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| Coluna de Amador Ribeiro Neto |
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| 22 de julho de 2008 |
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Poesia pra crianças
Escrever para crianças não é tarefa fácil. Os erros e enganos proliferam à mancheia. Ora o tom moralista, como se todo livro de criança tivesse de "dar uma lição". Ora a linguagem falsamente coloquial, traída pelos termos mais esdrúxulos. Ora o projeto bem-intencionado de apenas entreter, mas que acaba menosprezando a inteligência e a sensibilidade da criança.
Mário Alex Rosa escreveu um livro de poemas para crianças que é bem-humorado, divertido e, acima de tudo, poético. Um livro poético pra crianças: isto é notável! Beatriz Mom ilustrou com as mesmas qualidades do autor: seus desenhos não espelham o texto. Antes: comentam-no com a propriedade ambígua da poesia.
"ABC Futebol Clube" é ainda uma obra feita com grandes cuidados gráficos: do tipo do papel usado à reprodução das cores, sem contar as duas páginas centrais, convertidas em quatro, abrindo-se como um campo de futebol se entrega aos seus torcedores. E é dada a partida: "Atenção, atenção / foi dada a formação do abc: / a escalação tem ares de ataque: (...)". E por aí segue o jogo de futebol e o jogo com as letras do alfabeto e as palavras por elas formadas. É um festival de cores, sons, movimentos.
O poema "Alice" faz um jogo de espelhamentos que pega o leitor do começo ao fim. Cito um fragmento: "Ela só parecia / desaparecer de aparecer. // Ela só sabia de saber / o contrário do fazer.// Alice pra brincar mais do que podia / coloriu a noite de dia. // Alice foi ao mundo das maravilhas / e trouxe um livro. // O que se abriu / foi um mundo de magias. // Alice descobriu nas páginas / como é bom viver na poesia".
Esta brincadeira de dizer às avessas, de inventar o inusitado, de rimar em dístico, e a "descoberta" final de Alice face à poesia, deleita o leitor de cinco a 95 anos. Todos adentram no mundo mágico da poesia de Mário que tem um toque de Bandeira, outro de José Paulo Paes e uma pitada (bem chiste) de Paulo Leminski.
Tudo dito com a leveza de conhecimentos que têm até um toque "científico", lembrando o bandeiriano "Poema tirado de uma notícia de jornal". Vejamos "Poema desentranhado da natureza": "o peixe nasce nadando / o pássaro nasce quase voando / a água é dos peixes / como o céus é dos pássaros / e a terra dos homens / que não nascem andando". Tem também um toque de Castro Alves revisitado por Caetano. Beleza! (Esta coluna é dedicada à Nara Limeira, incentivadora número um dos pequeninos leitores). | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:48
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Jornal A União
Ronald Polito
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| Coluna de Amador Ribeiro Neto |
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| 15 de julho de 2008 |
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O "livrobjeto" de Ronald Polito
Há muito tempo o livro deixou de ser apenas aquele volume encadernado. Através dos tempos o livro tem passado por várias mutações. Mas a partir da década de 60, em especial, o livro tem se transformado em objetos ora interessantes, ora curiosos, e na maioria das vezes em algo artístico, provocativo e lúdico.
O livro de Ronald Polito se chama "Objeto", o que confere, desde o título, forte materialidade à poesia nele contida. São pranchas dobradas, círculos transparentes, minicartões, um quase-convite, etc. Numa prancha dura de papel reciclado lê-se a palavra problema em português, inglês e francês. No caso, ao jogar com o itálico, o poeta induz a leitura de que seja em que língua for, a poesia encara o problema de comunicação e de linguagem. A escolha destas 3 línguas coincide com as mesmas que Augusto de Campos usou, na década de 60, quando fez "cidade". É evidente a interação dos poemas entre si, interrrelacionando mundos, afinal, afins.
A fina e cortante ironia está num cartão que diz "a repetição é incrível" e logo abaixo as aspas que indicam repetição. Melhor: há 2 cartões iguais a este. De fato estamos dentro da pós-modernidade e tudo está dito. Um cartão dobrado traz na frente a palavra "gata". Ao ser aberto, os dois "as" convertem-se em dois grandes olhos verdes informatizados: @. @ . Rascante irrisão em tempos do Deus Digital.
Um cartão todo negro traz prensada a palavra "light". Ao abri-lo há uma minúscula incisão no centro. Vendo e lendo o cartão com mais cuidado parece que há uma coincidência entre o pingo de "light" e o furo da página seguinte. A luz e o apagão: dois irmãos do "chiaroscuro"? Barroco revisitado pelo neobarroco? O poema "A mágica de AZ" é a construção de nosso alfabeto numa simetria perfeita, desde que excluídos o "A" e o "Z". Ou seja, a linguagem da poesia não tem lugar. Seu lugar é o não-lugar. Este poema dialoga com o "Che" de Joan Brossa no qual o poeta catalão apaga as 3 letras de "Che" do alfabeto. (In)comunicação poética ou poético-engagée, a verdade é que o poema visual é feito (aqui) com palavras.
Um cartão bordô traz os dois pontos de exclamação da língua hispânica. Nenhuma palavra entre eles. Contemplação do absoluto. Com o auxílio da caligrafia que risca/desenha os sinais. Condensação total: aqui, poesia visual sem palavras. "Objeto": "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" diz o Livro do Conselho. Ler/ver/jogar. | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:07
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| 01 de julho de 2008 |
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Centenário de Machado de Assis
Se perguntarem a 1000 leitores entre exigentes e superexigentes (acredite: eles existem...) qual o escritor brasileiro mais importante de todos os tempos a resposta será 1000% Machado de Assis. Há Rosa, há Clarice, há Graciliano e mais 2 ou 3. Mas dá Machado na cabeça. Pode apostar.
Quem não se lembra de contos absolutamente arrebatadores do bruxo? E dos romances cada qual mais irreverente e bem escrito que o outro?
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o capítulo LV é intitulado "O velho diálogo de Adão e Eva". É um achado. Um senhor achado genial. Transcrevo o capítulo tal como se encontra na edição da Nova Aguilar:
Brás Cubas ...................................................................................?
Virgília ................................................................
Brás Cubas ....................................................................................................................
................................................................................................
Virgília ................................................................................!
Brás Cubas ................................................................
Virgília ............................................................................................................................
.......................................................................? ..............................................................
..................................................
Brás Cubas .............................................................
Virgília ......................................................................
Brás Cubas ....................................................................................................................
...............................................................................................!........................................
................................!......................................................................................................
............................................................................!
Virgília .......................................................................................................?
Brás Cubas .........................................................................!
Virgília ...............................................................................!
Uma bela homenagem à (in)comunicabilidade humana desde tempos imemoriais. Além de ser um verdadeiro “tombeau” de Mallarmé, Octavio Paz, Pound, João Alexandre Barbosa e de Haroldo de Campos. Delícias para semioticistas.
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Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:20
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68 em 3 questões
Amador Ribeiro Neto
Em entrevista recente ao Jornal da Paraíba, Astier Basílio me fez 3 perguntas-provocações. Dadas as limitações do jornal, ele teve de condensar as respostas. O texto final ficou muito bom, mas me deu vontade de expor a íntegra desta minientrevista. É o que segue.
1- O Mangue Beat e o Tropicalismo refletem, na sua opinão, alguns princípios do manifesto?
Caetano, em 68, numa célebre entrevista a Augusto de Campos, declarou que o Tropicalismo era um Neoantropofagismo. O Manguebeat bebeu fartamente nas águas do Tropicalismo. Logo, os 2 pagam tributo ao manifesto oswaldiano. Esta prática de comer o que vem de fora (o rock, o punk, a pop art, Stravinski, Cage, pintura Expressionista, etc.) somada ao que temos (o samba, o samba de roda, a ciranda, o maracatu, o brega, o kitsch, o erudito, o popular), tudo digerido e devolvido como produto novo foi o Tropicalismo e foi o Manguebeat. A base é a irreverência do Manifesto Antropofágico que digeria tudo o "que não é meu" e devolve tudo "novo", como produto "nosso".
Esta abertura pré-pós-modernismo de Oswald é a grande sacada da arte modernista e contemporânea em terra brasilis.
2- Na música brasileira, de que maneira o manifesto antropofágico serviu de influência ou base para alguns artistas?
Na deglutição de tudo o que vinha de fora e era transformado em "coisa nossa", como diria o Noel. Noel valorizou as coisas do Brasil e fez delas matéria para seus sambas. O Tropicalismo pegou Noel, associou-o a Carmen Miranda, ao rock emergente, aos ruídos incorporados como música, depois de Cage, entrou nos terreiros de umbanda e candomblé, nos sambas de roda da Bahia, namorou o iê-iê-iê da Jovem Guarda, misturou o cimena de Eisenstein a canções como "Domingo no parque", o cinema de Godard a "Alegria Alegria", foi dirigido pela batuta crítico-criativa de Rogério Duprat e Damiano Cozzella e fez uma festa no palco e no circo de nossa música popular. Sem o Manifesto não teríamos, além do Tropicalismo e do Manguebeat, o samba-rap de Marcelo D2, o samba irreverente e inusitado de Max de Castro e Otto, ou de Mundo Livre S/A, ou dos geniais Los Hermanos, entre tantos.
3- Onde podemos encontrar, em artistas da música brasileira, elementos que dialoguem com a antropofagia?
Chico César é uma feliz cria caetânica em todos os aspectos: da Antropofagia à incorporação de recursos da Poesia Concreta. Otto nasceu em meio ao Manguebeat, e agora tem uma levada própria, que se inova a cada novo cedê. Este músico camaleônico não faz a própria cama com nada. Nem com o que lhe garante sucesso, como "Samba pra burro", o primeiro cedê solo. Zeca Baleiro é tão antropofágico que já se vestiu de tropicalista na capa do cedê "Vô imbolá". Os três de "+ 2" comem no prato tropicalista com apetite dos glutões: Moreno +2; Kassin +2, Domenico +2. Seus cedês mesclam um rol de sons que só o Karnak e Os Mulheres Negras tinham conseguido antes. Mutantes e Secos e Molhados são figurinhas carimbadas nesta relação. Eles são nomes sagrados na arte da profanação. Isto na música.
Nas artes plásticas, Beatriz Milhazes é toda oswaldiana nas formas, nas cores e nas dimensões de seus trabalhos. Ela acaba de consagrar-se como o primeiro artista brasileiro a conseguir mais de 1 milhão de dólares por um só trabalho. Além dela, a pintura a la grafitagem de José Roberto Aguilar é antropofágica. Aguilar e a Banda Performática atuam tanto na música como nas artes plásticas. Suas apresentações mesclam música e pintura de teças ap vivo. Mais tropicalista que isto pra quê?
Na moda, o estilista Alexandre Hercovitz faz seus modelos vestirem a antropogafia, da roupa às poses. Joãozinho Trinta dos carnavais canibais no Sambódromo. A pintura/instalação de Antônio Dias, os parangolés de Hélio Oiticica - retomados por Adriana Calcanhoto. As esculturas móbiles de Lygia Clarck. As instalações inusitadas de Nuno Ramos. O jogo trans-histórico da memória, de individual a coletiva, por José Rufino. O cinema desconcertamente apaixonante de Júlio Bressane. A poesia de Carlos Ávila, Valdo Motta e Arnaldo Antunes - este último possui carteirinha carimbada pelo chefe-mor da Antropofagia. As prosas desestabilizadoras de Jair Ferreira dos Santos e de Evandro Affonso Ferreira: marcas da Antropofagia oswaldiana. E por aí afora. Enfim: o Manifesto Antropofágico está para a arte brasileira tal como o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, está para o socialismo universal. Com a ressalva que o socialismo está em crise. E a arte brasileira vive um dos momentos mais ricos e profícuos.
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 09:34
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| 20 de maio de 2008 |
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O show da Madonna
Na minha infância e adolescência no interior de S. Paulo eu freqüentava as missas da igreja católica. Depois, desde a juventude, nunca mais. Nos últimos dias, por conta do falecimento do pai de duas amigas, fui à missa de sétimo dia. Quer dizer, missa de sétimo dia pra mim e pra minhas amigas. Porque tinha "intenção" de tudo. Incluam-se neste tudo: aniversários natalícios, aniversário de 50 anos de casados, ação de graças pela formatura, aniversário de morte desde um mês a 15 anos. Passando pelo de sétimo dia, "of course".
Até aí tudo bem. Os tempos são pós-modernos e pode tudo ao mesmo tempo agora. Tempos titânicos, como bem disse o Daniel Sampaio em sua coluna de estréia aqui. Mas realizar micareta dentro desta missa plurissêmica, pode? É! A missa é um carnaval fora de época. E pelo que entendi em conversas com devotos é assim o ano todo. Até no carnaval! Beleza pura. Odara. Maravilha. Mara! Só falta o trio elétrico, já que os cordeiros estão ali.
O padre ciceroneava a corda, digo o cordão carnavalesco, assessorado por paquitos e paquitas devidamente paramentados. Os paramentos tinham o mesmo corte dos abadás. O som era de primeira, com uma percussão fortíssima. Ao final da missa fui checar com uma amiga atéia, que comparecera por solidariedade à nossa amiga: aquele batuque não é ponto de umbanda? É! Agora é a vez de a igreja católica fazer o sincretismo religioso.
No meio da missa, esculacho dos esculachos: houve um esquete arrastado por dois casais bem-intencionados. Caramba: até os católicos se esqueceram de que de boas intenções o inferno está cheio? Ou já se associaram ao diabinho, antes tão temido? Foi um vexame sem graça. Talvez por isto uma das moças (pretensamente atriz) bocejou em cena. Digo, em frente ao altar. Imagine eu ali, mais perdido que cego em tiroteio no Rio.
Depois do teatrinho o padre puxou uma música. Com coreografia. Mãozinhas e mãozonas pro alto. Da direita pra esquerda. Da esquerda pra direita. Me vem à lembrança, não sei por que gratuidade, um show de Zezé de Camargo e Luciano. Faltava apenas ao padre o corpinho de Zezé. A coreografia era bem sertaneja-de-plástico. "É o amor".
De quando em quando o padre inventava uma salva de palmas – e eu me sentindo num programa de auditório. Uma gracinha!, diria a Hebe Camargo. Mas tem mais: de repente o padre começa a esguichar água nos presentes. Não eram gotículas de água benta. Eram jatos de açudes sangrando. Nos tempos do Chacrinha era bacalhau que o animador jogava na platéia. Mais palatável. Foi me dando um faniquito. Caí fora. Prefiro o show da Madonna! | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 17:16
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barrocidade, um blog
concretropicalista
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:50
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Jornal A União

capa do livro de glauco mattoso sobre poesia marginal | |
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| 29 de abril de 2008 |
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A dedicatória de Chacal (1)
Tive a felicidade de participar de uma mesa redonda no FENART discutindo a atualidade da Poesia Marginal. Chacal foi o palestrante. Falou da geração mimeógrafo e "offset". Discorreu sobre a espontaneidade desta poesia. Falou do processo de composição gráfica e temática de seus livros. Lembrou os tempos de "fumar unzinho" e aplicar um ácido. Discorreu sobre a geração desbunde. Tanto na poesia como na contracultura. Chacal foi simpático. Ou como me disse o Linaldo Guedes: "Chacal é um doce".
Tudo correu livre, leve e solto. Até que li seis páginas de um texto que questionava a existência da Poesia Marginal enquanto "poesia". Chacal respondeu que a Poesia Marginal inexistia há 30 anos. Não retruquei. Eu não estava pondo em discussão a existência da obra dos "poetas" marginais. Aí está, reeditada, a obra de Cacaso, Nicolas Beher e do próprio Chacal. Pode até parecer, mas não sou louco. Nem louco varrido. Não questionei a materialidade da "obra" "poética" produzida na década de 70. Tanto que em meus cursos de Teoria da Poesia, na UFPB, trabalhei a Poesia Marginal.
Mas aprendi com velho amigo judeu um provérbio, se não me falha a memória, judaico que diz mais ou menos assim: se um cavalo te dá um coice, você não vai dar um coice nele. Você segue seu caminho. Mas se um cara te dá um tapa você retruca com um soco. Penso que me faço entender.
Apoiei-me em Glauco Mattoso e em Carlos Alberto Messeder Pereira, que publicaram livros sobre a Poesia Marginal, para dizer que não existe um movimento desta poesia. O que há são "poetas" dispersos usando tanto a precariedade de impressão como uma maior precariedade: a estética. E aí lancei meu questionamento: se a Poesia Marginal é poesia, por que as análises que fazem dela são antropológicas, sociológicas, históricas e o escambau? Tudo, menos análise poética. Me interessa saber onde está a Poesia da Poesia Marginal. Este grupo de "poetas" fazia (e pelo jeito ainda faz) questão de declarar desconhecimento da tradição da poesia – tanto brasileira como internacional. E assim repetem procedimentos vencidos esteticamente. Pior: pensam que fazem o novo.
Poesia é linguagem. Ou seja, poesia pertence ao domínio da Estética. Citei Antonio Candido ao explicitar que faz-se crítica literária com os elementos intrínsecos da obra. Já sociologia da literatura faz-se privilegiando os fatores extrínsecos da obra. Nada disto foi levado em conta no debate. Nem por Chacal, nem pelos presentes. | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:42
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chacal
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| 06 de maio de 2008 |
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A dedicatória de Chacal (2)
Até no "youtube" a mesa-redonda com Chacal foi parar. Numa homenagem a Lau Siqueira (em tempo: grande poeta!) minha fala questionando a existência estética da poesia marginal aparece citada como datada, sem propósito. O ator em cena faz um muxoxo diante de minha indagação. Era a citação de um texto de Lau em seu blog. Texto que o próprio Lau reviu depois. E pôde explicar melhor.
Não sou o porta-voz de uma universidade caduca, fossilizada no berço esplêndido do cânone, como Chacal insinuou. Todos que me conhecem sabem que sou um "scholar", naquilo que este termo encerra de pesquisador, estudioso e aplicado intelectualmente. Mesmo porque sou um dos mais antiacadêmicos da universidade. Aqueles que foram ou são meus alunos, e aqueles que me lêem, sabem disto. É falso contrapor a universidade à rua. Como se uma das duas estivesse com a razão. E a razão fosse excludente. Bobagem.
E mais: minha fala não foi censora, como afirmou Chacal. Credito esta palavra ao desespero da hora, na busca argumentativa do vale-tudo pró-Poesia Marginal. Afinal ele e eu fomos vítimas da ditadura militar. No meu caso, fui perseguido tanto por policiais e dedo-duros em passeatas como por telefonemas anônimos ameaçando a vida de minha filha recém-nascida. Ele e eu vivemos a ditadura dos anos 70 até meados de 80. Sabemos quão aterrorizante ela foi. Por isto a palavra censura é em absoluto infeliz. Além de um destempero. Credito à pane que acometeu Chacal ante meus argumentos embasados.
A Poesia Marginal se diz influenciada pelo Modernismo e pelo Tropicalismo. Dois movimentos marcadamente expressivos e inventores de linguagens. Mas a vinculação com o primeiro não passa do uso diluído do humor e da oralidade. Com o Tropicalismo se deu o mesmo. Do revolucionário movimento que desestruturou para sempre os limites entre popular e erudito, bom e mau gosto, doméstico e internacional, a Poesia Marginal ficou com o desbunde. A porra-louquice. Pena. Porque os tropicalistas souberam usar tanto a Poesia Concreta como o genuíno Oswald. Tanto a bandinha de coreto como Stravinsky.
O próprio Chacal, ao falar de sua formação intelectual, declarou em 1977: "Eu lia pouco, muitos contos de fada, Monteiro Lobato". Claro que isto vai repercutir na "poesia" dele. Depois de três horas e cinco minutos de mesa-redonda ele, gentilmente, me presenteou com um exemplar da revista "O carioca" com a taxativa dedicatória: "Ao professor Amador, por seu rigor necessário, pela sua sinceridade. Abraços. Chacal. 21.4.2008". | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 22:37
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| 15 de abril de 2008 |
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Computador e poesia digital
O computador é hoje a grande máquina semiótica. Em sua tela desfilam signos dos mais variados matizes, gerando e questionando as formas de absorção das novas linguagens. Passado o tempo em que ele era apenas depósito de arquivos, agora, com a versão individual (personal computer), não há como negar que ele seja fonte de lazer, conhecimento e aprendizagem.
Frente ao universo desafiador e estimulante que ele propicia, a poesia (em especial) dispõe de um espaço a mais para as suas sempre renovadoras formas de manifestação. O cibertexto modifica nossa percepção do mundo, tanto virtual como real. E gera uma nova epistemologia.
Com a mudança do meio de produção, ou das mídias de produção altera-se o produto criado e o modo de sua recepção. O filósofo alemão Walter Benjamin já nos chamava a atenção, na década de 30, para a nova mudança da postura até física do leitor diante do surgimento do jornal – em confronto com o livro.
Da mesma forma a tela do computador impõe, não somente mudança na postura física do leitor, como na convivência e assimilação das novas mensagens.
Diante de imagens que movimentam-se associadas, ou não, a sons e cores, o repertório do receptor pede atualização face a esta nova realidade da obra artística.
Mais que objeto cultural – como pontua o semioticista russo V. Chklóvski – o texto literário é um processo cultural singular, desautomatizador, gerando novas percepções do objeto artístico, do sujeito e do mundo em si.
Em tempos de novos suportes e recursos tecnológicos, a poesia farta-se nas múltiplas possibilidades de criação face às novas mídias.
Estudar as representações daí advindas é um desafio aos ensaístas e críticos da poesia, bem como aos poetas.
Arte-ciência-tecnologia embrincam-se, mais que em outras épocas históricas. Cientes deste fato, é hora de pesquisar, compreender e assimilar as contribuições da era digital. O virtual ocupa hoje o espaço do real. E o real está se transmutando em virtual.
No caso específico de nós, estudiosos e poetas, chegou a hora da análise, interpretação e produção da infopoesia. Ou ciberpoesia ou poesia digital – uma vez que o nome desta poesia ainda não foi fixado. Mas hoje é tempo da poesia e do computador. | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:14
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| 01 de abril de 2008 |
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O paciente do transtorno bipolar (1)
Chico Buarque numa das mais conhecidas canções: "E a cidade toda se enfeitou /pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / (...) Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou / E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor".
O portador do transtorno bipolar vive a festa e o velório. Muitas vezes em fração de segundos. Exaure-se na profusão de sentimentos, sensações e pensamentos incontroláveis. Oscila entre a euforia e a depressão. É festa da banda passando e a dor depois que a banda se foi. Seu humor é ácido ou doce. Une ou dissocia. Pra cima ou pra baixo.
Não precisa haver motivo para o paciente bipolar estar bem: ele simplesmente vibra, fala sem parar, canta, entusiasma os amigos do trabalho ou da mesa do bar. Tem um humor admirável e sedutor. Mas entra em depressão. Não precisa haver motivo para ele deprimir-se: ele se isola, evita compromissos sociais, fica taciturno. Coisas triviais como escovar dentes, pentear cabelos e tomar banho tornam-se insuportáveis.
Na euforia ele é o dono de qualquer situação que se apresente. É desinibido, sabe contar ótimas piadas, tem o senso de humor à flor da pele. Mas depois que todos vão embora e ele fica só, vem a sensação insuportável de um imenso vazio. Ele teme ficar só. Se não há jeito, liga a televisão, liga o aparelho de som, liga o computador. Em vão: nada o consola. Não suporta estar sozinho. Precisa de palco e público para exibir-se.
Na depressão os compromissos cotidianos tornam-se insuportáveis. Pagar contas no banco, tomar o ônibus, ir pro trabalho, cumprimentar o porteiro do prédio, dar uma aula, escrever uma linha. O mundo fica inviabilizado. Ele prefere ficar no escuro. E só. Se o telefone toca, se chega o jornal ou a revista que assina, tudo soa demasiado, estressante, exaustivo. Não raro prefere morrer. Drummond diz num poema: "Alguns, achando bárbaro o espetáculo, / prefeririam (os delicados) morrer". O poeta destaca os delicados como se os protegesse entre parênteses. Na verdade ele os destaca com os parênteses. E tece uma fina ironia sobre aqueles que, diante da vida, "acham bárbaro o espetáculo". Talvez Drummond ignorasse a psiquiatria e a psicanálise na sua fase engajada na década de 40.
Para o paciente bipolar a vivência dos pólos da euforia e da depressão é contínua. Seu humor pode oscilar em fração de segundos. Mas pode também permanecer por meses num estágio só. A solução não está no conselho moral e/ou moralista: "Você vai sair desta. Você é forte. Não é agora que você vai nos decepcionar". (Continuo na semana que vem). | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 20:00
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| 08 de abril de 2008 |
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O paciente do transtorno bipolar (2)
Fernando Pessoa, em seu heterônimo Álvaro de Campos, deixou-nos um legado poético dos mais sólidos e resistentes ao tempo estético e existencial. Homem marcado pelas sensações antitéticas e paradoxais que a cidade grande e a modernidade impingem em seus habitantes, este heterônimo carrega em si os pólos do transtorno bipolar.
Num momento a saudação eufórica a Whitman: "De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro / Saúdo-te, Walt, saúdo-te meu irmão em Universo". A seguir a constatação depressiva: "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada". É interessante que, no verso seguinte à autodepreciação ele proclame: "À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Esta mescla de sentimentos, sensações e pensamentos oscilantes levam o paciente à exaustão física e psicológica. Tudo é tudo e tudo é nada. Os ritmos biológicos essenciais sofrem alterações: é o sono exagerado ou é a insônia. O apetite some ou multiplica-se. O indivíduo é tomado por uma agitação louca. Ou por uma lentidão avassaladora.
Assim, o poder de concentração intelectual atinge o grau zero de qualidade. A memória falha mesmo com fatos triviais recentíssimos. Em uma conversa muito comumente ele perde o fio da meada. Inutilmente tenta memorizar piadas, músicas, poemas. Para ele tudo parece começar do nada. E acabar no nada. O pessimismo marca a vida do bipolar na fase depressiva, bem como a perda do prazer. Na fase eufórica o otimismo é exagerado. Se o leitor lembrou-se agora de Cazuza, acertou: ele era um bipolar típico. Assim como muitos dos artistas. A irritabilidade e a ansiedade são outros sintomas clássicos. O paciente isola e se sente incomodado com a presença do outro. Mesmo em depressão as palavras de consolo são-lhe motivação para a mais alta irritabilidade.
Isto sem considerarmos que, sem a medicação psiquiátrica, o bipolar corre sérios riscos de vida. Ele pensa continuamente na morte. O índice de suicido entre estes pacientes é alto. Nada irrita mais o bipolar que as palavras de consolo moral, as dicas de auto-estima, as citações religiosas. Este procedimento só aumenta sua culpa. E ele se sente ainda menor.
O cotidiano e seus afazeres corriqueiros são um peso para ele. O mesmo Álvaro de Campos diz: "Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo". Por ser uma doença bio-psico-social crônica, o transtorno bipolar pede tratamento ininterrupto. Isto é essencial. | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 19:58
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Dante Alighieri
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| 25 de março de 2008 |
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Versos que nos pegam em cheio
Há versos que nos pegam em cheio. Sejam de poemas ou de canções. Manuel Bandeira elegeu como um dos versos mais belos da Língua Portuguesa aquele de Orestes Barbosa em "Chão de estrelas": "Tu pisavas nos astros distraída".
Você pode concordar ou não com Bandeira, mas é importante atentar para o fato de que esta canção data de 1937. E hoje, setenta e um anos depois, ainda tem gente torcendo o nariz para a riqueza estética inquestionável da nossa música popular.
Bem fez Manuel da Costa Pinto ao inserir em seu livro "Literatura brasileira hoje" (S. Paulo: PubliFolha) o nome de Caetano Veloso lado a lado com o dos poetas mais representativos das últimas cinco décadas.
Agora literatura. Antes de apresentar o verso digo: está na tradução que Augusto de Campos fez do Canto I do "Inferno" da "Divina Comédia" de Dante Alighieri. A situação é a seguinte: o eu-lírico está exausto, como o náufrago recém salvo, e vê à sua frente as portas do inferno, jamais transpostas por um homem vivo. Ele, atrevidamente, começa a andar num "plano deserto".
É aqui que o verso me pegou. O eu-lírico está exaurido, exangue. Não obstante tem de enfrentar o Inferno. A angústia enche-lhe o "lago do peito". Anda como se estivesse nas areias de um deserto. E surge o verso: "pé firme embaixo, mas incerto o passo".
A imagem é de algo preciso e exato: o movimento físico dos pés no ato de subir e descer sobre e sob as areias. O andar cambeta, mancho, coxo. Firme em baixo: ou seja, quando afunda. Não obstante, é "incerto o passo", já que a areia não permite movimentos seguros.
Assim, há uma base firme, que podemos entender como o desejo de adentrar o Inferno, mas há também a inexatidão do passo inseguro, do escuro que há à frente.
A descrição magistral de um andar desnivelado metaforiza o desejo e a repulsa presentes nos gestos do homem, da humanidade.
Este verso ilumina o caminho do homem sobre a terra. A própria história da humanidade movida a impulsos de vida e morte. Tentativas de acerto e erro. Talvez a vida não seja de modo algum. Ou como nas palavras de Estobeu, que Montaigne mandou escrever nas paredes de sua biblioteca: "Não é desse modo nem daquele, nem de nenhum dos dois". A vida alçada como eterna pergunta: como? pra quê? por quê? Até quando? | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 18:34
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| 18 de março de 2008 |
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Poeta, fazedor de linguagens
Barthes diante de uma fotografia de Jerônimo, último irmão de Napoleão, disse: "Vejo os olhos que viram o Imperador". Este espanto ele dividiu com os amigos. Mas ninguém parecia compartilhá-lo. Então Barthes constata: "A vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões".
A frase mais parece um verso de T.S. Elliot. Um verso, uma linha, uma frase que agarra na gente. Quem é que está ausente destas golfadas de solidão? Ninguém. Mas somente os poetas sabem transpor para a ciranda de signos um sentimento raro e trivial ao mesmo tempo. A ambigüidade é marca registrada da poesia. O poeta, senhor oceânico dos signos, sabe dizer o inaudito, o inaudível, o desdito, o prescrito, o proscrito. O poeta é aquele que se vale da palavra, da cerâmica, da tela, da areia, da luz, do ferro, da madeira, da pedra, da água, do fogo, do silêncio e dos sons para fazer poesia.
O poeta é um fazedor de linguagens. O que ele faz é ouro. Midas das mídias, é sempre um meio entre as extremidades do gozo e do martírio.
Homem do povo, o poeta sabe que nada pode fazer se ignora a língua dos bares, das feiras, dos camelódromos, dos campos, das fábricas, das cozinhas, das vias públicas, das portarias, das fazendas, dos sítios, dos cariris, dos sertões, do agreste, das praias. A língua viva do povo é a melhor matéria e o melhor material do poeta.
Um povo sem literatura é um povo fadado à bancarrota. Uma nação sem poetas está à beira da derrocada. A um triz de ser engolfada por outras nações e culturas mais fortes. A língua do poeta não pode ser a norma culta. Esta norma asfixia a flexibilidade, o molejo, o dengo de "tudo aquilo que o malandro pronuncia", como pontua Noel. Por ser tão ímpar, tão inesperadamente singular, por mandar às favas as leis do mercado, o poeta então se atreve cada vez mais na busca de uma linguagem nova. A busca pelo novo, pelo ainda não dito nem escrito, move o poeta. O poeta adora selinhos. E abomina ósculos. O poeta abraça apertado. Mas nunca dá um amplexo.
Na simplicidade do fazer (ou do dizer, já que ambos são a mesma coisa para o poeta) o poeta inaugura outros modos de ser e estar. Outro jeito de corpo. Outra moda, contra a moda.
Por ser inapreensível em todos e em nenhum modelo, o poeta cria sua própria gramática, seu próprio dicionário, sua exclusiva linguagem. Assim, seu produto não obedece às leis do mercado. O poeta vive a golpes de pequenas solidões. | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 15:26
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| 11 de março de 2008 |
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Quebra-Quilos: história e ficção
Está em cartaz apenas nestes sábado e domingo às 20h no teatro Piollin a peça "Quebra-Quilos", escrita e dirigida por Márcio Marciano. O espetáculo tem no elenco Daniel Araújo, Daniel Porpino, Roberta Alves, Sebastião Formiga, Sóia Lira, Verônica de Sousa e Zezita Matos. Merece toda a atenção pelo acerto da direção, pela qualidade de cada um dos atores e pela unidade que a obra encerra. Com esta peça nasce o "Coletivo de Teatro Alfenim" que esperamos tenha vida longa. A julgar pelo espetáculo de estréia muita coisa boa pode estar a caminho.
O título da peça faz referência à revolta dos "quebra-quilos". Nela nordestinos, mais especificamente paraibanos, em 1874, se levantam contra as determinações do Império. Não querem que as medidas populares como a onça, a mão, a braça, o palmo, a légua, etc., sejam substituídas pelo metro, quilo e litro.
Ainda que Vargas Llosa tenha se valido desta revolta para explicar a repulsa que os integrantes do Fórum Social de Porto Alegre manifestaram pela Globalização, este fato histórico continua pouco conhecido por nós brasileiros.
Também por isto a peça merece atenção. Márcio Marciano sabe valer-se do motivo histórico sem cair nas facilidades do didatismo textual. Ou da adesão apaixonada e panfletária pelo tema. Na peça o foco dramático interage com o histórico e o pessoal. A complexidade das relações humanas é vista pelo viés do amor e ódio. Adesão e negação. Condescendência e irredutibilidade. Compreensão e desrazão. Música, humor. Frases de grande expressividade reflexivo-poética mantêm o espectador ligado na peça.
Do público é exigida tanto a reflexão analítica como a receptividade poética. Destaco três cenas muito bem realizadas. Um: a do circo, com realce para a meninice ingênua da malabarista vivida por Sóia. E para a vigilância tensa de sua mãe, interpretada magistralmente por Zezita Matos. Dois: a da feira: cantorias, vozerios, zuadas entrecortam-se por silêncios repentinos, retornam. Vale destacar que em ambas as cenas todo o elenco participa. Em uníssono. Três: a dos dois soldados montando guarda sob a iminência do ataque dos revoltosos. Estresse e humor alternam-se. Merece também distinção o desempenho sempre admirável de Daniel Araújo, um dos nossos atores dos mais completos. Roberta Alves como a(s) negra(s) é segura, exata, incisiva. Enfim, um espetáculo obrigatório | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:34
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| 04 de março de 2008 |
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Sobre os escombros das torres gêmeas
O 11 de setembro rendeu, rende e ainda renderá muita coisa sobre ele. A queda espetacular das torres gêmeas continua viva em nossa memória. Por um momento o mundo se vingou do despotismo norte-americano. Não importa quem as derrubava. Elas desabavam. Isto é o que importa(va). Pedro Osmar e Ronaldo Monte escreveram "World Trade Center" (Monte Editor, 2004) a quatro mãos. São minipoemas, variando de 2 a 6 versos. Tudo muito lacônico. Como se as palavras também tivessem de conviver com os escombros dos dois edifícios-símbolo do capitalismo norte-americano. Tudo muito condensado. Como o amálgama de ferros, concretos, corpos. Tudo muito poético. Como é poético o rude, o medonho, o trágico.
Pedro Osmar escreveu sua parte em Santo André-SP e Ronaldo Monte em João Pessoa. Os poemas são de um a provocação e de outro a réplica. Tudo denso. Compacto. Crítico. Como é a vida nos momentos de desolação e dor.
O resultado desta conversa a dois é um pequeno grande livro. Instigante. Engajado. Provocador.
Imagens-relâmpago piscando no horizonte dos versos. As palavras são pedras no caminho da carne, são sinos reverberando ao (e o) pó. Pedro: "Pedras de palavras / Comendo-se carne / E sinos batendo-se / Ao pó". Ronaldo toma a pedra e a lança num contexto de nova criação: sons e sins e sinos dos irmãos de carne: "Pedrojaguaribe. / Bate-sinos-Ró".
Pedro ataca de Guernica: "Torres-touros / Como baladas / Torres gêmeas / Em sua comédia-circo". Ronaldo contrarresponde com a inocência face ao fanatismo: "Algodão-doce / Fumegando / Em direção ao céu. / Presente de Abraão / Ao Deus que se esqueceu / Do anjo".
O pó resulta da desconstrução das torres. Os prédios no chão. O pó em direção ao alto. Jogo estranho de um American way desconjuntado. O pó sobe para depois descer. Refaz o percurso simbólico do jogo americano: império em declínio. Pedro: "Vida dos jogos de poder / Marretal / Total e completamente rock / Tabuleiro pop / Que de um lado está ninguém / E do outro / O pó que aos céus". Ronaldo: "De um lado nada. / Do outro o pó. / O nada vence / E joga o pó ao chão". De tudo fica um pouco, pontua Drummond. | | | |
Escrito por Amador Ribeiro Neto às 13:33
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