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As oscilações do humor 1 Imprimir E-mail

12 de maio de 2009

Muita gente conhece alguém que sofre de Transtorno Bipolar. Aquele amigo que muda de humor de um dia para o outro, indo da alegria à depressão, da veia cômica à irritabilidade, pode ser um bipolar.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) o Transtorno Bipolar (TB) é uma das cinco maiores causas de incapacitação no mundo hoje. Isto, sem falar da taxa de mortalidade, que é muito alta. O portador do TB, não tratado, é vítima fácil do suicídio. Os adolescentes e aqueles que fazem uso do álcool e de outras drogas são as pessoas mais fragilizadas e expostas à morte.

Embora fatores psíquicos e sociais interfiram no quadro do TB, hoje sabe-se que a genética é deflagradora da doença. Filhos de pais com a doença estão mais expostos a desenvolvê-la que filhos de pais não bipolares.

Umas das dificuldades no tratamento do TB é que a pessoa, em geral, é diagnosticada após anos de tratamento tangencial. Ou seja: são diagnosticados dependência do álcool, transtorno alimentar, distúrbios de caráter, síndrome do pânico e depressão unipolar. Mas ao TB, muitos anos depois é que se chega a ele.

E aí, dependendo da pessoa, pode ser tarde demais.

Diagnosticado, o maior problema está na aceitação do tratamento, tanto pelo paciente, como pela família. Aliás, o paciente é o mais resistente ao diagnóstico. Chega a extremos de adquirir a medicação, pegá-la nos horários estabelecidos, contar a dosagem indicada e... atirá-la ao lixo. Isto, bem entendido, quando o paciente foi ao psiquiatra e aceitou o diagnóstico médico.

A grande maioria dos portadores do TB sequer sai do consultório médico e adquire a medicação. No exercício de autoilusão tais pacientes apegam-se aos momentos em que estão "bem". Isto é, em que experimentam a euforia, o outro polo da doença. Como o TB opera na balança do sobe e desce do humor, é fácil para o paciente iludir-se de que as fases de depressão, melancolia, exaustão física e psíquica são apenas características comuns a todas as pessoas.

O que o portador do TB não admite é que ele vivencia alterações cíclicas de humor. E sempre alterações exacerbadas. Não é uma tristeza motivada pela morte de um familiar, que aos poucos desaparece com a vivência do luto. É o desespero sem causa.

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PROFESSOR DA UFPB, ESCRITOR E ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS NESTA COLUNA
amador.ribeiro@uol.com.br



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:40
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As oscilações do humor 2 Imprimir E-mail
19 de maio de 2009

Diante de uma dificuldade comum, o doente bipolar é tomado por um desespero incontrolável. Mas muitas vezes a sensação de inutilidade é absoluta – e sem causa alguma.

É a vontade determinada de abandonar o trabalho, a família e até a vida. Por quê? Por nada. Exatamente isto: não há motivo algum para o desânimo, para o desespero, para a melancolia.

Isto dura meses, anos. Tem nome: depressão. Ou então ele se alegra desmesuradamente, canta, dança, conta mil histórias, detém a atenção de todos no trabalho, na mesa de bar, na roda de amigos. A alegria intensa o faz dar showzinhos particulares seja onde for. Nesta fase não pesa o valor do dinheiro: gasta a mais não poder. Adquire coisas que nunca chega a usar. Estoura o cheque especial, o cartão de crédito, a poupança de anos. Isto tem nome: mania (ou, popularmente, euforia).

Na fase eufórica ele também pode mostrar-se com alto grau de irritabilidade. Tudo parece confluir contra ele. Todos lhe parecem idiotas, incapazes de entender o mais óbvio, imbecis de carteirinha . Não conseguindo interagir com as pessoas (= bando de boçais), isola-se. E dá lugar à depressão.

Assim, o mesmo sujeito que na sexta-feira à noite animara a roda de amigos no aniversário de um deles, no sábado está mergulhado no quarto escuro, sem receber ninguém, sem comer, sem beber, sem banhar-se. Vencido por uma enxurrada de pensamentos irrefreáveis e incessantes. A cabeça pesa. O corpo pesa. O ar que respira pesa também. A vida se torna insuportável.

Daí, para a carreira profissional ir ribanceira abaixo, ou a relação amorosa ir à deriva, é questão de horas ou minutos. A produtividade profissional e a durabilidade do relacionamento afetivo ficam comprometidas. Durante a crise, o portador do TB não tem controle sobre o que pensa nem sobre o que fala. Fica ao deus-dará dos sintomas.

Sem o tratamento adequado, a doença que é crônica, leva o paciente à incapacidade de gerir a própria vida. Não se fixa em trabalho. Não mantém laços afetivos sólidos e nem duradouros. Não estabelece vínculos quaisquer que sejam.

Vira um pária em decorrência do próprio comportamento. Isolado, o mundo parece-lhe mais cruel e insuportável. Por isto quer morrer. Mesmo simbolicamente.

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PROFESSOR DA UFPB, ESCRITOR E ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS NESTA COLUNA
amador.ribeiro@uol.com.br



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:34
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As oscilações do humor 3Imprimir E-mail
26 de maio de 2009

Diferentemente de um indivíduo sadio, que se enfurece diante de uma injustiça, ou que sofre diante da morte, o paciente bipolar exacerba estes sentimentos e se torna excessivamente agressivo ou profundamente deprimido.

Esta instabilidade de humor, levada aos extremos, é a maior característica do doente bipolar, quando ele não se trata. Tratamento que deve envolver um psiquiatra e um psicanalista para que os efeitos genéticos e os psico-sociais sejam igualmente combatidos.

Mesmo em tratamento, o doente bipolar não está cem por cento livre das crises.

O TB, como dissemos, é crônico, mas controlável. Este controle diminui as frequências e as intensidades dos sintomas. Mas os sintomas, mesmo enfraquecidos, continuam a existir. Por isto mesmo a medicação que faz efeito numa fase da doença, pode não fazer em outra fase similar. Ainda desconhecemos como funciona nosso cérebro. Por isto mesmo os remédios e as psicoterapias são apoios importantes no controle – e nunca na erradicação da doença.

As crises sem medicação podem durar meses ou anos. Medicadas, duram dias ou semanas.

Todavia, é bom que os familiares, amigos e colegas de trabalho estejam informados sobre a bipolaridade de uma pessoa com a qual convivem, a fim de não lhes cobrar o que eles não podem dar. E a fim de entenderem que o sono e o apetite desmedidos (pra mais ou pra menos), a lentidão ou a velocidade de movimentos físicos, a atenção diminuída, a falta de concentração intelectual, os brancos de memória, os pessimismos ou otimismos exacerbados, a ansiedade são, entre vários outros fatores, sintomas de uma doença que requer, em primeiro lugar, do próprio paciente, e depois de familiares, amigos e colegas de trabalho, compreensão e observância do tratamento adequado.

Se na depressão o paciente sofre com o isolamento do qual não consegue sair, na euforia ele minimiza a doença, não nota as alterações em seu humor, tem a sensação de que está muito bem. E racionaliza dizendo-se que os outros é que têm problemas. Ele está bem. Nesta hora o outro tem o dever moral e fraterno de apontar para a iminência de descaminhos que daí advirão. (Finalizo aqui a série de três colunas sobre TB).

PROFESSOR DA UFPB, ESCRITOR E ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS NESTA COLUNA
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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:33
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