barrocidade


Jornal A União

Destaque

Coluna de Amador Ribeiro Neto Imprimir E-mail
22 de julho de 2008

Poesia pra crianças

Escrever para crianças não é tarefa fácil. Os erros e enganos proliferam à mancheia. Ora o tom moralista, como se todo livro de criança tivesse de "dar uma lição". Ora a linguagem falsamente coloquial, traída pelos termos mais esdrúxulos. Ora o projeto bem-intencionado de apenas entreter, mas que acaba menosprezando a inteligência e a sensibilidade da criança.

Mário Alex Rosa escreveu um livro de poemas para crianças que é bem-humorado, divertido e, acima de tudo, poético. Um livro poético pra crianças: isto é notável! Beatriz Mom ilustrou com as mesmas qualidades do autor: seus desenhos não espelham o texto. Antes: comentam-no com a propriedade ambígua da poesia.

"ABC Futebol Clube" é ainda uma obra feita com grandes cuidados gráficos: do tipo do papel usado à reprodução das cores, sem contar as duas páginas centrais, convertidas em quatro, abrindo-se como um campo de futebol se entrega aos seus torcedores. E é dada a partida: "Atenção, atenção / foi dada a formação do abc: / a escalação tem ares de ataque: (...)". E por aí segue o jogo de futebol e o jogo com as letras do alfabeto e as palavras por elas formadas. É um festival de cores, sons, movimentos.

O poema "Alice" faz um jogo de espelhamentos que pega o leitor do começo ao fim. Cito um fragmento: "Ela só parecia / desaparecer de aparecer. // Ela só sabia de saber / o contrário do fazer.// Alice pra brincar mais do que podia / coloriu a noite de dia. // Alice foi ao mundo das maravilhas / e trouxe um livro. // O que se abriu / foi um mundo de magias. // Alice descobriu nas páginas / como é bom viver na poesia".

Esta brincadeira de dizer às avessas, de inventar o inusitado, de rimar em dístico, e a "descoberta" final de Alice face à poesia, deleita o leitor de cinco a 95 anos. Todos adentram no mundo mágico da poesia de Mário que tem um toque de Bandeira, outro de José Paulo Paes e uma pitada (bem chiste) de Paulo Leminski.

Tudo dito com a leveza de conhecimentos que têm até um toque "científico", lembrando o bandeiriano "Poema tirado de uma notícia de jornal". Vejamos "Poema desentranhado da natureza": "o peixe nasce nadando / o pássaro nasce quase voando / a água é dos peixes / como o céus é dos pássaros / e a terra dos homens / que não nascem andando". Tem também um toque de Castro Alves revisitado por Caetano. Beleza! (Esta coluna é dedicada à Nara Limeira, incentivadora número um dos pequeninos leitores).



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Jornal A União

 

Ronald Polito

Destaque

Coluna de Amador Ribeiro Neto Imprimir E-mail
15 de julho de 2008

O "livrobjeto" de Ronald Polito

Há muito tempo o livro deixou de ser apenas aquele volume encadernado. Através dos tempos o livro tem passado por várias mutações. Mas a partir da década de 60, em especial, o livro tem se transformado em objetos ora interessantes, ora curiosos, e na maioria das vezes em algo artístico, provocativo e lúdico.

O livro de Ronald Polito se chama "Objeto", o que confere, desde o título, forte materialidade à poesia nele contida. São pranchas dobradas, círculos transparentes, minicartões, um quase-convite, etc. Numa prancha dura de papel reciclado lê-se a palavra problema em português, inglês e francês. No caso, ao jogar com o itálico, o poeta induz a leitura de que seja em que língua for, a poesia encara o problema de comunicação e de linguagem. A escolha destas 3 línguas coincide com as mesmas que Augusto de Campos usou, na década de 60, quando fez "cidade". É evidente a interação dos poemas entre si, interrrelacionando mundos, afinal, afins.

A fina e cortante ironia está num cartão que diz "a repetição é incrível" e logo abaixo as aspas que indicam repetição. Melhor: há 2 cartões iguais a este. De fato estamos dentro da pós-modernidade e tudo está dito. Um cartão dobrado traz na frente a palavra "gata". Ao ser aberto, os dois "as" convertem-se em dois grandes olhos verdes informatizados: @. @ . Rascante irrisão em tempos do Deus Digital.

Um cartão todo negro traz prensada a palavra "light". Ao abri-lo há uma minúscula incisão no centro. Vendo e lendo o cartão com mais cuidado parece que há uma coincidência entre o pingo de "light" e o furo da página seguinte. A luz e o apagão: dois irmãos do "chiaroscuro"? Barroco revisitado pelo neobarroco? O poema "A mágica de AZ" é a construção de nosso alfabeto numa simetria perfeita, desde que excluídos o "A" e o "Z". Ou seja, a linguagem da poesia não tem lugar. Seu lugar é o não-lugar. Este poema dialoga com o "Che" de Joan Brossa no qual o poeta catalão apaga as 3 letras de "Che" do alfabeto. (In)comunicação poética ou poético-engagée, a verdade é que o poema visual é feito (aqui) com palavras.

Um cartão bordô traz os dois pontos de exclamação da língua hispânica. Nenhuma palavra entre eles. Contemplação do absoluto. Com o auxílio da caligrafia que risca/desenha os sinais. Condensação total: aqui, poesia visual sem palavras. "Objeto": "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" diz o Livro do Conselho. Ler/ver/jogar.



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:07
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, Homem
Histórico
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog



O que é isto?