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A dedicatória de Chacal (2)
Até no "youtube" a mesa-redonda com Chacal foi parar. Numa homenagem a Lau Siqueira (em tempo: grande poeta!) minha fala questionando a existência estética da poesia marginal aparece citada como datada, sem propósito. O ator em cena faz um muxoxo diante de minha indagação. Era a citação de um texto de Lau em seu blog. Texto que o próprio Lau reviu depois. E pôde explicar melhor.
Não sou o porta-voz de uma universidade caduca, fossilizada no berço esplêndido do cânone, como Chacal insinuou. Todos que me conhecem sabem que sou um "scholar", naquilo que este termo encerra de pesquisador, estudioso e aplicado intelectualmente. Mesmo porque sou um dos mais antiacadêmicos da universidade. Aqueles que foram ou são meus alunos, e aqueles que me lêem, sabem disto. É falso contrapor a universidade à rua. Como se uma das duas estivesse com a razão. E a razão fosse excludente. Bobagem.
E mais: minha fala não foi censora, como afirmou Chacal. Credito esta palavra ao desespero da hora, na busca argumentativa do vale-tudo pró-Poesia Marginal. Afinal ele e eu fomos vítimas da ditadura militar. No meu caso, fui perseguido tanto por policiais e dedo-duros em passeatas como por telefonemas anônimos ameaçando a vida de minha filha recém-nascida. Ele e eu vivemos a ditadura dos anos 70 até meados de 80. Sabemos quão aterrorizante ela foi. Por isto a palavra censura é em absoluto infeliz. Além de um destempero. Credito à pane que acometeu Chacal ante meus argumentos embasados.
A Poesia Marginal se diz influenciada pelo Modernismo e pelo Tropicalismo. Dois movimentos marcadamente expressivos e inventores de linguagens. Mas a vinculação com o primeiro não passa do uso diluído do humor e da oralidade. Com o Tropicalismo se deu o mesmo. Do revolucionário movimento que desestruturou para sempre os limites entre popular e erudito, bom e mau gosto, doméstico e internacional, a Poesia Marginal ficou com o desbunde. A porra-louquice. Pena. Porque os tropicalistas souberam usar tanto a Poesia Concreta como o genuíno Oswald. Tanto a bandinha de coreto como Stravinsky.
O próprio Chacal, ao falar de sua formação intelectual, declarou em 1977: "Eu lia pouco, muitos contos de fada, Monteiro Lobato". Claro que isto vai repercutir na "poesia" dele. Depois de três horas e cinco minutos de mesa-redonda ele, gentilmente, me presenteou com um exemplar da revista "O carioca" com a taxativa dedicatória: "Ao professor Amador, por seu rigor necessário, pela sua sinceridade. Abraços. Chacal. 21.4.2008". |