um médico ou a uma enfermeira. Eu não quis. Vencida, ela me disse: "Pai, o Pedro morreu afogado".

Eu uivava pelos corredores e salas da clínica contra a imbecilidade do destino. Pedro adorava o mar. Muitas vezes, a caminho do trabalho, trocava o turno só pra nadar. Viajou com amigos e a namorada desfrutando das férias e comemorando o primeiro lugar nas provas da pós-graduação em Jornalismo na PUC-Rio.

Por ironia do significado das palavras ele morre em Arraial da Ajuda, Porto Seguro, Bahia. Mergulhou no rio. Chocou-se contra uma pedra. Boiou morto. Tinha apenas 24 anos. Era meu interlocutor nos assuntos de música popular. Certa tarde, andando pelas ruas de Ipanema ele cantarolou um sambinha lindo que me fez perguntar pela autoria: "É meu, pai; eu que fiz". Me emocionei. Abracei-o e lhe dei um beijo. Nosso amor é grande. Também dos livros e filmes éramos cúmplices.

Pedro era um garoto muito alegre, carinhoso e em paz com a vida. Vivia cantarolando o tempo todo. Ele não podia estar morto. Um filho não morre antes do pai.

Eu urrei. Eu urrava. Eu via partes de meu corpo se decompondo. O mundo também se desfazia. Mariana, minha filha, chorava ao telefone, desesperada. Na clínica me pediram nomes de amigos e familiares. Meus familiares moram a 3 mil quilômetros de João Pessoa. Dei o nome do nome do meu amigo mais íntimo.

De repente eu estava em meu apartamento. Muitos amigos se ofereceram para viajar comigo. Só aceitei a companhia do meu amigo, que mesmo em prantos, arrumava nossas malas. Viajei para encontrar a morte. Ver a sua cara. Lutar contra ela. Trazer meu filho de volta. Fazer qualquer coisa. Nunca ficar sem o Pedro. Nunca!

Chegamos ao Rio antes do corpo. Mariana foi quem tomou as medidas práticas e legais. A mãe imobilizara-se em prantos. Bernardo, o irmão, entrou em estado de choque. Eu ali, entre meus 2 filhos, esperando o caçula chegar. Chegou. Caixão lacrado. Entre o velório, o enterro e a cremação Mariana deu vazão ao seu esforçado controle emocional. Desmaiou 4 vezes. Bernardo balbuciou um emocionado discurso de adeus.

Hoje faz um ano que o Pedro morreu. Eu não sou mais o mesmo. Ele e o Marcelo são os dois filhos que a vida me tirou. Eu não sou mais o mesmo homem.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 17:41
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22 de julho de 2008

Poesia pra crianças

Escrever para crianças não é tarefa fácil. Os erros e enganos proliferam à mancheia. Ora o tom moralista, como se todo livro de criança tivesse de "dar uma lição". Ora a linguagem falsamente coloquial, traída pelos termos mais esdrúxulos. Ora o projeto bem-intencionado de apenas entreter, mas que acaba menosprezando a inteligência e a sensibilidade da criança.

Mário Alex Rosa escreveu um livro de poemas para crianças que é bem-humorado, divertido e, acima de tudo, poético. Um livro poético pra crianças: isto é notável! Beatriz Mom ilustrou com as mesmas qualidades do autor: seus desenhos não espelham o texto. Antes: comentam-no com a propriedade ambígua da poesia.

"ABC Futebol Clube" é ainda uma obra feita com grandes cuidados gráficos: do tipo do papel usado à reprodução das cores, sem contar as duas páginas centrais, convertidas em quatro, abrindo-se como um campo de futebol se entrega aos seus torcedores. E é dada a partida: "Atenção, atenção / foi dada a formação do abc: / a escalação tem ares de ataque: (...)". E por aí segue o jogo de futebol e o jogo com as letras do alfabeto e as palavras por elas formadas. É um festival de cores, sons, movimentos.

O poema "Alice" faz um jogo de espelhamentos que pega o leitor do começo ao fim. Cito um fragmento: "Ela só parecia / desaparecer de aparecer. // Ela só sabia de saber / o contrário do fazer.// Alice pra brincar mais do que podia / coloriu a noite de dia. // Alice foi ao mundo das maravilhas / e trouxe um livro. // O que se abriu / foi um mundo de magias. // Alice descobriu nas páginas / como é bom viver na poesia".

Esta brincadeira de dizer às avessas, de inventar o inusitado, de rimar em dístico, e a "descoberta" final de Alice face à poesia, deleita o leitor de cinco a 95 anos. Todos adentram no mundo mágico da poesia de Mário que tem um toque de Bandeira, outro de José Paulo Paes e uma pitada (bem chiste) de Paulo Leminski.

Tudo dito com a leveza de conhecimentos que têm até um toque "científico", lembrando o bandeiriano "Poema tirado de uma notícia de jornal". Vejamos "Poema desentranhado da natureza": "o peixe nasce nadando / o pássaro nasce quase voando / a água é dos peixes / como o céus é dos pássaros / e a terra dos homens / que não nascem andando". Tem também um toque de Castro Alves revisitado por Caetano. Beleza! (Esta coluna é dedicada à Nara Limeira, incentivadora número um dos pequeninos leitores).



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:48
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Ronald Polito

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15 de julho de 2008

O "livrobjeto" de Ronald Polito

Há muito tempo o livro deixou de ser apenas aquele volume encadernado. Através dos tempos o livro tem passado por várias mutações. Mas a partir da década de 60, em especial, o livro tem se transformado em objetos ora interessantes, ora curiosos, e na maioria das vezes em algo artístico, provocativo e lúdico.

O livro de Ronald Polito se chama "Objeto", o que confere, desde o título, forte materialidade à poesia nele contida. São pranchas dobradas, círculos transparentes, minicartões, um quase-convite, etc. Numa prancha dura de papel reciclado lê-se a palavra problema em português, inglês e francês. No caso, ao jogar com o itálico, o poeta induz a leitura de que seja em que língua for, a poesia encara o problema de comunicação e de linguagem. A escolha destas 3 línguas coincide com as mesmas que Augusto de Campos usou, na década de 60, quando fez "cidade". É evidente a interação dos poemas entre si, interrrelacionando mundos, afinal, afins.

A fina e cortante ironia está num cartão que diz "a repetição é incrível" e logo abaixo as aspas que indicam repetição. Melhor: há 2 cartões iguais a este. De fato estamos dentro da pós-modernidade e tudo está dito. Um cartão dobrado traz na frente a palavra "gata". Ao ser aberto, os dois "as" convertem-se em dois grandes olhos verdes informatizados: @. @ . Rascante irrisão em tempos do Deus Digital.

Um cartão todo negro traz prensada a palavra "light". Ao abri-lo há uma minúscula incisão no centro. Vendo e lendo o cartão com mais cuidado parece que há uma coincidência entre o pingo de "light" e o furo da página seguinte. A luz e o apagão: dois irmãos do "chiaroscuro"? Barroco revisitado pelo neobarroco? O poema "A mágica de AZ" é a construção de nosso alfabeto numa simetria perfeita, desde que excluídos o "A" e o "Z". Ou seja, a linguagem da poesia não tem lugar. Seu lugar é o não-lugar. Este poema dialoga com o "Che" de Joan Brossa no qual o poeta catalão apaga as 3 letras de "Che" do alfabeto. (In)comunicação poética ou poético-engagée, a verdade é que o poema visual é feito (aqui) com palavras.

Um cartão bordô traz os dois pontos de exclamação da língua hispânica. Nenhuma palavra entre eles. Contemplação do absoluto. Com o auxílio da caligrafia que risca/desenha os sinais. Condensação total: aqui, poesia visual sem palavras. "Objeto": "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" diz o Livro do Conselho. Ler/ver/jogar.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:07
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01 de julho de 2008

Centenário de Machado de Assis

Se perguntarem a 1000 leitores entre exigentes e superexigentes (acredite: eles existem...) qual o escritor brasileiro mais importante de todos os tempos a resposta será 1000% Machado de Assis. Há Rosa, há Clarice, há Graciliano e mais 2 ou 3. Mas dá Machado na cabeça. Pode apostar.

Quem não se lembra de contos absolutamente arrebatadores do bruxo? E dos romances cada qual mais irreverente e bem escrito que o outro?

Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o capítulo LV é intitulado "O velho diálogo de Adão e Eva". É um achado. Um senhor achado genial. Transcrevo o capítulo tal como se encontra na edição da Nova Aguilar:

Brás Cubas ...................................................................................?

Virgília ................................................................

Brás Cubas ....................................................................................................................

................................................................................................

Virgília ................................................................................!

Brás Cubas ................................................................

Virgília ............................................................................................................................

.......................................................................?   ..............................................................

..................................................

Brás Cubas .............................................................

Virgília ......................................................................

Brás Cubas ....................................................................................................................

...............................................................................................!........................................

................................!......................................................................................................

............................................................................!

Virgília .......................................................................................................?

Brás Cubas .........................................................................!

Virgília ...............................................................................!

Uma bela homenagem à (in)comunicabilidade humana desde tempos imemoriais. Além de ser um verdadeiro “tombeau” de Mallarmé, Octavio Paz, Pound, João Alexandre Barbosa e de Haroldo de Campos. Delícias para semioticistas.

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:20
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68 em 3 questões
 
Amador Ribeiro Neto
 
Em entrevista recente ao Jornal da Paraíba, Astier Basílio me fez 3 perguntas-provocações. Dadas as limitações do jornal, ele teve de condensar as respostas. O texto final ficou muito bom, mas me deu vontade de expor a íntegra desta minientrevista. É o que segue.
 
 
1- O Mangue Beat e o Tropicalismo refletem, na sua opinão, alguns princípios do manifesto?
 
Caetano, em 68, numa célebre entrevista a Augusto de Campos, declarou que o Tropicalismo era um Neoantropofagismo. O Manguebeat bebeu fartamente nas águas do Tropicalismo. Logo, os 2 pagam tributo ao manifesto oswaldiano. Esta prática de comer o que vem de fora (o rock, o punk, a pop art, Stravinski, Cage, pintura Expressionista, etc.) somada ao que temos (o samba, o samba de roda, a ciranda, o maracatu, o brega, o kitsch, o erudito, o popular), tudo digerido e devolvido como produto novo foi o Tropicalismo e foi o Manguebeat. A base é a irreverência do Manifesto Antropofágico que digeria tudo o "que não é meu" e devolve tudo "novo", como produto "nosso".
Esta abertura pré-pós-modernismo de Oswald é a grande sacada da arte modernista e contemporânea em terra brasilis.
 
 
 
2- Na música brasileira, de que maneira o manifesto antropofágico serviu de influência ou base para alguns artistas?
 
Na deglutição de tudo o que vinha de fora e era transformado em "coisa nossa", como diria o Noel. Noel valorizou as coisas do Brasil e fez delas matéria para seus sambas. O Tropicalismo pegou Noel, associou-o a Carmen Miranda, ao rock emergente, aos ruídos incorporados como  música, depois de Cage, entrou nos terreiros de umbanda e candomblé, nos sambas de roda da Bahia, namorou o iê-iê-iê da Jovem Guarda, misturou o cimena de Eisenstein a canções como "Domingo no parque", o cinema de Godard a "Alegria Alegria", foi dirigido pela batuta crítico-criativa de Rogério Duprat e Damiano Cozzella e fez uma festa no palco e no circo de nossa música popular. Sem o Manifesto não teríamos, além do Tropicalismo e do Manguebeat, o samba-rap de Marcelo D2, o samba irreverente e inusitado de Max de Castro e Otto, ou de Mundo Livre S/A, ou dos geniais Los Hermanos, entre tantos.
 
 
3- Onde podemos encontrar, em artistas da música brasileira, elementos que dialoguem com a antropofagia?
 
Chico César é uma feliz cria caetânica em todos os aspectos: da Antropofagia à incorporação de recursos da Poesia Concreta. Otto nasceu em meio ao Manguebeat, e agora tem uma levada própria, que se inova a cada novo cedê. Este músico camaleônico não faz a própria cama com nada. Nem com o que lhe garante sucesso, como "Samba pra burro", o primeiro cedê solo. Zeca Baleiro é tão antropofágico que já se vestiu de tropicalista na capa do cedê "Vô imbolá".  Os três de "+ 2" comem no prato tropicalista com apetite dos glutões: Moreno +2; Kassin +2, Domenico +2. Seus cedês mesclam um rol de sons que só o Karnak e Os Mulheres Negras tinham conseguido antes. Mutantes e Secos e Molhados são figurinhas carimbadas nesta relação. Eles são nomes sagrados na arte da profanação. Isto na música.
Nas artes plásticas, Beatriz Milhazes é toda oswaldiana nas formas, nas cores e nas dimensões de seus trabalhos. Ela acaba de consagrar-se como o primeiro artista brasileiro a conseguir mais de 1 milhão de dólares por um só trabalho. Além dela, a pintura a la grafitagem de José Roberto Aguilar é antropofágica. Aguilar e a Banda Performática atuam tanto na música como nas artes plásticas. Suas apresentações mesclam música e pintura de teças ap vivo. Mais tropicalista que isto pra quê?
Na moda, o estilista Alexandre Hercovitz faz seus modelos vestirem a antropogafia, da roupa às poses. Joãozinho Trinta dos carnavais canibais no Sambódromo. A pintura/instalação de Antônio Dias, os parangolés de Hélio Oiticica - retomados por Adriana Calcanhoto. As esculturas móbiles de Lygia Clarck. As instalações inusitadas de Nuno Ramos. O jogo trans-histórico da memória, de individual a coletiva, por José Rufino. O cinema desconcertamente apaixonante de Júlio Bressane. A poesia de Carlos Ávila, Valdo Motta e Arnaldo Antunes - este último possui carteirinha carimbada pelo chefe-mor da Antropofagia. As prosas desestabilizadoras de Jair Ferreira dos Santos e de Evandro Affonso Ferreira: marcas da Antropofagia oswaldiana. E por aí afora. Enfim: o Manifesto Antropofágico está para a arte brasileira tal como o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, está para o socialismo universal. Com a ressalva que o socialismo está em crise. E a arte brasileira vive um dos momentos mais ricos e profícuos.


Escrito por Amador Ribeiro Neto às 09:34
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20 de maio de 2008

O show da Madonna

Na minha infância e adolescência no interior de S. Paulo eu freqüentava as missas da igreja católica. Depois, desde a juventude, nunca mais. Nos últimos dias, por conta do falecimento do pai de duas amigas, fui à missa de sétimo dia. Quer dizer, missa de sétimo dia pra mim e pra minhas amigas. Porque tinha "intenção" de tudo. Incluam-se neste tudo: aniversários natalícios, aniversário de 50 anos de casados, ação de graças pela formatura, aniversário de morte desde um mês a 15 anos. Passando pelo de sétimo dia, "of course".

Até aí tudo bem. Os tempos são pós-modernos e pode tudo ao mesmo tempo agora. Tempos titânicos, como bem disse o Daniel Sampaio em sua coluna de estréia aqui. Mas realizar micareta dentro desta missa plurissêmica, pode? É! A missa é um carnaval fora de época. E pelo que entendi em conversas com devotos é assim o ano todo. Até no carnaval! Beleza pura. Odara. Maravilha. Mara! Só falta o trio elétrico, já que os cordeiros estão ali.

O padre ciceroneava a corda, digo o cordão carnavalesco, assessorado por paquitos e paquitas devidamente paramentados. Os paramentos tinham o mesmo corte dos abadás. O som era de primeira, com uma percussão fortíssima. Ao final da missa fui checar com uma amiga atéia, que comparecera por solidariedade à nossa amiga: aquele batuque não é ponto de umbanda? É! Agora é a vez de a igreja católica fazer o sincretismo religioso.

No meio da missa, esculacho dos esculachos: houve um esquete arrastado por dois casais bem-intencionados. Caramba: até os católicos se esqueceram de que de boas intenções o inferno está cheio? Ou já se associaram ao diabinho, antes tão temido? Foi um vexame sem graça. Talvez por isto uma das moças (pretensamente atriz) bocejou em cena. Digo, em frente ao altar. Imagine eu ali, mais perdido que cego em tiroteio no Rio.

Depois do teatrinho o padre puxou uma música. Com coreografia. Mãozinhas e mãozonas pro alto. Da direita pra esquerda. Da esquerda pra direita. Me vem à lembrança, não sei por que gratuidade, um show de Zezé de Camargo e Luciano. Faltava apenas ao padre o corpinho de Zezé. A coreografia era bem sertaneja-de-plástico. "É o amor".

De quando em quando o padre inventava uma salva de palmas – e eu me sentindo num programa de auditório. Uma gracinha!, diria a Hebe Camargo. Mas tem mais: de repente o padre começa a esguichar água nos presentes. Não eram gotículas de água benta. Eram jatos de açudes sangrando. Nos tempos do Chacrinha era bacalhau que o animador jogava na platéia. Mais palatável. Foi me dando um faniquito. Caí fora. Prefiro o show da Madonna!



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 17:16
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barrocidade, um blog

 

concretropicalista

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:50
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capa do livro de glauco mattoso sobre poesia marginal

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29 de abril de 2008

A dedicatória de Chacal (1)

Tive a felicidade de participar de uma mesa redonda no FENART discutindo a atualidade da Poesia Marginal. Chacal foi o palestrante. Falou da geração mimeógrafo e "offset". Discorreu sobre a espontaneidade desta poesia. Falou do processo de composição gráfica e temática de seus livros. Lembrou os tempos de "fumar unzinho" e aplicar um ácido. Discorreu sobre a geração desbunde. Tanto na poesia como na contracultura. Chacal foi simpático. Ou como me disse o Linaldo Guedes: "Chacal é um doce".

Tudo correu livre, leve e solto. Até que li seis páginas de um texto que questionava a existência da Poesia Marginal enquanto "poesia". Chacal respondeu que a Poesia Marginal inexistia há 30 anos. Não retruquei. Eu não estava pondo em discussão a existência da obra dos "poetas" marginais. Aí está, reeditada, a obra de Cacaso, Nicolas Beher e do próprio Chacal. Pode até parecer, mas não sou louco. Nem louco varrido. Não questionei a materialidade da "obra" "poética" produzida na década de 70. Tanto que em meus cursos de Teoria da Poesia, na UFPB, trabalhei a Poesia Marginal.

Mas aprendi com velho amigo judeu um provérbio, se não me falha a memória, judaico que diz mais ou menos assim: se um cavalo te dá um coice, você não vai dar um coice nele. Você segue seu caminho. Mas se um cara te dá um tapa você retruca com um soco. Penso que me faço entender.

Apoiei-me em Glauco Mattoso e em Carlos Alberto Messeder Pereira, que publicaram livros sobre a Poesia Marginal, para dizer que não existe um movimento desta poesia. O que há são "poetas" dispersos usando tanto a precariedade de impressão como uma maior precariedade: a estética. E aí lancei meu questionamento: se a Poesia Marginal é poesia, por que as análises que fazem dela são antropológicas, sociológicas, históricas e o escambau? Tudo, menos análise poética. Me interessa saber onde está a Poesia da Poesia Marginal. Este grupo de "poetas" fazia (e pelo jeito ainda faz) questão de declarar desconhecimento da tradição da poesia – tanto brasileira como internacional. E assim repetem procedimentos vencidos esteticamente. Pior: pensam que fazem o novo.

Poesia é linguagem. Ou seja, poesia pertence ao domínio da Estética. Citei Antonio Candido ao explicitar que faz-se crítica literária com os elementos intrínsecos da obra. Já sociologia da literatura faz-se privilegiando os fatores extrínsecos da obra. Nada disto foi levado em conta no debate. Nem por Chacal, nem pelos presentes.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:42
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06 de maio de 2008

A dedicatória de Chacal (2)

Até no "youtube" a mesa-redonda com Chacal foi parar. Numa homenagem a Lau Siqueira (em tempo: grande poeta!) minha fala questionando a existência estética da poesia marginal aparece citada como datada, sem propósito. O ator em cena faz um muxoxo diante de minha indagação. Era a citação de um texto de Lau em seu blog. Texto que o próprio Lau reviu depois. E pôde explicar melhor.

Não sou o porta-voz de uma universidade caduca, fossilizada no berço esplêndido do cânone, como Chacal insinuou. Todos que me conhecem sabem que sou um "scholar", naquilo que este termo encerra de pesquisador, estudioso e aplicado intelectualmente. Mesmo porque sou um dos mais antiacadêmicos da universidade. Aqueles que foram ou são meus alunos, e aqueles que me lêem, sabem disto. É falso contrapor a universidade à rua. Como se uma das duas estivesse com a razão. E a razão fosse excludente. Bobagem.

E mais: minha fala não foi censora, como afirmou Chacal. Credito esta palavra ao desespero da hora, na busca argumentativa do vale-tudo pró-Poesia Marginal. Afinal ele e eu fomos vítimas da ditadura militar. No meu caso, fui perseguido tanto por policiais e dedo-duros em passeatas como por telefonemas anônimos ameaçando a vida de minha filha recém-nascida. Ele e eu vivemos a ditadura dos anos 70 até meados de 80. Sabemos quão aterrorizante ela foi. Por isto a palavra censura é em absoluto infeliz. Além de um destempero. Credito à pane que acometeu Chacal ante meus argumentos embasados.

A Poesia Marginal se diz influenciada pelo Modernismo e pelo Tropicalismo. Dois movimentos marcadamente expressivos e inventores de linguagens. Mas a vinculação com o primeiro não passa do uso diluído do humor e da oralidade. Com o Tropicalismo se deu o mesmo. Do revolucionário movimento que desestruturou para sempre os limites entre popular e erudito, bom e mau gosto, doméstico e internacional, a Poesia Marginal ficou com o desbunde. A porra-louquice. Pena. Porque os tropicalistas souberam usar tanto a Poesia Concreta como o genuíno Oswald. Tanto a bandinha de coreto como Stravinsky.

O próprio Chacal, ao falar de sua formação intelectual, declarou em 1977: "Eu lia pouco, muitos contos de fada, Monteiro Lobato". Claro que isto vai repercutir na "poesia" dele. Depois de três horas e cinco minutos de mesa-redonda ele, gentilmente, me presenteou com um exemplar da revista "O carioca" com a taxativa dedicatória: "Ao professor Amador, por seu rigor necessário, pela sua sinceridade. Abraços. Chacal. 21.4.2008".



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:37
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15 de abril de 2008

Computador e poesia digital

O computador é hoje a grande máquina semiótica. Em sua tela desfilam signos dos mais variados matizes, gerando e questionando as formas de absorção das novas linguagens. Passado o tempo em que ele era apenas depósito de arquivos, agora, com a versão individual (personal computer), não há como negar que ele seja fonte de lazer, conhecimento e aprendizagem.

Frente ao universo desafiador e estimulante que ele propicia, a poesia (em especial) dispõe de um espaço a mais para as suas sempre renovadoras formas de manifestação. O cibertexto modifica nossa percepção do mundo, tanto virtual como real. E gera uma nova epistemologia.

Com a mudança do meio de produção, ou das mídias de produção altera-se o produto criado e o modo de sua recepção. O filósofo alemão Walter Benjamin já nos chamava a atenção, na década de 30, para a nova mudança da postura até física do leitor diante do surgimento do jornal – em confronto com o livro.

Da mesma forma a tela do computador impõe, não somente mudança na postura física do leitor, como na convivência e assimilação das novas mensagens.

Diante de imagens que movimentam-se associadas, ou não, a sons e cores, o repertório do receptor pede atualização face a esta nova realidade da obra artística.

Mais que objeto cultural – como pontua o semioticista russo V. Chklóvski – o texto literário é um processo cultural singular, desautomatizador, gerando novas percepções do objeto artístico, do sujeito e do mundo em si.

Em tempos de novos suportes e recursos tecnológicos, a poesia farta-se nas múltiplas possibilidades de criação face às novas mídias.

Estudar as representações daí advindas é um desafio aos ensaístas e críticos da poesia, bem como aos poetas.

Arte-ciência-tecnologia embrincam-se, mais que em outras épocas históricas. Cientes deste fato, é hora de pesquisar, compreender e assimilar as contribuições da era digital. O virtual ocupa hoje o espaço do real. E o real está se transmutando em virtual.

No caso específico de nós, estudiosos e poetas, chegou a hora da análise, interpretação e produção da infopoesia. Ou ciberpoesia ou poesia digital – uma vez que o nome desta poesia ainda não foi fixado. Mas hoje é tempo da poesia e do computador.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:14
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01 de abril de 2008

O paciente do transtorno bipolar (1)

Chico Buarque numa das mais conhecidas canções: "E a cidade toda se enfeitou /pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / (...) Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou / E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor".

O portador do transtorno bipolar vive a festa e o velório. Muitas vezes em fração de segundos. Exaure-se na profusão de sentimentos, sensações e pensamentos incontroláveis. Oscila entre a euforia e a depressão. É festa da banda passando e a dor depois que a banda se foi. Seu humor é ácido ou doce. Une ou dissocia. Pra cima ou pra baixo.

Não precisa haver motivo para o paciente bipolar estar bem: ele simplesmente vibra, fala sem parar, canta, entusiasma os amigos do trabalho ou da mesa do bar. Tem um humor admirável e sedutor. Mas entra em depressão. Não precisa haver motivo para ele deprimir-se: ele se isola, evita compromissos sociais, fica taciturno. Coisas triviais como escovar dentes, pentear cabelos e tomar banho tornam-se insuportáveis.

Na euforia ele é o dono de qualquer situação que se apresente. É desinibido, sabe contar ótimas piadas, tem o senso de humor à flor da pele. Mas depois que todos vão embora e ele fica só, vem a sensação insuportável de um imenso vazio. Ele teme ficar só. Se não há jeito, liga a televisão, liga o aparelho de som, liga o computador. Em vão: nada o consola. Não suporta estar sozinho. Precisa de palco e público para exibir-se.

Na depressão os compromissos cotidianos tornam-se insuportáveis. Pagar contas no banco, tomar o ônibus, ir pro trabalho, cumprimentar o porteiro do prédio, dar uma aula, escrever uma linha. O mundo fica inviabilizado. Ele prefere ficar no escuro. E só. Se o telefone toca, se chega o jornal ou a revista que assina, tudo soa demasiado, estressante, exaustivo. Não raro prefere morrer. Drummond diz num poema: "Alguns, achando bárbaro o espetáculo, / prefeririam (os delicados) morrer". O poeta destaca os delicados como se os protegesse entre parênteses. Na verdade ele os destaca com os parênteses. E tece uma fina ironia sobre aqueles que, diante da vida, "acham bárbaro o espetáculo". Talvez Drummond ignorasse a psiquiatria e a psicanálise na sua fase engajada na década de 40.

Para o paciente bipolar a vivência dos pólos da euforia e da depressão é contínua. Seu humor pode oscilar em fração de segundos. Mas pode também permanecer por meses num estágio só. A solução não está no conselho moral e/ou moralista: "Você vai sair desta. Você é forte. Não é agora que você vai nos decepcionar". (Continuo na semana que vem).



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 20:00
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