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O "livrobjeto" de Ronald Polito
Há muito tempo o livro deixou de ser apenas aquele volume encadernado. Através dos tempos o livro tem passado por várias mutações. Mas a partir da década de 60, em especial, o livro tem se transformado em objetos ora interessantes, ora curiosos, e na maioria das vezes em algo artístico, provocativo e lúdico.
O livro de Ronald Polito se chama "Objeto", o que confere, desde o título, forte materialidade à poesia nele contida. São pranchas dobradas, círculos transparentes, minicartões, um quase-convite, etc. Numa prancha dura de papel reciclado lê-se a palavra problema em português, inglês e francês. No caso, ao jogar com o itálico, o poeta induz a leitura de que seja em que língua for, a poesia encara o problema de comunicação e de linguagem. A escolha destas 3 línguas coincide com as mesmas que Augusto de Campos usou, na década de 60, quando fez "cidade". É evidente a interação dos poemas entre si, interrrelacionando mundos, afinal, afins.
A fina e cortante ironia está num cartão que diz "a repetição é incrível" e logo abaixo as aspas que indicam repetição. Melhor: há 2 cartões iguais a este. De fato estamos dentro da pós-modernidade e tudo está dito. Um cartão dobrado traz na frente a palavra "gata". Ao ser aberto, os dois "as" convertem-se em dois grandes olhos verdes informatizados: @. @ . Rascante irrisão em tempos do Deus Digital.
Um cartão todo negro traz prensada a palavra "light". Ao abri-lo há uma minúscula incisão no centro. Vendo e lendo o cartão com mais cuidado parece que há uma coincidência entre o pingo de "light" e o furo da página seguinte. A luz e o apagão: dois irmãos do "chiaroscuro"? Barroco revisitado pelo neobarroco? O poema "A mágica de AZ" é a construção de nosso alfabeto numa simetria perfeita, desde que excluídos o "A" e o "Z". Ou seja, a linguagem da poesia não tem lugar. Seu lugar é o não-lugar. Este poema dialoga com o "Che" de Joan Brossa no qual o poeta catalão apaga as 3 letras de "Che" do alfabeto. (In)comunicação poética ou poético-engagée, a verdade é que o poema visual é feito (aqui) com palavras.
Um cartão bordô traz os dois pontos de exclamação da língua hispânica. Nenhuma palavra entre eles. Contemplação do absoluto. Com o auxílio da caligrafia que risca/desenha os sinais. Condensação total: aqui, poesia visual sem palavras. "Objeto": "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" diz o Livro do Conselho. Ler/ver/jogar. |