68 em 3 questões
Amador Ribeiro Neto
Em entrevista recente ao Jornal da Paraíba, Astier Basílio me fez 3 perguntas-provocações. Dadas as limitações do jornal, ele teve de condensar as respostas. O texto final ficou muito bom, mas me deu vontade de expor a íntegra desta minientrevista. É o que segue.
1- O Mangue Beat e o Tropicalismo refletem, na sua opinão, alguns princípios do manifesto?
Caetano, em 68, numa célebre entrevista a Augusto de Campos, declarou que o Tropicalismo era um Neoantropofagismo. O Manguebeat bebeu fartamente nas águas do Tropicalismo. Logo, os 2 pagam tributo ao manifesto oswaldiano. Esta prática de comer o que vem de fora (o rock, o punk, a pop art, Stravinski, Cage, pintura Expressionista, etc.) somada ao que temos (o samba, o samba de roda, a ciranda, o maracatu, o brega, o kitsch, o erudito, o popular), tudo digerido e devolvido como produto novo foi o Tropicalismo e foi o Manguebeat. A base é a irreverência do Manifesto Antropofágico que digeria tudo o "que não é meu" e devolve tudo "novo", como produto "nosso".
Esta abertura pré-pós-modernismo de Oswald é a grande sacada da arte modernista e contemporânea em terra brasilis.
2- Na música brasileira, de que maneira o manifesto antropofágico serviu de influência ou base para alguns artistas?
Na deglutição de tudo o que vinha de fora e era transformado em "coisa nossa", como diria o Noel. Noel valorizou as coisas do Brasil e fez delas matéria para seus sambas. O Tropicalismo pegou Noel, associou-o a Carmen Miranda, ao rock emergente, aos ruídos incorporados como música, depois de Cage, entrou nos terreiros de umbanda e candomblé, nos sambas de roda da Bahia, namorou o iê-iê-iê da Jovem Guarda, misturou o cimena de Eisenstein a canções como "Domingo no parque", o cinema de Godard a "Alegria Alegria", foi dirigido pela batuta crítico-criativa de Rogério Duprat e Damiano Cozzella e fez uma festa no palco e no circo de nossa música popular. Sem o Manifesto não teríamos, além do Tropicalismo e do Manguebeat, o samba-rap de Marcelo D2, o samba irreverente e inusitado de Max de Castro e Otto, ou de Mundo Livre S/A, ou dos geniais Los Hermanos, entre tantos.
3- Onde podemos encontrar, em artistas da música brasileira, elementos que dialoguem com a antropofagia?
Chico César é uma feliz cria caetânica em todos os aspectos: da Antropofagia à incorporação de recursos da Poesia Concreta. Otto nasceu em meio ao Manguebeat, e agora tem uma levada própria, que se inova a cada novo cedê. Este músico camaleônico não faz a própria cama com nada. Nem com o que lhe garante sucesso, como "Samba pra burro", o primeiro cedê solo. Zeca Baleiro é tão antropofágico que já se vestiu de tropicalista na capa do cedê "Vô imbolá". Os três de "+ 2" comem no prato tropicalista com apetite dos glutões: Moreno +2; Kassin +2, Domenico +2. Seus cedês mesclam um rol de sons que só o Karnak e Os Mulheres Negras tinham conseguido antes. Mutantes e Secos e Molhados são figurinhas carimbadas nesta relação. Eles são nomes sagrados na arte da profanação. Isto na música.
Nas artes plásticas, Beatriz Milhazes é toda oswaldiana nas formas, nas cores e nas dimensões de seus trabalhos. Ela acaba de consagrar-se como o primeiro artista brasileiro a conseguir mais de 1 milhão de dólares por um só trabalho. Além dela, a pintura a la grafitagem de José Roberto Aguilar é antropofágica. Aguilar e a Banda Performática atuam tanto na música como nas artes plásticas. Suas apresentações mesclam música e pintura de teças ap vivo. Mais tropicalista que isto pra quê?
Na moda, o estilista Alexandre Hercovitz faz seus modelos vestirem a antropogafia, da roupa às poses. Joãozinho Trinta dos carnavais canibais no Sambódromo. A pintura/instalação de Antônio Dias, os parangolés de Hélio Oiticica - retomados por Adriana Calcanhoto. As esculturas móbiles de Lygia Clarck. As instalações inusitadas de Nuno Ramos. O jogo trans-histórico da memória, de individual a coletiva, por José Rufino. O cinema desconcertamente apaixonante de Júlio Bressane. A poesia de Carlos Ávila, Valdo Motta e Arnaldo Antunes - este último possui carteirinha carimbada pelo chefe-mor da Antropofagia. As prosas desestabilizadoras de Jair Ferreira dos Santos e de Evandro Affonso Ferreira: marcas da Antropofagia oswaldiana. E por aí afora. Enfim: o Manifesto Antropofágico está para a arte brasileira tal como o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, está para o socialismo universal. Com a ressalva que o socialismo está em crise. E a arte brasileira vive um dos momentos mais ricos e profícuos.
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 09:34
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