barrocidade


Poesia sem graça

Amador Ribeiro Neto

 

Gregório Duvivier é carioca em 1986. Já se consolidou como roteirista e ator de talento. É ator e criador do canal Porta dos Fundos, grande sucesso da Internet.  Sucesso merecido. De fato o grupo desta página vem renovando o humor brasileiro. Além disto, ele assina uma coluna semanal na Ilustrada da Folha de São Paulo.

Em 2008 publicou A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (Rio: Ed. 7 Letras) e no ano passado Ligue os pontos, poemas de amor e big bang (São Paulo: Companhia das Letras). Ambos de poesia.

É aí que a coisa começa a pegar. Pra usar a linguagem do humorista. Gregório Duvivier cismou que é poeta. E tem sido muito bem recebido por colegas poetas, como o Armando Freitas Filho. Mas não só: ele acaba de entrar para a lista dos finalistas na categoria poesia do Prêmio Telecom. Além disto,  ser publicado por uma  grande editora como a Companhia das Letras, também é sinal de reconhecimento.

Bem, vamos à sua poesia: “o mês de agosto parece o bairro / de são conrado: é difícil atravessá-lo / às vezes demora meses sobretudo / quando chove mas é inevitável / passar por ele – é inevitável”.

Eu fico me perguntando: que diabos estes poetas da geração 2010 viram no mês de agosto pra cismarem de fazer poesia sobre o surrado dito “agosto mês do desgosto”. A Angélica Freitas é outra que incorre na mesma leseira, no livro que aqui comentamos.

Não é somente pela absoluta obsessão pelo azar que o mês de agosto traz (sic!). É pela rudeza, pela ignorância, pela boçalidade de tomar o prosaico e não conseguir superar sua pasmaceira. Não vertê-lo em poético. Me lembro aqui de Bandeira dizendo da inviabilidade da vida na pensão burguesa. Quanta inventividade no modo de dizer o que todos sabemos, o que todos estamos cansados de ver. E até vivenciar.

Agora vem Gregório Duvivier querendo fazer piada em tom existencialista sobre agosto e são conrado quando chove? Oras, haja paciência...

Não só de piadinhas vive este aclamado poeta. Vejamos: “querer tudo é não querer / nada é perceber que nada / é pior que tudo e qualquer / coisa é melhor que nada / é melhor do que não querer / tudo é querer uma coisa só /  pois para ser feliz é preciso / querer uma coisa só e saber / deitar ao lado dela – quieto”. Bem, aqui, o poeta se dá ares de filósofo de botequim: “quem tudo quer, nada tem”. E termina com um auxílio ao leitor: ser feliz é querer uma só coisa e deitar quieto ao lado dela. Auxílio, no caso, é a lição de autoajuda. Evidentemente.

Entendemos que o poeta tem bom coração e boas intenções. Mas ele precisa ler muita poesia. Brasileira e universal. A de hoje e a de tempos passados. Para não ficar macaqueando o desleixo instaurado por este grupo de poetas neomarginais.

Mas ele insiste em ser engraçadinho e a filosofar como se estivesse na mesa  de bar. Bêbado. Eis mais um poema com plena falta de rigor da linguagem. E do tema. Este possui título: “deixa passar a noite”. Diz assim: “antes  do big bang o mundo / era uma bola de ping-pong / e ao redor dela nada nada / nada a não ser o silêncio / como nos pastos ou nas casas / em que já não mora mais ninguém”. Grande sabedoria. Eu me redimo.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:58
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Poesia da delicadeza

 Amador Ribeiro Neto

 

Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa, em 1956. Professora da Faculdade de Letras do Porto, trabalha com poéticas comparadas, estudos feministas e teoria queer. É finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2014 com Vozes (S. Paulo: Iluminuras). Já o fora em 2007 com A gênese do amor.

Vozes exige alta concentração do leitor. Seu universo poético, ainda que visite variados temas e circunstâncias histórico-estéticas, conflui para uma linguagem elaborada e densa. O difícil, tão caro a Paul Valéry, parece ser um de seus temas dominantes.

Difícil na estrutura sintática muito bem elaborada. Difícil na composição de imagens inefáveis e inacabadas. Difícil na apreensão do que diz, já que a elipse é uma de suas figuras preferidas.

No entanto, não nos iludamos: este difícil tem um alto poder de sedução. Lê-la é ter o prazer de desvendar o desconhecido. De revisitar o déjà vu. De estabelecer relações com a paródia. De reativar os laços da intra e intertextualidade.

O universo de sua poesia é a morada de uma polifonia que encanta. E por isto mesmo e pede reiteradas leituras multiprazerosas.

Nada em Ana Luísa Amaral beira o prosaico. O coloquial vem revestido de uma sintaxe e semântica que, embora devam ser correntes entre os lusitanos, soam cultos e elaborados para nós brasileiros. Melhor dizer: há finesse em sua escrita.

Outra tônica de sua poesia é a presença marcante de uma musicalidade que soa por vezes tonal, por vezes atonal. Este contrabalanço melódico imprime aos poemas uma dinâmica que reverbera na construção das imagens. O ritmo hipnótico dos versos vem acompanhado por sequências cinematográficas de imagens.

O movimento, o contramovimento.  As cenas. O fundo das cenas. Tudo converge para a construção de uma poesia que se dá e pede a cumplicidade do leitor. Não por menos, vários de seus poemas terminam por um travessão, o sinal que é a rubrica para o diálogo. Inconclusos, os versos têm continuidade em outros poemas.

Desta forma o livro tece-se como requintada renda renascença. Com linhas pós-modernas. Que incorporam a falha como um elemento inconsútil do texto. E aí reside uma das grandes marcas de Ana Luísa Amaral: compor com a rarefação de imagens, ideias e melodia.

Cito versos de “Quase soneto e de amor!”: “Caminhas como vírgula encostada a página, / não como folha ou haste exclamativa”.  “aquele que se inclina no teu porte lento / e eu desejava em plena exatidão”.  “e os pés tocassem raso o que era ali no céu. / Mas falamos de página, não falamos de corpo / porque senão falava dos teus olhos, // e punha mais dois versos, fá-los-ia rimar. / Diria <>”.

 

Compor o poema dentro da brecha, no espaço do vácuo. Muitas vezes, no limite do nonsense. Mas, sempre, com horror vacui. Porque sua poesia um pé na tradição e outro na contemporaneidade. Isto Ana Luísa Amaral faz com a maestria de poucos e raros.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:52
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Quadra, quadrão - Parte I

Amador Ribeiro Neto

 1.       A quadra

A quadra, formada por versos de sete sílabas que rimam, via de regra, o segundo com o quarto e o primeiro e com terceiro, é um dos modos fixos do poema. Praticada amplamente desde a Antiguidade Clássica, em especial através dos epigramas, tem expressiva presença no barroco.

Ainda que com destacada importância no Modernismo, tanto brasileiro quanto europeu, é através da poesia provençal que ela nos chega. E faz-se presente, hoje, principalmente, nos repentes, desafios e cordéis dos cantadores nordestinos.

Embora simples na forma e versando sobre temas triviais, não é uma poesia que todos consigam exercer a contento. Quem pensa que o simples é fácil, já se engana na premissa principal. E aí tropeça no que acredita ser uma quadra poética – quando, na verdade, estamos diante de uma quadra quadrada, uma quadra careta. Ou seja: feita segundo as normas dos manuais de versificação. Mas desprovida de poeticidade.

Pois bem, entre tantos, Manuel Bandeira valeu-se da quadra em vários poemas onomásticos. Fernando Pessoa escreveu suas célebres “Quadras ao gosto popular”.  Ambos saíram-se muito bem, quer pelo exercício de uma linguagem propositadamente despretensiosa, quer pela engenhosidade de captar o poético em versos coloquiais nada previsíveis.

Uma quadra de Fernando Pessoa: “Tenho um relógio parado / Por onde sempre me guio. / O relógio é emprestado / E tem as horas a fio”. O relógio que serve de guia é aqui um relógio parado. O tempo para o eu-lírico é o da inexistência? Todavia, se relermos a quadra constataremos que o precário, o incerto, o minguado instauram-se ainda mais na vida deste eu ao declarar-se nem ao menos proprietário do relógio. Eis que aí reside uma das chaves que abre a quadra ao inesperado e ao belo poético: mesmo parado, o relógio processa o tempo. O relógio – consciência do eu – acusa o tempo inefável e permanente.

Valendo-se da simplicidade formal da quadra, Pessoa propõe uma reflexão sobre a brevidade do tempo e da existência. Não em si. Mas na contracorrente da relação viver e experienciar a vida em profundidade.

Ao seu modo, despojado e brincalhão, Bandeira dedicou uma quadra a Santa Roza: “Quem é malungo, malunga. / Se não presta este Mafuá, / Ponha, meu Santa, um calunga / No anterrosto, e prestará”. Tudo leva a crer que se trata de uma dedicatória ao livro Cafuá do Malungo do próprio Bandeira, ao amigo Santa Roza.

Esta quadra é uma lúdica reunião de sons e termos partícipes do universo da cultura popular. Entrelaçados com o espelhar dos universos infantil e adulto: lazer e bom humor. O poema sentencia: quem não é companheiro e irmão (= malungo), ao menos o seja na “cachaça” (= malunga), ou que se faça passar por camarada. E há um recado para o Santa: neste parque de diversões (= mafuá), que é o lançamento do livro de poesia, vista uma máscara com desenhos infantis (= calunga). Assim, tudo acaba em brincadeira e alegria. Evoé, festa da poesia!

O leitor logo percebe que a quadra bandeiriana lança-se simples no instante-já para atingir o instante-depois. Entende que os versos em redondilha maior não visam à rima pura e simples, ou a um reles trocadilho que tenha como resposta o riso fácil e amarelo.

O leitor adentra no mundo de Bandeira e constata que o poeta joga com a vivacidade da cultura popular, investindo no desvelamento que se dá “por baixo dos panos”. Ou como diria Derrida: que se processa “no fundo de cena da escrita”.

Enfim, a visada de Pessoa e de Bandeira revela um enquadramento em 3D que capta o agora para imortalizá-lo no devir. Para os dois poetas, colher o cotidiano com olhos livres é o inverso de injetar-se da tolice, do simplório, do ingênuo, da patetice do senso comum. Ao contrário: é desvendar o conhecido como nunca o fora demonstrado.

 

Apois, eis a beleza da quadra: ser uma eterna metonímia e não uma rasa metáfora. 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:30
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Quadra, quadrão - Parte II

Amador Ribeiro  Neto

 

 2.      Quadras paulistanas

Fabrício Corsaletti é paulista (1978). Publica poesia, livros infantis e narrativas pela Companhia das Letras. É colunista da Folha de S. Paulo. Formou-se em Letras pela USP. Com o livro de poemas Esquimó arrebatou o Prêmio Bravo! 2011. Agora, com Quadras paulistanas é finalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Um belo currículo. Indiscutivelmente.

Ao lermos as quadras de Fabrício Corsaletti, garante-nos Alcino Leite Neto na quarta capa do livro: “Embriagado de realidade, o poeta-cronista flana por aí sem amarras, misturando ao léu objetividade e lirismo, imaginação e notícia, testemunho e confidência, sublime e nonsense”. E completa: “Uma São Paulo surpreendente emerge das quadras”. Alcino Leite Neto mente. Não se comprova uma palavra do que afirma. Isto decepciona o leitor atento, criterioso.

Ao abrir-se Quadras paulistanas deparamo-nos com: “na Liberdade entendi / (no auge da embriaguez) /não há nada mais bonito / do que um bebê japonês”. Nem com o aval da embriaguez o poeta tem o direito de produzir imagem tão torpe. O leitor sente-se traído ao constatar que há uma construção forjada de rimas e de um pretenso humor.

Mais adiante a pasmaceira continua em “ ‘VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO’ / diz o aviso, ‘SORRIA’ / eu bizarramente sinto / uma ponta de alegria”. O leitor tem mesmo de submeter-se a este olhar tolo do eu-lírico? Fabrício Corsaletti pensa que isto é observação poética sobre o trivial da vida? Leia Bandeira. Leia José Paulo Paes. Leia Leminski. Leia Pessoa. Mas, por favor, não nos venha com quadrinha de quinta categoria. Nós, leitores, não somos beócios. E sentimo-nos constrangidos com versos deste naipe.

Consideremos este que, na certa, o poeta imagina ser um chiste de primeira linha, quando não passa de uma bizarra quadrinha: “morrer talvez me agradasse / me sinto estranho e sozinho / mas, morto, como comer / a bisteca do Sujinho?”.

Nos dois versos iniciais, pode parecer que o “poeta” esteja promovendo uma interlocução com a poesia de Álvares de Azevedo e/ou com a de Mário de Andrade. O primeiro, pela via do lado sentimental e mórbido. O segundo, através da crônica que tematiza a cidade. Infelizmente não é nada disto. Pensamos e nos frustramos. O verso “chave de ouro” é um tiro no pé: nem dá sequência à sugerida ideia de transitoriedade da vida e/ou da vivência na trépida cidade, nem faz justa referência a um dos pontos mais tradicionais e frequentados de São Paulo hoje, o Sujinho. Creio que nunca este bar e restaurante fora tão ultrajado. O leitor de quadras, certamente também não.

Mas tem mais. Eis a pérola que se pretende político-poética: “prefeitos, vereadores / não fazem necessidades / pois como explicar a falta / de banheiros na cidade?”. Leitor, convenhamos: nem um panfleto de enésima categoria seria capaz de tamanha afronta. Lamentável. Não dá pra rir da equação. E nem pra chorar. O poeta conseguiu esta proeza. Somos invadidos pela imbecilidade de suas anotações. Em tempo: uso aqui o termo “imbecilidade” na acepção de “atraso mental acentuado, situado entre a debilidade mental e a idiotia”, segundo o dicionário do Aurélio.

No enfadonho rol das quadras paulistanas, há algo que beira à fixação psicanalítica do poeta: “em São Paulo tem de tudo / museu, teatro, metrô / mas nenhum banheiro público / pra gente fazer cocô”. Pergunto ao leitor: o que o dito poeta faz no poema é o que ele não consegue fazer na rua? Confere? Então, Fabrício Corsaletti, por favor, escolha melhor seu alvo. Poesia não é lata de lixo para suas necessidades biopsíquicas. E nós, leitores, não somos depositários de q     uadras pretensamente poéticas, quando de fato são inominável afronta à poesia.

 

Bem, para encerrar, esta fina tautologia tão ao gosto da dita poesia marginal: “cearense é cearense / carioca é carioca / gaúcho sempre é gaúcho / paulistano vem de fora”. Trocadilho estúpido com o paulistano. Constatação desprezível com o cearense, o carioca, o gaúcho. Dá para levar a sério este livro de Fabrício Corsaletti?




Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:28
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Quadra, quadrão -Parte III

Amador Ribeiro Neto

 3.      Quadrão

Cego Aderaldo (1878-1967) é poeta popular cearense. Dono de grande perspicácia poética, integra a poesia da oralidade, muito prestigiada no nordeste brasileiro. Ficou nacionalmente conhecido por um desafio travado com Zé Pretinho, na primeira década do século passado. É de sua autoria  o seguinte “quadrão” –  que é uma quadra duplicada no número de versos: “Eu canto o quadro quadrado, / Quadrado bem quadrejado, / Meu quadro é quadriculado / Por causa da quadração, / Porque minhas quadras são / De maneira bem quadrada. / Por isso meu verso enquadra / Quadrado, quadro, quadrão”.

Os jogos sonoros e semânticos, que remetem ao próprio fazer poético, constroem a imagem do poema fazendo-se no improviso e na consciência da linguagem da poesia. O inesperado entranha-se em cada ideia apresentada, bem como na reverberação sonora e semântica de um vocábulo dentro de outro. Ao ato metalinguístico de fazer o poema, ele é  concomitantemente pensado como ato crítico. Ou seja: criação e crítica mescladas como massa de um mesmo biscoito fino. Homenagem à inteligência e à sensibilidade do leitor.

E eis aí a dita poesia popular, tão depreciada na academia e tão pouco valorizada fora dela.

Graças à sua prática de leitor e pesquisador sem limites, aberto ao vasto leque das variantes poéticas – estejam e estendam-se elas por onde for  –  devo a Augusto de Campos, em Verso reverso controverso, o quadrão de Cego Aderaldo, acima transcrito.

 

Cego Aderaldo é um dos muitos exemplos de que a poesia se faz com linguagem, e não com manipulação do mercado editorial, jornalístico e literário deste país. Se fosse regra a qualidade literária in strictu sensus, certamente Quadras paulistanas jamais seria uma obra publicada. E menos ainda finalista de prestigiado prêmio nacional de literatura. Fabrício Corsaletti tem muito a aprender sobre quadras antes de publicá-las. Avant la lettre, Cego Aderaldo dá-lhe o merecido “carão”. 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:22
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Poesia de fé e facas

Amador Ribeiro Neto

 

Adélia Prado completa 80 anos no próximo ano. Sua poesia mantém a mesma inquietação existencial de quando ela publicou seu primeiro livro, Bagagem, aos 41 anos de idade. Agora, com Miserere (Rio: Record), considera-se mais polida pelo tempo vivido. Na verdade sua poesia recupera, isto sim, o vigor do livro de estreia e do belo Pelicano, publicado 11 anos depois.  Uma grata surpresa.

Integrar a lista de poetas finalistas do Prêmio Portugal Telecom é mais do que justo. Embora em companhias lamentáveis, como temos apontado nesta coluna.

Miserere é um título derivado da expressão latina “miserere nobis” (“tende piedade de nós), bastante utilizada na liturgia da religião católica. Mas se os tropicalistas ao fazerem uso da expressão ironizaram-na pelo viés político, no final da década de 60, Adélia a toma como signo de compaixão e danação do homem no mundo.

Nas quatro partes em que o livro se divide (“Sarau”, “Miserere”, “Pomar”, “Aluvião”), a poeta mais pergunta que afirma. Mais inquieta que sossega o leitor. Fala mais de “contramor” que de amor-feliz-para-sempre. A angústia do homem é apanhada numa linguagem essencialmente melódica. Os poemas são, antes de mais nada, música.

E se a poesia tende para a música, como afirma Ezra Pound, neste livro Adélia merece ser festejada, bem festejada.

Em “Pingentes de citrino” o eu-lírico depois de furar as orelhas conclui: “Fiquei mais corajosa, / igual a mulheres que julgava levianas / e eram só mais humildes”. A imagem antitética furando os versos é a materialização dos brinquinhos “miúdos como grão de arroz”. O cuidado na construção imagética é um zelo pela filigrana, pelo pormenor, realçando a grandeza do poema.

Em “Pentecostes” o eu-lírico está só, doente e reza “como quem vai morrer”. Pontua:  “O zelo de um espírito / até então duro e sem meiguice / vem em meu socorro e vem amoroso. / Convalescente de mim, / faço um carinho no meu próprio sexo / e o nome desse espírito é coragem”. O espírito, que é o Espírito Santo do título do poema, é também o espírito do eu-lírico que reza. E que se automassageia sexualmente.

Carne e desejo: pecado. Corpo e alma: opostos. Eis a lei da religiosidade judaico-cristã. No entanto, no poema tudo é absolvido pelo milagre da linguagem poética. Que instaura uma nova realidade reinventando o EU: “meu socorro”, “de mim”, “faço”, “no meu próprio”. O outro, o divino, é uma parte palpável do eu suplicante. Criador e criatura unem-se num neobarroquismo que recicla o homem dilacerado de todos os tempos.

Em Miserere, Adélia Prado não faz concessão à poesia fácil. Em entrevista ao jornalista Luciano Trigo declarou que tornar o poema palatável “é crime”. Esta sabedoria poética está muito bem expressa nesta obra. Não é a religiosidade, ou a velada crítica a ela, que tornam ele livro belo. É o uso que Adélia voltou a fazer da linguagem poética. Não é um livro para religiosos ou ateus.  É um livro para amantes da poesia. Um livro de fé e facas. Crença e cortes. Doa a quem doer.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:17
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Poesia e o Prêmio Telecom

Amador Ribeiro Neto

 

No próximo mês serão conhecidos os vencedores do Prêmio Portugal Telecom 2014. Em poesia foram 172 livros inscritos. Para a semifinal ficaram 22. E pra final, 4.

A premiação passa por três etapas. A primeira é formada por 300 profissionais do meio literário e elege 60 livros: vinte em cada uma das três categorias – romance, poesia, conto/crônica.

A segunda, por seis jurados mais os quatro curadores. Ela elege os doze livros finalistas. Na terceira e última etapa o júri, com a mesma composição anterior, escolhe o vencedor de cada categoria.

Os curadores são Cintia Moscovich (contos e crônicas), Lourival Holanda (romance), Sérgio Medeiros (poesia) e Selma Caetano (coordenadora). Os jurados: João Cezar de Castro Rocha, José Castello, Leyla Perrone-Moisés, Luiz Costa Lima, Manuel da Costa Pinto e Regina Zilbermann.

Dentre os 22 livros de poesia da segunda fase do concurso não entendo como foi possível figurar entre eles Ligue os pontos, poemas de amor e big bang de Gregório Duvivier; O aquário desenterrado de Samarone Lima; Quadras paulistanas de Fabricio Corsaletti; Rabo de baleia de Alice Sant’Anna e Rua da padaria de Bruna Beber. Todos, sem exceção, adeptos da poesia palatável, cheia de lugar comum. E torpe.

Por outro lado, senti falta de títulos como  Bernini de Horacio Costa, A galinha e outros bichos inteligentes de Ronald Polito, Recife, no hay de Delmo Montenegro, Corpos em  cena de Susanna Busato, Via férrea de Mário  Alex Rosa,  Diálogos  e sermões de Frei Eusébio do Amor Perfeito de Mafra Carbonieri, O choro da aranha de Sérgio Medeiros, Exília de Alexandre Marino.

Todavia, gostei de reencontrar Adélia Prado com seu belo Miserere, Chico Lopes com Caderno provinciano e Luis Maffei com Signos de Camões.

E, claro, gostei inteiramente da lista dos 4 finalistas: Ximerix de Zuca Sardan; Vozes de Maria Luíza do Amaral; Brasa enganosa de Guilherme Gontijo Flores e Observação do verão seguido de Fogo de Gastão Cruz.

Destes quatro pondero que o mais inventivo, o que possui a linguagem mais irreverentemente rigorosa e que apresenta uma vasta gama de ideias é Ximerix, de Zuca Sardan.

Ele rompe as fronteiras dos gêneros literários ao misturar poesia com drama, HQ com publicidade, música popular eletrônica com erudita. No mesmo caldeirão, junta o vanguardista Mallarmé com as sextilhas dos versos populares. Marx e Chaplin, Eisenstein e Fellini. Nonsense com crítica social didática. Ante sua feroz e ferina inventividade poética o riso vai do chiste ao chulo, num pulo. Carnavaliza o pensamento e a linguagem. Trapaceia com a língua e a literatura de plantão. Desmonta o mise en scène das caras e bocas patricinhas da poesia contemporânea. Sem dó. Com todo gás.

Resumo da ópera: Ximerix  é um dos livros mais gostosos de se ler dos  últimos anos. E dos mais criativos da nova poesia em língua portuguesa. Merece o Telecom de poesia, sem dúvida alguma.

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:12
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Poesia de guardanapo e Facebook

Amador Ribeiro Neto

 

Pedro Gabriel nasceu em 1984, na África, filho de um suíço com uma brasileira. Vive no Rio e adora os bares cariocas. Publicou Eu me chamo Antônio (Rio de Janeiro: Editora Intríseca), um best-seller.

O livro é uma compilação de desenhos e versos feitos a caneta hidrográfica em guardanapos dos bares e depois publicados no Facebook. Em menos de um ano Pedro Gabriel conseguiu o prodígio de ter mais de 300.000 seguidores.

O fato comprova que a “poesia” contemporânea usa e abusa dos trocadilhos boçais. E de uma visualidade supostamente advinda da poesia concreta.

A quarta capa avisa: trata-se de um volume com “grandes doses de irreverência e pitadas de poesia”. Irreverência? Prefiro dizer subserviência ao mercado editorial de facilidades, pressa e comunicação barata. Pitadas de poesia? Nem isto: há apenas uma mínima porção poética aqui. Aquela que existe enquanto intenção de fazer. E que não se realiza.

Vejamos alguns exemplos colhidos ao acaso: “Estou passando por uma frase difícil”. E, para completar o desastre verbal, quem profere tal desdita é o coração de um paciente estirado no divã. Caso para psicanálise? O leitor decida.

A bela canção de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada por Elis Regina, é parodiada: “Na dança do amor: dor pra cá, dor pra lá”. Pra completar a cena, a foto de um casal moderninho ensaiando um passo de tango. Dói na alma. Dói no corpo.

Claro que a moda da autoajuda não poderia ficar fora deste livro: “Sonhe alto. O máximo que pode acontecer é você realizar um sonho à altura”. “O amor não dá pontos sem nós”. Trocadilhos baratos. Ponderações pífias. Autoajuda adolescente.

Outro: “Amores sempre vêm e vão, mas nunca vêm em vão”. Que armadilha mais inútil de assonâncias e aliterações. A não ser que se considere válido todo e qualquer trocadilho. Aí, vamos combinar: ser beócio é a chave de entrada no mundo da poesia de Facebook.

Estas frases são desenhadas nos guardanapos de bar como se fossem grafitadas nos muros da cidade. É possível estabelecer relação entre o jovem poeta boêmio e o rapaz grafiteiro? Não: soaria falso. Seria dourar a pílula. Os grafites são anos-luz melhores que as “sacações” de Eu me chamo Antônio.

Na apresentação do livro Pedro Gabriel  diz duas coisas relevantes: 1. “É assim, nesse botequim, / Sem pretensão alguma de ser poesia / Que nasceu a minha poesia”. É o próprio poeta quem avisa. Bobo quem não acredita nele. 2. “Às vezes bebo além da conta e minha letra acaba perdendo um pouquinho de sobriedade também”. Se fosse apenas a caligrafia que perdesse a forma, nenhum problema. Sua “poesia’ não tem forma. Logo, nem existe.

Pra finalizar: “Me amasse como se eu te amasse também”. “De não em não o amor enche o saco”. “O amor só termina quando não começa”. “Um grande amor não tem tamanho”. Basta. Pedro Gabriel emparelha-se com as Angélicas Freitas, os Gregórios Duvivier, as Brunas Beber, os Fabrícios Corsaletti. Fim.

 

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 16:10
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Poesia suave

Amador Ribeiro Neto

 

André Luiz Cosme Ladeia nasceu no Rio em 1983. Suave como a morte (Guaratinguetá-SP: Ed. Penalux, 2014) marca sua estreia em poesia. Tal como boa parte dos livros de estreia, este anuncia um poeta que, movido por boas intenções, alguns acertos e muitos erros, chega à publicação. Apressadamente. Um tempo a mais com o volume descansando na gaveta, estou certo, ajudaria na reorganização e reescritura dos poemas.

O livro busca ser uma grande reflexão sobre a vida, a morte e o tempo. Alguns dos títulos de cada uma das seis partes que o compõem apontam para este desejo de abarcar o mundo, suas entranhas e seus aléns. Como exemplificação cito o título da parte I: “O tempo, a Terra, o Homem e a Morte”. Em nove páginas o poeta acredita ter dado conta da amplitude de seu tema. Não conseguiu. Também pudera: quem o conseguiria?

Em todo caso, o melhor poema é aquele que abre o livro. E, não à-toa, transcrito na quarta capa do volume. Chama-se “Nascimento”. Cito-o: “Quando nasci / A morte / Veio me visitar / E me presenteou / Com seu relógio negro // O coveiro que fez meu parto / Me benzeu / E depois / Começou a preparar a minha lápide // As bailarinas dançavam / Com a morte / Ao som de uma música lúgubre // Os sinos badalaram / Para comemorar o início / Do meu enterro”.

A imagem da morte contida no nascimento não é nova. Mas o poeta soube trabalhar esta inversão escapando do clichê: o parteiro é o coveiro e os sinos badalam, não pelo batizado, mas pelo enterro. Este espelhar de imagens deveria ser mais explorado por Luiz André Cosme Ladeia. Inda mais considerando-se que uma das imagens recorrentes no livro é a do espelho. Tanto o objeto em si quanto a sua reverberação figurada.

Outra constate no livro é a da ideia de nunca ter-se tido aquilo que se perdeu. Aparece nos poemas “Saudade”, “Raízes” e “Ato II”. Da mesma forma, tal imagem deve ser melhor trabalhada.  Ao menos para evitar-se a previsibilidade de versos como “A saudade que fica / É a de quem fica / Quem vai já não a tem mais / Liberdade é tudo”. Ou: “Por mais que / Nenhum deles me pertença / Não se pode deixar / O que não se deixa”. Ou: “E a lembrança é tudo aquilo / Que se eterniza na memória /Daquilo que  já se passou / Regozijamo-nos com o que já não existe”.

Fazer poesia com tom de reflexão é uma escolha delicada. O texto poético, por si, comunica dentro um vasto leque polissêmico. A dita “comunicação poética” é uma forma singular de uso da linguagem, uma vez que a função didática é vazada pela dinâmica de som e sentido, como bem observa o semioticista russo R. Jakobson.

Em Suave como a morte, é evidente a tentativa de fazer poesia a partir de ideias. Isto é legítimo. A dificuldade está na pulverização da melodia e da imagética em prol de um discurso de máximas vulgarizadas pelas formulações que beiram o óbvio. Como nos versos: “Que vida miserável! / Não poder olhar para o céu e ver o sol! / Vê-lo sorrir...”. André Luiz Cosme Ladeia deixa entrever que leva jeito para a poesia. Faltou-lhe tempo de maturação. Além de leitura de poesia e teoria. Aguardamos seu novo livro.

 

 

 



Escrito por Amador Ribeiro Neto às 15:54
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