barrocidade


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Os júris simpáticos mas incompetentes Imprimir E-mail
01 de setembro de 2009

Fernando Pessoa pagou alto o preço de inscrever-se num concurso de poesia com um livro sobre a história de Portugal: amargou um segundo lugar. Segundo os jurados, por professar antinacionalismo. Mais uma vez o júri errou. Do livro vencedor hoje ninguém tem a menor notícia. Já do livro vice, o mundo todo sabe de cor vários poemas. Afinal, "Mensagem" é obra-prima da Poesia. No Brasil, o livro foi musicado por André Luiz Oliveira, em selo Eldorado, 1986 e reeditado em 1997. Com belas melodias, delicadas harmonias e acordes luso-brasileiros, o disco reúne grandes nomes de frente da nossa MPB num belo trabalho (diria mais: quase impecável) de poesia convertida em canção popular.

Ficou em segundo plano a obra pessoana que, rotulada de antinacionalista, teve desmerecida suas qualidades estéticas. Mais uma vez a espada do nacionalismo tacanho vaza o olho da estética.

Há algum tempo a Rede Globo fez um "ranking" das melhores músicas do século. Montou dois júris: um de profissionais e outro popular. O júri de profissionais achou por bem eleger "Aquarela do Brasil", de Ari Barroso, como a melhor da nossa MPB. Já o júri popular escolheu "Garota de Ipanema" de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Sem dúvida, o júri oficial quis ser mais realista que o rei. Na linha "vou onde o povo está", nivelou por baixo. Escolheu um samba exaltação recheado por preciosismos verbais no estilo "brega com jeito de chique, é disto que o povo gosta". Este júri quis fazer uma média e agradar o povo. Voltou no tempo e elegeu um "samba pra inglês ver" cuja letra, de um parnasianismo esclerosado, é daquelas que ainda sonambulam pelas torturantes antologias escolares.

Senão, vejamos: "Ah esse coqueiro que dá coco" (curioso seria se desse caju...). "Mulato inzoneiro" (inzoneiro pra rimar com brasileiro é de doer nos ouvidos). "A merencória luz da lua" (merencório: você já ouviu esta palavra onde mais?); etc.

E a melodia? É grandiosa e faz tudo para enaltecer a grandiloquência da letra em compassos que os intérpretes insistem (exceção feita a João Gilberto) em realçar com estrondosos dós-de-peito. De fato, é de doer. Duplamente: dor número 1: este samba de Ari; dor número 2: a escolha do júri. (Continuo na semana seguinte).

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:34
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A voz do crítico e a voz do povo Imprimir E-mail
25 de agosto de 2009

O público, ou seja, o povão, a massa anônima quase sempre desqualificada pelos intelectuais "da hora", não hesitou em escolher a música mais bonita. De fato, votou nos acordes requintados, na melodia dissonante, na letra cinematográfica e coloquialmente poética de Garota de Ipanema. Deu um soco na cara macaqueadora do júri "simpático mas incompetente", como disse Caetano Veloso no "III Festival Internacional da Canção", no Rio, em 1968.

Repete-se aqui aquela pisada na bola do júri português. Definitivamente está na hora de não dar mais a palavra aos jurados. O motivo é simples: eles insistem em ver o país com olhar conservador. Pegajoso. Dominador.

Neste país de caminhos plurais e antropofágicos, os profissionais (de música ou seja do que for) pronunciem-se à mancheia. É um direito que têm. Mas pelo-amor-dos-deuses-todos: que o povo também possa falar pelos cotovelos e ser ouvido. Com o direito de cantar (e calar) o que quer.

Nisto o certame da Globo acertou na mosca: deu voz para diferentes segmentos. Se a moda pega, com certeza muito jurado vai pensar duas vezes antes de declarar seu voto. Ah, se vai. Outro vexame como este, por exemplo, difícil acontecer.

Vamos ao poeta. Há 50 anos, Oswald de Andrade pegou a "Carta de Caminha" e recortou dela o que lhe interessava esteticamente. Transformou a visão estrangeira do português em poesia brasileira de fina estampa.

Fina e irônica. Reverteu a gravidade do texto em escracho. Despiu o tom solene da linguagem ao transformar a prosa em versos e intitulá-los irreverentemente. Um exemplo: no trecho em que Caminha descreve nossas índias e as reações dos portugueses face a elas, Oswald recorta o fragmento e o dispõe em forma de versos: "Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis / Com cabelos mui pretos pelas espáduas / E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas / Que de nós as muito bem olharmos / Não tínhamos nenhuma vergonha". Afora a sincronicidade do adjetivo "sarado", (hoje, gíria espalhada pelo país afora). Fora isto, resta o título que Oswald sapecou ao fragmento e que, de resto, explica tudo: "As meninas da gare". "Gare": estação de estrada de ferro. "Meninas": as que fazem ponto ali. Da carta de Caminha à cartada de Oswald. Ainda bem que temos escritores bem humorados.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:32
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A tecnologia e a interpretação que resgata o brega Imprimir E-mail
18 de agosto de 2009

O balanço maroto, que a voz cantada surrupia da fala, desbancou de vez os dós-de-peito dos cantores-estouradores-de-tímpanos. Aquele canto operístico que só espanta ouvintes da música popular. Aí a invenção do microfone é importante, porque não apenas revoluciona as possibilidades de gravação, como acaba adefinindo uma nova postura diante da própria voz.

Se o rock libera a voz da categoria afinação, ao introduzir o ruído e a distorção como componentes interpretativos, o uso do microfone já tinha liberado os cantores de "voz pequena", colocando-os nos primeiros lugares das paradas de sucesso. Foi assim com Noel Rosa, Orlando Silva, Mário Reis, João Gilberto, Nara Leão, Roberto Carlos, Chico Buarque, e tantos mais.

Se temos hoje vozes privilegiadas como as de Gal Costa, Caetano Veloso, Zé Renato, Ná Ozetti, não resta dúvida de que estes cantores sabem muito bem que a voz é um suporte para a canção - e não o contrário. Os exibicionismos vocalísticos, que vinham sendo paulatinamente enterrados, receberam o golpe de misericórdia com o estilo "cool" da Bossa Nova e a consciência musical da geração Lira Paulistana.

Hoje um Zeca Pagodinho sussurra malandramente - e é tão bem assimilado que poucos se dão conta de sua sofisticada interpretação. Não importa: o que vale é que nossa música popular não é só letra e música - mas também arranjo e interpretação. O compositor, é bom que se diga, tem no intérprete (e no arranjador) co-autores da canção. E isto conta muito!

Este papo careta de dizer que uma música brega, e escanteada, vira moda quando um Caetano Veloso a regrava é papo pra lá de Marrakesh. Caetano toma o brega e confere-lhe uma interpretação tão singular que a canção passa a ser outra coisa. Uma coisa que é o mesmo (a canção original), mas é diferente (entra aí a co-autoria do intérprete).

A questão não é se é Caetano ou não. A questão é o "status" estético a que a canção é submetida.

Maria Bethânia fez o mesmo em tantas canções, como em "É o Amor", de Zezé di Camargo e Luciano. Zeca Baleiro acaba de fazer o mesmo com "Bola Dividida", de Luiz Ayrão. E assim a canção se renova. Sem fronteiras.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:31
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O gingado da música popular brasileira Imprimir E-mail
11 de agosto de 2009

Cantar como se falasse: isto já é tradição em nossa música popular. Uma tradição elegante e sedutora que explora as entonações da fala tirando dali a musicalidade que cai bem na música popular. Uma inovação que cresce dia-a-dia.

O gingado do malandro de morro, a embolada do nordestino sertanejo, a manemolência dos sulistas fronteiriços, o som retroflexo dos caipiras de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, etc., pipocam aqui e ali em nossas músicas, sem constrangimentos. Seja no funk, no rap, no partido alto, no samba de breque, no rock de garagem, no coco de roda, no hard rock, no mangue beat, no punk rock, no bolero, no brega sertanejo, no abolerado blues, no axé music, no forró, no pagode, na embolada, etc. e tal. Em tudo a fala está presente. Em forma de música.

Em outras palavras: interpretar música popular no Brasil é cada vez mais um ato de sofisticação. Periga até de o ouvinte não estar se dando conta disto. Mas a verdade é que o canto popular está atingindo altos índices de qualidade interpretativa. Pena Branca e Xavantinho estavam levando a ferro e fogo a lição que aprenderam com a tradição musical brasileira (terças e oitavas num acordo estranho e bem sucedido), somada às conquistas dos grupos paulistas que fizeram uma música nos anos 80. Geração que ficou conhecida como Lira Paulistana: referência tanto ao teatro, em Pinheiros, onde estes grupos se apresentavam, como ao livro de Mário de Andrade, que, por sua vez, motivara o nome do teatro. São deste tempo, por exemplo, o trabalho com o canto-falado do Grupo Rumo (com a experiência de compositor e intérprete de Luiz Tatit e de Ná Ozetti), o genial Itamar Assumpção, o vocalista-radialista Arrigo "Dodecafônico" Barnabé, os irreverentes grupos Língua de Trapo e Premeditando o Breque, entre tantos outros.

Um ouvido mais atento percebe que desde Donga (com a gravação do nosso primeiro samba, Pelo telefone, em 1917) até o mais recente disco de seu Jorge ("América", 2008) a interpretação canto-falada & malandra é uma das marcas mais fortes de nossa música popular.

Aliás, o canto misturado com a fala é marca de qualidade interpretativa de nossa música popular - uma das músicas populares mais criativas do mundo. Tom Jobim já disse isto.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:29
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O performático Arnaldo Antunes Imprimir E-mail
04 de agosto de 2009

Mais uma vez Arnaldo Antunes se apresenta em João Pessoa. E cada vez é um acontecimento diferente, já que uma das características do compositor e cantor é inovar sempre.

Não se entenda por inovação as invencionices que os manuais ensinam, que as cartilhas apregoam, que os boca-a-boca comentam. Arnaldo é inventivo dentro da curtição de fazer um novo sem forjar nada. Hermetismos nunca o atraíram enquanto músico. Mas inovações, sim.

Neste mais recente show ele subiu ao palco e o palco era ele. Ainda que aqui e ali alguém da banda desse um diferencial a mais, tudo era Arnaldo. Sentado no chão, tomando cerveja e olhando pra banda enquanto esta desenvolvia uma parte instrumental, ele era só sorrisos e cumplicidade com seus músicos.

Uma coisa que me impressionou neste show foi constatar a alegria de Arnaldo no palco. Ou então invadindo a plateia, numa performance que já é conhecida dos pessoenses. Há anos ele deixa o palco e embrenha na plateia, de microfone na mão, cantando enquanto o público busca tocá-lo. Ele e o público gostam desta proximidade que a canção alimenta.

Arnaldo deu um show em que ele estava visivelmente feliz. Cantava, dançava, respondia com olhares os apelos do público. Sempre feliz da vida. Contente. Feliz. Rindo. Eu nunca tinha me dado conta de um intérprete estar tão feliz durante seu show. A alegria de Arnaldo era contínua. Verdadeira. Contagiante.

Ele cantou músicas do CD e DVD "Ao vivo no estúdio" e conhecidos sucessos. Para cada canção uma performance diferente. Como diferente e apropriada era sua roupa. Com gestos de cortes abruptos, lembrava, de longe, os bons tempos de Laurie Anderson da década de 80. Mas devidamente canibalizados. Um Arnaldo meticuloso nos movimentos transformados em signos de leitura e interpretação das canções. A dança performático-cubista de Arnaldo é uma marca que já se incorporou às suas apresentações.

Arnaldo contagiou todo o público que o esperava desde às 21 horas e só foi subir ao palco à meia-noite. Isto, por conta da desastrosa banda Travolta que "abriu" o show de Arnaldo.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:27
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O show de Caetano Imprimir E-mail
28 de julho de 2009

O show de Caetano Veloso na Praça do Povo do Espaço Cultural José Lins do Rego veio matar uma saudade de 11 anos sem apresentação dele em João Pessoa. Ele próprio falou desta saudade à imprensa. Não sabia como explicar tal hiato. Na verdade, há 11 anos ele se apresentou no Forrock com uma acústica de péssima qualidade e com o público falando o tempo todo. Ele parou o show, deu um esporro geral, foi vaiado e sumiu de João Pessoa.

Sei lá como ele resolveu este caso de descaso com a apresentação dele. O fato é que voltou com todo o gás. Mais performático que nunca. Para cada canção tinha "um jeito de corpo" só dele. Que abria a canção para novas leituras. Em "A base de Guantánamo" expôs o corpo, duro-mecanizado numa clara referência aos presos políticos sob guarda dos norte-americanos em Cuba.

Já em "Eu sou neguinha" o corpo é só denguice, faceirice e requebro. Duas pontas de um mesmo fio: o mesmo Caetano instigante, provocador, manhoso. Engajamento e entretenimento. Numa boa.

A presente turnê é pra lançar o disco "zii e zie", palavras que em italiano significam "tios e tias". E não me perguntem o que este título tem a ver com o disco porque não faço a mínima ideia. Já ouvi o disco "N" vezes e "niente". Confesso meu desconhecimento e peço que me auxiliem nesta decodificação.

O show, pra ficar no clichê, foi impecável. Embora não goste desta palavra, não encontro outra: foi mais que gostoso, mais que bonito, mais que envolvente, mais que irretocável, mais que admirável, mais que antenado, mais que tudo de bom, mais que hipnótico, mais que curtição. Enfim: foi mais que mais. Muito é muito pouco.

No cenário uma asa delta e um telão por trás dela. A iluminação cuidava de nos levar a mundos de nuvens, mares, pés no chão, Cuba. Enfim: ao universo das canções.

A banda formada por uma guitarra, um baixo e uma bateria tocou com atitude e se impôs nos transambas ou transrocks, como vem grafado na capa do disco. É o mesmo trio que o acompanhou em "Cê". Competência e desempenho em alto grau.

Das 13 canções do novo disco, Caetano cantou 10. Entre as canções conhecidas, a surpresa de ouvir "Objeto não identificado" ou "Irene" ou "Maria Bethânia", do início da carreira de Caetano. Agora revisitadas pela banda Cê. O público pôde cantar, dançar, fazer coro com Caetano. Como numa grande festa de caetanólogos. E caetanólatras. Foi bonita a festa. Uma noite feliz com Caetano em João Pessoa.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:26
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Um poema. Uma nova canção Imprimir E-mail
21 de julho de 2009

O Tropicalismo deixou um legado substancial na cultura brasileira. Das coleções lançadas pelo estilista Alexandre Herhcovitch à música do Mangue Beat, hoje viva, entre outros, pela banda Mundo Livre S/A. Quase tudo que há de novo na cena brasileira paga tributo ao Tropicalismo. Glauco Mattoso compôs um soneto cheio de neologismos, reverberações sonoras, citações, pastiches, como um objeto semi-identificado que, derivando do Tropicalismo, influenciou Caetano em "Língua".

É notável este diálogo entre códigos diferentes como música e poesia num mundo cada vez mais globalizado culturalmente. Onde a cultura do centro intercambia-se com a cultura da periferia e vice-versa, num movimento constante de desterritorialização de tempos e espaços. É a Semiótica da Cultura entre códigos.

No soneto de Glauco, feito à moda inglesa shakespeareana, há apenas duas estrofes: a primeira com 12 versos e a segunda com 2. Misturando tupi com inglês e português, maxixe com rock, Lamartine Babo com Bob Dylan, Augusto de Campos com Caetano Veloso, etc., a estrutura deste soneto levou Caetano a produzir o que podemos chamar de "primeiro rap brasileiro".

Somente a carnavalização tropicalista-bakhtiniana de Caetano e de Glauco poderiam gerar "Nine out of tem" (1974), daquele e "Spic(sic)tupinik" (1972) deste. A famosa "Língua" (1984), derivada do poema de Glauco foi responsável também pela "reentrée" de Elza Soares no cenário da MPB - de onde, aliás, nunca devia ter saído, dada a magnetizante intérprete que ela é.

"Língua" todos conhecemos e cantamos e rapeamos. Já "Spic(sic)tupinik" é assim: "Rebel without a cause, vômito do mito / da nova nova nova nova geração, / cuspo no prato e janto junto com palmito / o baioque (o forrock, o rockixe),o rockão, / Receito a seita de quem samba e roquenrola: / Babo, Bob, pop, pipoca, cornflake; / take a cocktail de coco com coca-cola, / de whisky e estricnina make a milkshake. / Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço - hic - e desligo - clic - a cuca. // Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik".

Este "tsunami" de sons e sentidos, rebatendo-se e reverberando num caldeirão de inovação a cada verso, a cada palavra, a cada fonema só podia mesmo vir do Glauco Mattoso e atingir, em cheio Caetano, também íntimo dos ataques sonoro-semânticos em suas canções.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:24
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Haicais do grande Saulo Mendonça Imprimir E-mail
14 de julho de 2009

O haicai, tal como o soneto, possui uma forma fixa tanto do número de versos como de sílabas. Há exceções – muitas delas honrosas e outras fracassos monumentais. Mas isto não vem ao caso agora.

O haicai, quando chega ao Brasil, assume a cor local. E ganha contornos inimagináveis, até então, por haicaístas genuinamente japoneses. Mas não deixa de ser haicai. Apenas é o outro do mesmo, como diria o poeta português Sá Carneiro.

Entre nós brasileiros temos um grande haicaísta: Saulo Mendonça. Cada livro que ele lança é para mim uma provocação criativa e crítica. Sua poesia me deixa inquieto.

Provocação criativa, porque me sinto chamado a escrever poesia. A elaborar melhor meus poemas. A ser mais simples dentro desta grande complexidade que é a própria poesia.

Provocação crítica, porque me sinto chamado a deslindar, desenredar, a esmiuçar sua poesia. Este meu lado crítico pulsa forte, desafiando-me a dizer o belo que habita cada haicai de Saulo.

Com o recém lançado "Luz de Musgo" (João Pessoa, Editora Sal da Terra, bilíngue), o poeta parece mais poético do que sempre foi. Como se isto fosse possível, tal a nobreza simples de seus tercetos. A verdade é que este livro contém o que o poeta já sabia e fazia. E mais: uma "maturicidade" do que já era maduro. Em outras palavras: o que era "o melhor" agora é "o melhor do melhor". Pura poesia. Poesia pura. E nenhum adjetivo a mais. Isto basta. Vamos aos haicais.

"À tardinha, no Sanhauá / o velhinho fitava o rio / com o seu olhar poente". O ocaso da vida (tardinha) é colhido com o passar do tempo (rio). Rio Sanhauá, ou seja, tempo que tem nome e lugar: João Pessoa, Paraíba. A soma de "tardinha" com "velhinho" e "olhar poente" fazem a síntese da transitoriedade da vida. A única vírgula, no início do primeiro verso, leva a uma leitura encadeada do poema. Como o passar do rio. Como o passar do tempo. Encadeados, os versos unem-se num "flash" fotográfico de uma só cena. Esta concisão, este saber colher minúcias do dia-a-dia, e dar-lhes a dimensão do universal, é arte de renomados artistas. E não temos artistas assim a qualquer hora, a qualquer dia, em qualquer tempo. Por isto mesmo devemos cultivar estas obras com nosso coração e nossa mente cativos de tanta beleza, de tamanha reflexão poético-filosófica.

"Nossas línguas / lua cheia / a boiar no céu da boca". Quem pode fazer um haicai falando do beijo de forma absolutamente genial? "Línguas", "lua", "boca": o amor tira os pés do chão e vai ao espaço sideral (lua). E volta ao chão com o "céu da boca". Nossa dimensão de humano e de poético (se preferirem, de divino) em uníssono estala(m) em beijos na noite/dia eternos do céu da boca. Também, amantes da língua que falamos, da fala, do linguajar. Esta língua é mesmo um beijo cheio de semioticidades que se espalham boca a boca. João Pessoa afora. Paraíba afora. Brasil afora. Mundo afora. Só ao poeta é dado este fazer de um para muitos.

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:23
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Rimar não é fácil não senhor Imprimir E-mail
07 de julho de 2009

Antes de mais nada, uma correção. Na coluna da semana passada escrevemos: "Há rimas toantes (que rimam apenas a vogal tônica da palavra) como fonte e boneco". O conceito de rima toante está correto, mas o exemplo, não. O "o" de fonte não é tão tônico como o "o" de boneco". A vogal tônica de boneco é a vogal "e", enquanto a vogal tônica de fonte é, de fato, "o".

Reescrevendo o parágrafo fica assim: Há rimas toantes (que rimam apenas a vogal tônica da palavra) como fonte e carona. O "o" de fonte é tão tônico como o "o" de carona.

Vimos, ainda na coluna da semana passada, que há rimas interpoladas e emparelhadas no esquema ABBA, onde as rimas "A" são interpoladas e as "B" emparelhadas. Tudo certo.

Agora considere estes dois tercetos de um soneto de Glauco Mattoso: "Fazer comparações não alivia / a fome, as privações, a perda, a dor. / Apenas ao sofisma cria a via. // Pois creio que a distância é bem menor / entre uma pobre prosa e a poesia / que aquela entre o poeta e o prosador". Levando em conta que já utilizamos as rimas do tipo ABBA nas duas quadras do soneto, aqui temos CDCDCD intituladas rimas cruzadas.

Quando as rimas não obedecem a esquema algum são chamadas rimas misturadas. E quando num poema todos os versos rimam e apenas um ou outro, não, este verso recebe o nome de rima perdida.

Outro tipo de poema de forma fixa é o haicai, poesia de origem japonesa, surgida no século XVII pelas mãos de Matsuo Bashô (1644-1696). O haicai japonês possui, no total, apenas 17 sílabas, distribuídas em 3 estrofes: uma de 5, outra de 7 e a última de 5. Na sua origem, o haicai refere-se sempre às quatro estações do ano, e tem um tom contemplativo.

Ao chegar ao Ocidente, o haicai continua mantendo 3 versos, mas já não importa o número de sílabas e nem a referência à natureza. Além de ter introduzido a rima, desconhecida no haicai original.

No Brasil temos grandes haicaístas, a exemplo de Olga Savary, Alice Ruiz, Millôr Fernandes, Paulo Lemiski, Saulo Mendonça. Vejamos três haicais de SM, do livro recém-lançado "Luz de musgo": "Copa do Mundo: / No fundo da rede, profundo / O gol em silêncio". Mais um: "À tardinha, no Sanhauá / O velhinho fitava o rio / com o seu olhar poente". Finalizando: "Pássaros se recolhem. / Bois sentados / mastigam a tarde morta".

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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:21
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Um soneto bem pensado Imprimir E-mail
30 de junho de 2009

Um soneto bem pensado não fica apenas nas dez sílabas de cada verso. Ele ousa ainda mais. Ele vira um jogo de enxadristas. Obstinados.

Por exemplo, o poeta torna tônicas as 6ª e 10ª sílabas do verso. E isto imprime um ritmo compassado ao poema todo. Em um belíssimo soneto religioso de Gregório de Matos, diz o poeta: "O braço de Jesus não seja parte". Escandindo as sílabas e pondo em maiúsculas as tônicas: "O / bra / ço / de / Je /SUS / não / se / ja / PAR (te). Imagine um soneto feito segundo este esquema métrico. Ele terá um balanço especial. E mais: o verso decassílabo que obedece a este esquema recebe o nome de heróico.

Mas como os sonetistas não se satisfazem com pouca invenção, criaram o verso decassílabo com a 4ª, 8ª e 10ª sílabas tônicas. Considere novo verso do mesmo poeta: "Na oração, que desaterra......... aterra". Veja como o poeta maneja bem as tônicas: "Na o / ra / ÇÃO / que / de / as / TE / rraa / TE(rra)". Agora temos uma modulação rítmica mais complexa. Este tipo de verso se intitula verso sáfico.

Pronto. Pensam que agora é só sair por aí fazendo versos com dez sílabas e variando os acentos conforme apresentado acima? Nada disto! E as rimas, como é que ficam? Há rimas toantes (que rimam apenas a vogal tônica da palavra) como fonte e boneco. O "o" de fonte é tão tônico como o "o" de boneco. Esta rima é bem sofisticada. E sutil. João Cabral de Melo Neto é um "expert" em rimas toantes.

A rima consoante faz rimar vogais e consoantes (às vezes até formando uma sílaba ou mesmo uma palavra). São as rimas que comumente conhecemos: rasa e casa; desgraçados e brados; destroços e ossos. Atente que não é a grafia que rima, mas o som. Por isto consideramos um par rímico destroços e ossos.

Dependendo do lugar que a rima ocupa no verso ela pode ser do tipo interpolada: quando o primeiro e o quarto versos de um quarteto rimam. E rima emparelhada é aquela que fica de "parelha", ou seja, uma ao lado da outra, como as rimas do segundo e terceiro versos de um quarteto.

Para cada rima diferente atribuímos uma letra em ordem alfabética. Vamos tomar o primeiro quarteto do soneto "Decadência" do grande Augusto dos Anjos: "Iguais às linhas perpendiculares / Caíram, como cruéis e hórridas hastas, / Nas suas 33 vértebras gastas / Quase todas as pedras tumulares". As rimas "lares" do primeiro e quarto verso são do tipo "A" e interpoladas. As rimas "astas" são do tipo "B" e emparelhadas. A estrofe, de acordo com as rimas, fica assim: ABBA.

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O soneto ficou brega e careta? Imprimir E-mail
23 de junho de 2009

O soneto é uma forma fixa de fazer poema. Isto quer dizer que há um modelo a ser seguido, aquele que totaliza 14 versos. Os sonetos shakespeareanos possuem a primeira estrofe com 12 versos e a segunda com 2. Os petrarquianos, danteanos, camonianos, etc., obedecem à disposição de duas estrofes com quatro versos cada e duas estrofes com três versos cada. Simplificando: dois quartetos e dois tercetos.

A hipótese mais aceita é que o vocábulo tenha surgido na Itália, através do termo "sonetto", que significa som pequeno, ou seja, pequena canção. Há quem diga que o termo deriva do provençal "sonet", que também guarda a significação de canção.

É de praxe que o soneto possua versos de 10 sílabas (chamado decassílabo) ou 12 sílabas (chamado alexandrino).

As palavras de cada verso do soneto ao serem divididas (ou seja, escandidas; de escansão) podem ou não coincidir com a divisão gramatical. É que no poema contabilizamos apenas até a última sílaba tônica do verso. E ainda fazemos elisão, que é a união da última vogal tônica de uma palavra, com a primeira vogal da palavra sequente.

Por exemplo, tomemos dois versos de Glauco Mattoso:

"Tentei, fiz o possível, mas não deu". Este verso possui 10 sílabas e não tem elisão. Veja: "Ten / tei / fiz / o / pó / ssí / vel / mas / não / deu".

Agora considere o seguinte verso: "Tirar de alguém, de súbito, a visão". Este verso possui 10 sílabas e há nele duas elisões:

"Ti / rar / de al / guém, / de / sú / bi / to a / vi / são". Veja que consideramos uma só sílaba as junções entre / de al / e / to a /.

Coincidentemente os dois versos terminam por palavras oxítonas e então contabilizamos até a última sílaba tônica, como rege a regra.

Já neste verso do mesmo poeta, a divisão poética não coincide com a gramatical:

"Pergunto-me que fim terão levado?".

Na divisão silábica gramatical: "Per / gun / to / me / que / fim / te / rão / le / va/ do /" = 11 sílabas. Na divisão silábica poética: "Per / gun / to / me / que / fim / te / rão / le / va (do) = 10 sílabas. Isto porque consideramos na contabilização poética até a última sílaba tônica.

Neste verso de João Cabral de Melo Neto: "E jogar fora o leve e oco, palha e eco" temos há 15 sílabas gramaticais e apenas 10 poéticas. Refaça você mesmo a contagem.

PROFESSOR DA UFPB, ESCRITOR E ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS NESTA COLUNA
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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:18
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