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O paciente do transtorno bipolar (1)
Chico Buarque numa das mais conhecidas canções: "E a cidade toda se enfeitou /pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / (...) Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou / E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor".
O portador do transtorno bipolar vive a festa e o velório. Muitas vezes em fração de segundos. Exaure-se na profusão de sentimentos, sensações e pensamentos incontroláveis. Oscila entre a euforia e a depressão. É festa da banda passando e a dor depois que a banda se foi. Seu humor é ácido ou doce. Une ou dissocia. Pra cima ou pra baixo.
Não precisa haver motivo para o paciente bipolar estar bem: ele simplesmente vibra, fala sem parar, canta, entusiasma os amigos do trabalho ou da mesa do bar. Tem um humor admirável e sedutor. Mas entra em depressão. Não precisa haver motivo para ele deprimir-se: ele se isola, evita compromissos sociais, fica taciturno. Coisas triviais como escovar dentes, pentear cabelos e tomar banho tornam-se insuportáveis.
Na euforia ele é o dono de qualquer situação que se apresente. É desinibido, sabe contar ótimas piadas, tem o senso de humor à flor da pele. Mas depois que todos vão embora e ele fica só, vem a sensação insuportável de um imenso vazio. Ele teme ficar só. Se não há jeito, liga a televisão, liga o aparelho de som, liga o computador. Em vão: nada o consola. Não suporta estar sozinho. Precisa de palco e público para exibir-se.
Na depressão os compromissos cotidianos tornam-se insuportáveis. Pagar contas no banco, tomar o ônibus, ir pro trabalho, cumprimentar o porteiro do prédio, dar uma aula, escrever uma linha. O mundo fica inviabilizado. Ele prefere ficar no escuro. E só. Se o telefone toca, se chega o jornal ou a revista que assina, tudo soa demasiado, estressante, exaustivo. Não raro prefere morrer. Drummond diz num poema: "Alguns, achando bárbaro o espetáculo, / prefeririam (os delicados) morrer". O poeta destaca os delicados como se os protegesse entre parênteses. Na verdade ele os destaca com os parênteses. E tece uma fina ironia sobre aqueles que, diante da vida, "acham bárbaro o espetáculo". Talvez Drummond ignorasse a psiquiatria e a psicanálise na sua fase engajada na década de 40.
Para o paciente bipolar a vivência dos pólos da euforia e da depressão é contínua. Seu humor pode oscilar em fração de segundos. Mas pode também permanecer por meses num estágio só. A solução não está no conselho moral e/ou moralista: "Você vai sair desta. Você é forte. Não é agora que você vai nos decepcionar". (Continuo na semana que vem). |