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Coluna de Amador Ribeiro Neto Imprimir E-mail
04 de março de 2008

Sobre os escombros das torres gêmeas

O 11 de setembro rendeu, rende e ainda renderá muita coisa sobre ele. A queda espetacular das torres gêmeas continua viva em nossa memória. Por um momento o mundo se vingou do despotismo norte-americano. Não importa quem as derrubava. Elas desabavam. Isto é o que importa(va). Pedro Osmar e Ronaldo Monte escreveram "World Trade Center" (Monte Editor, 2004) a quatro mãos. São minipoemas, variando de 2 a 6 versos. Tudo muito lacônico. Como se as palavras também tivessem de conviver com os escombros dos dois edifícios-símbolo do capitalismo norte-americano. Tudo muito condensado. Como o amálgama de ferros, concretos, corpos. Tudo muito poético. Como é poético o rude, o medonho, o trágico.

Pedro Osmar escreveu sua parte em Santo André-SP e Ronaldo Monte em João Pessoa. Os poemas são de um a provocação e de outro a réplica. Tudo denso. Compacto. Crítico. Como é a vida nos momentos de desolação e dor.

O resultado desta conversa a dois é um pequeno grande livro. Instigante. Engajado. Provocador.

Imagens-relâmpago piscando no horizonte dos versos. As palavras são pedras no caminho da carne, são sinos reverberando ao (e o) pó. Pedro: "Pedras de palavras / Comendo-se carne / E sinos batendo-se / Ao pó". Ronaldo toma a pedra e a lança num contexto de nova criação: sons e sins e sinos dos irmãos de carne: "Pedrojaguaribe. / Bate-sinos-Ró".

Pedro ataca de Guernica: "Torres-touros / Como baladas / Torres gêmeas / Em sua comédia-circo". Ronaldo contrarresponde com a inocência face ao fanatismo: "Algodão-doce / Fumegando / Em direção ao céu. / Presente de Abraão / Ao Deus que se esqueceu / Do anjo".

O pó resulta da desconstrução das torres. Os prédios no chão. O pó em direção ao alto. Jogo estranho de um American way desconjuntado. O pó sobe para depois descer. Refaz o percurso simbólico do jogo americano: império em declínio. Pedro: "Vida dos jogos de poder / Marretal / Total e completamente rock / Tabuleiro pop / Que de um lado está ninguém / E do outro / O pó que aos céus". Ronaldo: "De um lado nada. / Do outro o pó. / O nada vence / E joga o pó ao chão". De tudo fica um pouco, pontua Drummond.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:33
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