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Quebra-Quilos: história e ficção
Está em cartaz apenas nestes sábado e domingo às 20h no teatro Piollin a peça "Quebra-Quilos", escrita e dirigida por Márcio Marciano. O espetáculo tem no elenco Daniel Araújo, Daniel Porpino, Roberta Alves, Sebastião Formiga, Sóia Lira, Verônica de Sousa e Zezita Matos. Merece toda a atenção pelo acerto da direção, pela qualidade de cada um dos atores e pela unidade que a obra encerra. Com esta peça nasce o "Coletivo de Teatro Alfenim" que esperamos tenha vida longa. A julgar pelo espetáculo de estréia muita coisa boa pode estar a caminho.
O título da peça faz referência à revolta dos "quebra-quilos". Nela nordestinos, mais especificamente paraibanos, em 1874, se levantam contra as determinações do Império. Não querem que as medidas populares como a onça, a mão, a braça, o palmo, a légua, etc., sejam substituídas pelo metro, quilo e litro.
Ainda que Vargas Llosa tenha se valido desta revolta para explicar a repulsa que os integrantes do Fórum Social de Porto Alegre manifestaram pela Globalização, este fato histórico continua pouco conhecido por nós brasileiros.
Também por isto a peça merece atenção. Márcio Marciano sabe valer-se do motivo histórico sem cair nas facilidades do didatismo textual. Ou da adesão apaixonada e panfletária pelo tema. Na peça o foco dramático interage com o histórico e o pessoal. A complexidade das relações humanas é vista pelo viés do amor e ódio. Adesão e negação. Condescendência e irredutibilidade. Compreensão e desrazão. Música, humor. Frases de grande expressividade reflexivo-poética mantêm o espectador ligado na peça.
Do público é exigida tanto a reflexão analítica como a receptividade poética. Destaco três cenas muito bem realizadas. Um: a do circo, com realce para a meninice ingênua da malabarista vivida por Sóia. E para a vigilância tensa de sua mãe, interpretada magistralmente por Zezita Matos. Dois: a da feira: cantorias, vozerios, zuadas entrecortam-se por silêncios repentinos, retornam. Vale destacar que em ambas as cenas todo o elenco participa. Em uníssono. Três: a dos dois soldados montando guarda sob a iminência do ataque dos revoltosos. Estresse e humor alternam-se. Merece também distinção o desempenho sempre admirável de Daniel Araújo, um dos nossos atores dos mais completos. Roberta Alves como a(s) negra(s) é segura, exata, incisiva. Enfim, um espetáculo obrigatório |