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01 de abril de 2008

O paciente do transtorno bipolar (1)

Chico Buarque numa das mais conhecidas canções: "E a cidade toda se enfeitou /pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / (...) Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou / E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor".

O portador do transtorno bipolar vive a festa e o velório. Muitas vezes em fração de segundos. Exaure-se na profusão de sentimentos, sensações e pensamentos incontroláveis. Oscila entre a euforia e a depressão. É festa da banda passando e a dor depois que a banda se foi. Seu humor é ácido ou doce. Une ou dissocia. Pra cima ou pra baixo.

Não precisa haver motivo para o paciente bipolar estar bem: ele simplesmente vibra, fala sem parar, canta, entusiasma os amigos do trabalho ou da mesa do bar. Tem um humor admirável e sedutor. Mas entra em depressão. Não precisa haver motivo para ele deprimir-se: ele se isola, evita compromissos sociais, fica taciturno. Coisas triviais como escovar dentes, pentear cabelos e tomar banho tornam-se insuportáveis.

Na euforia ele é o dono de qualquer situação que se apresente. É desinibido, sabe contar ótimas piadas, tem o senso de humor à flor da pele. Mas depois que todos vão embora e ele fica só, vem a sensação insuportável de um imenso vazio. Ele teme ficar só. Se não há jeito, liga a televisão, liga o aparelho de som, liga o computador. Em vão: nada o consola. Não suporta estar sozinho. Precisa de palco e público para exibir-se.

Na depressão os compromissos cotidianos tornam-se insuportáveis. Pagar contas no banco, tomar o ônibus, ir pro trabalho, cumprimentar o porteiro do prédio, dar uma aula, escrever uma linha. O mundo fica inviabilizado. Ele prefere ficar no escuro. E só. Se o telefone toca, se chega o jornal ou a revista que assina, tudo soa demasiado, estressante, exaustivo. Não raro prefere morrer. Drummond diz num poema: "Alguns, achando bárbaro o espetáculo, / prefeririam (os delicados) morrer". O poeta destaca os delicados como se os protegesse entre parênteses. Na verdade ele os destaca com os parênteses. E tece uma fina ironia sobre aqueles que, diante da vida, "acham bárbaro o espetáculo". Talvez Drummond ignorasse a psiquiatria e a psicanálise na sua fase engajada na década de 40.

Para o paciente bipolar a vivência dos pólos da euforia e da depressão é contínua. Seu humor pode oscilar em fração de segundos. Mas pode também permanecer por meses num estágio só. A solução não está no conselho moral e/ou moralista: "Você vai sair desta. Você é forte. Não é agora que você vai nos decepcionar". (Continuo na semana que vem).



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 20:00
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08 de abril de 2008

O paciente do transtorno bipolar (2)

Fernando Pessoa, em seu heterônimo Álvaro de Campos, deixou-nos um legado poético dos mais sólidos e resistentes ao tempo estético e existencial. Homem marcado pelas sensações antitéticas e paradoxais que a cidade grande e a modernidade impingem em seus habitantes, este heterônimo carrega em si os pólos do transtorno bipolar.

Num momento a saudação eufórica a Whitman: "De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro / Saúdo-te, Walt, saúdo-te meu irmão em Universo". A seguir a constatação depressiva: "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada". É interessante que, no verso seguinte à autodepreciação ele proclame: "À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

Esta mescla de sentimentos, sensações e pensamentos oscilantes levam o paciente à exaustão física e psicológica. Tudo é tudo e tudo é nada. Os ritmos biológicos essenciais sofrem alterações: é o sono exagerado ou é a insônia. O apetite some ou multiplica-se. O indivíduo é tomado por uma agitação louca. Ou por uma lentidão avassaladora.

Assim, o poder de concentração intelectual atinge o grau zero de qualidade. A memória falha mesmo com fatos triviais recentíssimos. Em uma conversa muito comumente ele perde o fio da meada. Inutilmente tenta memorizar piadas, músicas, poemas. Para ele tudo parece começar do nada. E acabar no nada. O pessimismo marca a vida do bipolar na fase depressiva, bem como a perda do prazer. Na fase eufórica o otimismo é exagerado. Se o leitor lembrou-se agora de Cazuza, acertou: ele era um bipolar típico. Assim como muitos dos artistas. A irritabilidade e a ansiedade são outros sintomas clássicos. O paciente isola e se sente incomodado com a presença do outro. Mesmo em depressão as palavras de consolo são-lhe motivação para a mais alta irritabilidade.

Isto sem considerarmos que, sem a medicação psiquiátrica, o bipolar corre sérios riscos de vida. Ele pensa continuamente na morte. O índice de suicido entre estes pacientes é alto. Nada irrita mais o bipolar que as palavras de consolo moral, as dicas de auto-estima, as citações religiosas. Este procedimento só aumenta sua culpa. E ele se sente ainda menor.

O cotidiano e seus afazeres corriqueiros são um peso para ele. O mesmo Álvaro de Campos diz: "Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo". Por ser uma doença bio-psico-social crônica, o transtorno bipolar pede tratamento ininterrupto. Isto é essencial.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:58
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