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Versos que nos pegam em cheio
Há versos que nos pegam em cheio. Sejam de poemas ou de canções. Manuel Bandeira elegeu como um dos versos mais belos da Língua Portuguesa aquele de Orestes Barbosa em "Chão de estrelas": "Tu pisavas nos astros distraída".
Você pode concordar ou não com Bandeira, mas é importante atentar para o fato de que esta canção data de 1937. E hoje, setenta e um anos depois, ainda tem gente torcendo o nariz para a riqueza estética inquestionável da nossa música popular.
Bem fez Manuel da Costa Pinto ao inserir em seu livro "Literatura brasileira hoje" (S. Paulo: PubliFolha) o nome de Caetano Veloso lado a lado com o dos poetas mais representativos das últimas cinco décadas.
Agora literatura. Antes de apresentar o verso digo: está na tradução que Augusto de Campos fez do Canto I do "Inferno" da "Divina Comédia" de Dante Alighieri. A situação é a seguinte: o eu-lírico está exausto, como o náufrago recém salvo, e vê à sua frente as portas do inferno, jamais transpostas por um homem vivo. Ele, atrevidamente, começa a andar num "plano deserto".
É aqui que o verso me pegou. O eu-lírico está exaurido, exangue. Não obstante tem de enfrentar o Inferno. A angústia enche-lhe o "lago do peito". Anda como se estivesse nas areias de um deserto. E surge o verso: "pé firme embaixo, mas incerto o passo".
A imagem é de algo preciso e exato: o movimento físico dos pés no ato de subir e descer sobre e sob as areias. O andar cambeta, mancho, coxo. Firme em baixo: ou seja, quando afunda. Não obstante, é "incerto o passo", já que a areia não permite movimentos seguros.
Assim, há uma base firme, que podemos entender como o desejo de adentrar o Inferno, mas há também a inexatidão do passo inseguro, do escuro que há à frente.
A descrição magistral de um andar desnivelado metaforiza o desejo e a repulsa presentes nos gestos do homem, da humanidade.
Este verso ilumina o caminho do homem sobre a terra. A própria história da humanidade movida a impulsos de vida e morte. Tentativas de acerto e erro. Talvez a vida não seja de modo algum. Ou como nas palavras de Estobeu, que Montaigne mandou escrever nas paredes de sua biblioteca: "Não é desse modo nem daquele, nem de nenhum dos dois". A vida alçada como eterna pergunta: como? pra quê? por quê? Até quando? |