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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:50
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Jornal A União

capa do livro de glauco mattoso sobre poesia marginal

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29 de abril de 2008

A dedicatória de Chacal (1)

Tive a felicidade de participar de uma mesa redonda no FENART discutindo a atualidade da Poesia Marginal. Chacal foi o palestrante. Falou da geração mimeógrafo e "offset". Discorreu sobre a espontaneidade desta poesia. Falou do processo de composição gráfica e temática de seus livros. Lembrou os tempos de "fumar unzinho" e aplicar um ácido. Discorreu sobre a geração desbunde. Tanto na poesia como na contracultura. Chacal foi simpático. Ou como me disse o Linaldo Guedes: "Chacal é um doce".

Tudo correu livre, leve e solto. Até que li seis páginas de um texto que questionava a existência da Poesia Marginal enquanto "poesia". Chacal respondeu que a Poesia Marginal inexistia há 30 anos. Não retruquei. Eu não estava pondo em discussão a existência da obra dos "poetas" marginais. Aí está, reeditada, a obra de Cacaso, Nicolas Beher e do próprio Chacal. Pode até parecer, mas não sou louco. Nem louco varrido. Não questionei a materialidade da "obra" "poética" produzida na década de 70. Tanto que em meus cursos de Teoria da Poesia, na UFPB, trabalhei a Poesia Marginal.

Mas aprendi com velho amigo judeu um provérbio, se não me falha a memória, judaico que diz mais ou menos assim: se um cavalo te dá um coice, você não vai dar um coice nele. Você segue seu caminho. Mas se um cara te dá um tapa você retruca com um soco. Penso que me faço entender.

Apoiei-me em Glauco Mattoso e em Carlos Alberto Messeder Pereira, que publicaram livros sobre a Poesia Marginal, para dizer que não existe um movimento desta poesia. O que há são "poetas" dispersos usando tanto a precariedade de impressão como uma maior precariedade: a estética. E aí lancei meu questionamento: se a Poesia Marginal é poesia, por que as análises que fazem dela são antropológicas, sociológicas, históricas e o escambau? Tudo, menos análise poética. Me interessa saber onde está a Poesia da Poesia Marginal. Este grupo de "poetas" fazia (e pelo jeito ainda faz) questão de declarar desconhecimento da tradição da poesia – tanto brasileira como internacional. E assim repetem procedimentos vencidos esteticamente. Pior: pensam que fazem o novo.

Poesia é linguagem. Ou seja, poesia pertence ao domínio da Estética. Citei Antonio Candido ao explicitar que faz-se crítica literária com os elementos intrínsecos da obra. Já sociologia da literatura faz-se privilegiando os fatores extrínsecos da obra. Nada disto foi levado em conta no debate. Nem por Chacal, nem pelos presentes.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:42
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Jornal A União

chacal

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Coluna de Amador Ribeiro Neto Imprimir E-mail
06 de maio de 2008

A dedicatória de Chacal (2)

Até no "youtube" a mesa-redonda com Chacal foi parar. Numa homenagem a Lau Siqueira (em tempo: grande poeta!) minha fala questionando a existência estética da poesia marginal aparece citada como datada, sem propósito. O ator em cena faz um muxoxo diante de minha indagação. Era a citação de um texto de Lau em seu blog. Texto que o próprio Lau reviu depois. E pôde explicar melhor.

Não sou o porta-voz de uma universidade caduca, fossilizada no berço esplêndido do cânone, como Chacal insinuou. Todos que me conhecem sabem que sou um "scholar", naquilo que este termo encerra de pesquisador, estudioso e aplicado intelectualmente. Mesmo porque sou um dos mais antiacadêmicos da universidade. Aqueles que foram ou são meus alunos, e aqueles que me lêem, sabem disto. É falso contrapor a universidade à rua. Como se uma das duas estivesse com a razão. E a razão fosse excludente. Bobagem.

E mais: minha fala não foi censora, como afirmou Chacal. Credito esta palavra ao desespero da hora, na busca argumentativa do vale-tudo pró-Poesia Marginal. Afinal ele e eu fomos vítimas da ditadura militar. No meu caso, fui perseguido tanto por policiais e dedo-duros em passeatas como por telefonemas anônimos ameaçando a vida de minha filha recém-nascida. Ele e eu vivemos a ditadura dos anos 70 até meados de 80. Sabemos quão aterrorizante ela foi. Por isto a palavra censura é em absoluto infeliz. Além de um destempero. Credito à pane que acometeu Chacal ante meus argumentos embasados.

A Poesia Marginal se diz influenciada pelo Modernismo e pelo Tropicalismo. Dois movimentos marcadamente expressivos e inventores de linguagens. Mas a vinculação com o primeiro não passa do uso diluído do humor e da oralidade. Com o Tropicalismo se deu o mesmo. Do revolucionário movimento que desestruturou para sempre os limites entre popular e erudito, bom e mau gosto, doméstico e internacional, a Poesia Marginal ficou com o desbunde. A porra-louquice. Pena. Porque os tropicalistas souberam usar tanto a Poesia Concreta como o genuíno Oswald. Tanto a bandinha de coreto como Stravinsky.

O próprio Chacal, ao falar de sua formação intelectual, declarou em 1977: "Eu lia pouco, muitos contos de fada, Monteiro Lobato". Claro que isto vai repercutir na "poesia" dele. Depois de três horas e cinco minutos de mesa-redonda ele, gentilmente, me presenteou com um exemplar da revista "O carioca" com a taxativa dedicatória: "Ao professor Amador, por seu rigor necessário, pela sua sinceridade. Abraços. Chacal. 21.4.2008".



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:37
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