Calma, gente! Como naquele "funk" carioca em que a cantora esclarece a certa altura que ela se refere ao fogão Dako e a nada mais. Pois é: aqui também esta história de a igreja aceitar que seus padres sejam homossexuais não é bem assim. Vale esclarecer que esta é a posição da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Anualmente os bispos brasileiros se reúnem e discutem temas de importância social. Este ano a novidade veio grande: "Os padres podem ser gays". Isto não quer dizer que os padres agora vão trocar as procissões pela paradas gays mundo afora.
Nada disto. O padre pode ser gay, homossexual, homoerótico, o escambau. Poder pode. Ou seja: pode e não pode. Explico: pode porque ele vai manter o celibato. E não pode porque ele não vai poder "ficar" com outro padre, outro homem. Enfim, o padre pode ser homossexual, platonicamente. Nada de prática. Sonhos, visões, delírios são permitidos. Até um olharzinho meio Capitu cai bem. Afinal, não tira pedaço da carne de ninguém. E parece que a questão de ser gay sem praticar é uma questão tipo sexta-feira santa: nada de carne. E aqui, nem de peixe. Já que há, neste mundo de meu Deus, muito peixão solto por aí. Peixão surfista, peixão urso, peixão barbie, peixão biba. Virgem Maria, eu mesmo nem tinha me dado conta de como este cardume é enorme.
Mas voltando à questão da aceitação do padre que pode ser homo, mas não pode fazer com outro homo. Há um componente importante nesta declaração da CNBB. E que não pode passar em branco. É que ela, ao aceitar o padre homossexual como padre, está dizendo que não há nada de "anormal", de "doença", de "pernicioso", de "pecado", de "vergonha", de "inferior" no fato de o padre ser homossexual.
A CNBB – e esperamos que a igreja – acaba de decretar que o homoerótico, ou homossexual, ou gay, ou seja lá o nome que derem, é um ser (homem ou mulher) como outro qualquer. Nada de culpa, nada de vergonha, nada de pudicícia em ser-se assim. Todos estão vivendo apenas os seus desejos mais recônditos – que até aqui eram jogados pra baixo do santo tapete eclesiástico.
E, se padre pode ser gay, a freira pode ser lésbica. É a lógica elementar, tão bem apregoada por santos e padres famosos como São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Padre Vieira. Então, felicidade aos padres e freiras homossexuais. E a todos os homens e mulheres de boa vontade.