Fernando Pessoa é um poeta surpreendente. Mesmo que conheçamos a heteronímia dele, com detalhes de cada heterônimo, e a obra assinada por ele mesmo, ainda assim atiça nossas percepções. Sempre inesperadamente.
Gosto muito da poesia assinada como Álvaro de Campos, um poeta da grande cidade, vivendo intensamente a velocidade e a melancolia das metrópoles. Este poeta é aquele que busca sem cessar. Que se move entre ansiedades contínuas. Que vive a euforia das grandes cidades. E também a depressão a que estes centros urbanos nos atiram. É um poeta da desterritorialização e reterritorialização do homem.
Pois o moderno, modernista, contemporâneo Álvaro de Campos, em meio a poemas longos como "Tabacaria" sai-se com um soneto que é pura ironia sobre esta forma fixa de fazer poesia. Já no título há algo que cheira ao paródico: "Ah, um soneto...". A interjeição e as reticências nos empurram para, no mínimo, uma inquietação. Que diabos este título quer dizer? "Ah" é um suspiro ou uma impaciência?
Lemos o poema. Todos os versos são decassílabos, com acento nas sextas e décimas sílabas. Quanto isto acontece, chamamos estes versos de heróicos. Com esta marcação de tônicas, o ritmo do poema se impõe. O poema passa a ser marcadamente musical. Até aí, novidade alguma para um sonetista.
Acontece que, entre os versos heróicos, outros, de outras formas, também se interpõem. Aparecem novas acentuações musicais. Agora as tônicas podem ser a quarta, a oitava e a décima. Para este tipo de acentuação tônica dá-se o nome de verso sáfico.
Então o soneto está marcado por duas frequências musicais. Isto quer dizer alguma coisa ou é mero exercício técnico de contagem silábica? Pois não é que o poema fala de um eu-lírico que se aposentou do mar e agora vive em casa a sonhar com o vaivém das ondas marítimas? A oscilação das tônicas ganha expressão significativa, levando o leitor a vivenciar os movimentos do mar. Mas não é só: o eu-lírico está sentado numa cadeira de balanço que é a figura dos movimentos até então sugeridos. E, para falar que está preso a uma cadeira, ele cria dois versos entrecortados, destacados por parênteses que se abrem num verso e só se fecham no seguinte. É a figura dos movimentos da cadeira, do mar e, por que não dizer, dos movimentos da memória do antigo marinheiro? Ele contempla o mar de fora. E o que carrega dentro de si.
Não bastando os recursos apontados, há o uso expressivo de versos que continuam no verso seguinte, esticando até lá o significado, a sintaxe e o ritmo. O verso não termina no final da linha. Este recurso faz-nos lembrar o oscilar das ondas do mar. Vejamos a segunda estrofe: "No movimento (eu mesmo me desloco / nesta cadeira, só de o imaginar) / o mar abandonado fica em foco / nos músculos cansados de parar".
Observamos que o vaivém da leitura ilustra o movimento oscilatório das águas e, por extensão, da memória. O marinheiro balança-se na cadeira, anda pela casa e uma obsessão o persegue: "Há saudades nas pernas e nos braços. / Há saudades no cérebro por fora. / Há grandes raivas feitas de cansaços." Esta estrofe aprisiona o eu-lírico com versos rigorosamente pontuados. Cessa o movimento. Reitera-se uma ideia: "Há saudades... Há saudades..... Há....". Como num refrão, a repetição destes termos, ocupando sempre o início de cada verso do terceto, impõe um limite ao marinheiro: as lembranças são físicas: o braço, a perna, o cérebro por fora (este "por fora" remete ao cérebro automatizado na reiteração dos movimentos do mar). Há grandes raivas.
Agora, à fluência do mar há o estanque da nova realidade. O marinheiro está dentro de sua casa. Nada além disto. Está diante de sua força e fraqueza.
A grande ironia do poema entrega-se quando lemos a primeira e a última estrofes: "Meu coração é um almirante louco / que abandonou a profissão do mar / e que vai relembrando pouco a pouco / em casa, a passear, a passear....". É do coração que ele fala, metaforizado como almirante louco. E a última estrofe: "Mas – esta é boa! – era do coração / que eu falava... e onde diabo estou eu agora / com almirante em vez de sensação?".
Dirigindo o olhar do leitor ingênuo, o eu-lírico cria um sofisma que explica o poema como o sofrimento de um almirante aposentado e lamentoso. Qual o quê! Este eu-lírico é perspicazmente paródico. Com fina e corrosiva ironia coloca o soneto em cheque-mate, espelhando uma ácida crítica: aos clássicos, aos românticos, aos simbolistas, não importa.
A ironia movimenta o território deste poema, destituindo-o para depois restituí-lo. Toma a forma fixa do soneto e brinca tematicamente com ela, recheando de dúvidas e inquietações. Para, ao final, duvidar do discurso que proferira. Surpresa pessoana.
Amador Ribeiro Neto PROFESSOR DA UFPB, ESCRITOR E ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS NESTA COLUNA