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Jornal A União

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Coluna de Amador Ribeiro Neto Imprimir E-mail
20 de maio de 2008

O show da Madonna

Na minha infância e adolescência no interior de S. Paulo eu freqüentava as missas da igreja católica. Depois, desde a juventude, nunca mais. Nos últimos dias, por conta do falecimento do pai de duas amigas, fui à missa de sétimo dia. Quer dizer, missa de sétimo dia pra mim e pra minhas amigas. Porque tinha "intenção" de tudo. Incluam-se neste tudo: aniversários natalícios, aniversário de 50 anos de casados, ação de graças pela formatura, aniversário de morte desde um mês a 15 anos. Passando pelo de sétimo dia, "of course".

Até aí tudo bem. Os tempos são pós-modernos e pode tudo ao mesmo tempo agora. Tempos titânicos, como bem disse o Daniel Sampaio em sua coluna de estréia aqui. Mas realizar micareta dentro desta missa plurissêmica, pode? É! A missa é um carnaval fora de época. E pelo que entendi em conversas com devotos é assim o ano todo. Até no carnaval! Beleza pura. Odara. Maravilha. Mara! Só falta o trio elétrico, já que os cordeiros estão ali.

O padre ciceroneava a corda, digo o cordão carnavalesco, assessorado por paquitos e paquitas devidamente paramentados. Os paramentos tinham o mesmo corte dos abadás. O som era de primeira, com uma percussão fortíssima. Ao final da missa fui checar com uma amiga atéia, que comparecera por solidariedade à nossa amiga: aquele batuque não é ponto de umbanda? É! Agora é a vez de a igreja católica fazer o sincretismo religioso.

No meio da missa, esculacho dos esculachos: houve um esquete arrastado por dois casais bem-intencionados. Caramba: até os católicos se esqueceram de que de boas intenções o inferno está cheio? Ou já se associaram ao diabinho, antes tão temido? Foi um vexame sem graça. Talvez por isto uma das moças (pretensamente atriz) bocejou em cena. Digo, em frente ao altar. Imagine eu ali, mais perdido que cego em tiroteio no Rio.

Depois do teatrinho o padre puxou uma música. Com coreografia. Mãozinhas e mãozonas pro alto. Da direita pra esquerda. Da esquerda pra direita. Me vem à lembrança, não sei por que gratuidade, um show de Zezé de Camargo e Luciano. Faltava apenas ao padre o corpinho de Zezé. A coreografia era bem sertaneja-de-plástico. "É o amor".

De quando em quando o padre inventava uma salva de palmas – e eu me sentindo num programa de auditório. Uma gracinha!, diria a Hebe Camargo. Mas tem mais: de repente o padre começa a esguichar água nos presentes. Não eram gotículas de água benta. Eram jatos de açudes sangrando. Nos tempos do Chacrinha era bacalhau que o animador jogava na platéia. Mais palatável. Foi me dando um faniquito. Caí fora. Prefiro o show da Madonna!



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 17:16
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