Cristina Buarque é uma grande sambista, dona de uma voz singular, daquelas bem do morro, ao estilo de dona Zica e das pastoras da Portela. Mas é tão singular que só posso compará-la a Clementina de Jesus. As duas são completamente diferentes. Mas, na diferença, cada uma é uma grande e particularíssima intérprete.
Clementina tem a voz dos negros, cantando desde a África. É uma deusa do samba. Mas poderia ter sido uma deusa do blues. Ou do jazz. Ela canta e o mundo silencia ao redor. Estático. Extático.
Cristina Buarque tem a mesma, como diria Noel Rosa, "massa de sangue". É uma voz que cala fundo no coração da gente. Ela canta e os pelos de nosso braço crispam-se. O coração pulsa em disritmia, todo samba, da sístole à diástole. A voz fica embargada. Dá vontade de gritar pro mundo inteiro ouvir. Dá vontade de proclamar: "Esta mulher, esta voz, santos deuses, atentem para isto. Parem a vida e venham ouvi-la! Não há nada melhor a se fazer a não ser ouvi-la sem cessar. Pra sempre, Cristina!".
Ela gravou dois discos somente com músicas do Noel Rosa: "Sem tostão... a crise não é boato..", junto do cavaquinista Henrique Cazes. Noel, até então, era patrimônio da grande Araci de Almeida. Araci continua ótima cantando Noel. Mas Cristina é um gênio interpretando um dos nomes mais fortes de nossa música popular.
Ela gravou um disco só com canções de Wilson Batista: "Ganha-se pouco, mas é divertido". E aprendemos com ela que Wilson é maior do que pensávamos. Ou ela faz Wilson ser melhor do que é? É que Cristina Buarque se transmuda-se todinha para o samba que interpreta. E, sem dúvida, se transforma em co-autora do que canta.
Ela gravou com o grupo ‘Terreiro Grande’, e provou que São Paulo é terra de samba sim senhor. Sem cabotinismo algum da parte deste colunista. Nem só de Adoniran Barbosa, Germano Batista e Geraldo Filme vive o samba paulista.
Ela gravou dois discos com o grupo ‘Samba de Fato’. Ambos só com composições de Mauro Duarte, dono de um samba informal de primeira linha. É ouvir pra gostar. Não tem escapatória pra ninguém. Nem pros ruins da cabeça e doentes do pé.
Ela gravou com a carioquíssima ‘Banda Glória’. Um disco cheio de suingue e muitos metais. Dançante todo. Apaixonantemente lindo e sedutor. Assim é ela. Assim é que ela faz. E ficamos todos reféns de sua delicada e arrebatadora voz de morro.